1986, a temporada que definiu uma geração #1: Ayrton Senna

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No próximo dia 26 de outubro, completam-se 30 anos do bicampeonato de Alain Prost. Contudo, mais que o bi do Professor, encerrou-se ali uma das temporadas mais emocionantes na história da F1. Em 1986, quatro ídolos do esporte – Prost, Nigel Mansell, Nelson Piquet e Ayrton Senna – se confrontaram num campeonato repleto de emoção e suspense, somente definido numa dramática etapa em Adelaide, na Austrália.

A temporada de 1986 também foi o auge da primeira era turbo. Até ali, nunca os carros tinham sido tão exigidos. Era tanta potência e aceleração que o motor Renault, segundo relatos da época, chegava até 1.100 bhp em qualificações. Fora a luta para conservar pneus e combustível ao longo dos tradicionais 300 quilômetros de percurso.

Para relembrar esta temporada, o comitê do Projeto Motor decidiu por uma abordagem pouco convencional. Em vez de soltar um artigo comemorativo no dia do bi de Prost, vamos publicar, a cada semana, um “review” de cada protagonista na briga pelo título. Por ordem de posição no campeonato, o primeiro personagem a ser abordado é o brasileiro Ayrton Senna, quarto colocado na temporada e azarão na briga pelo título.

Senna, Prost, Mansell e Piquet: protagonistas de uma geração
Senna, Prost, Mansell e Piquet: protagonistas de uma geração

Um começo animador

Senna começara a se estabelecer como um dos mais rápidos no páreo da F1 já em 1985. Naquela temporada, terminou o campeonato em quarto e amealhou sete poles e duas vitórias – o suficiente para justificar a saída do italiano Elio de Angelis, descontente com suposto favorecimento da Lotus ao paulistano.

Para o ano seguinte, o prodígio sugeriu Maurício Gugelmin, ex-companheiro de flat na Inglaterra, como colega de time. O catarinense se portaria como um puro número 2, ao contrário de De Angelis, e não ofereceria resistência. Mas o pedido foi negado: depois de Senna vetar a entrada do promissor Derek Warwick, a John Player & Sons (JPS) – principal patrocinador da equipe – impôs o ingresso do Johnny Dumfries, na necessidade de se ter no elenco um ás vindo do Reino Unido.

Senna e Mansell cruzam a linha de chegada em Jerez: um dos fins mais apertados da história
Senna e Mansell cruzam a linha de chegada em Jerez: um dos fins mais apertados da história

A presença de Dumfries, no entanto, pouco importou. Durante a temporada inteira, Senna foi o número 1. Enquanto isso, o britânico, que chegou a mostrar bom desempenho no início do ano, era sutilmente escanteado pelo time – há rumores inclusive de que corria com equipamento sucateado.

De qualquer forma, Senna começou bem o campeonato. Um pódio em Jacarepaguá e uma vitória emblemática em Jerez, derrotando a Williams de Nigel Mansell por míseros 0s014, o mantiveram na liderança do campeonato mesmo após uma falha na roda do 97T em Imola. Apenas no GP de Mônaco que o brasileiro perdeu a ponta para Alain Prost, da McLaren. O francês obteve sua segunda vitória consecutiva e pulou para a ponta.

Talvez na ânsia de reaver os pontos perdidos em San Marino, Senna se envolveu num confuso incidente durante a largada do GP da Bélgica. O brasileiro partiu bem com a Lotus da segunda fila, mas espremeu o Benetton de Gerhard Berger ao contornar a primeira curva pelo lado externo. Resultado: impediu a passagem do austríaco, que encaixotou Prost e obstruiu o trânsito inteiro. Piquet e Senna saíram ilesos do episódio, mas a vitória acabou ficando com Mansell. O britânico ultrapassou Senna na 24ª volta, quando este acabara de assumir a ponta após o abandono de Piquet. Menos mal que o brasileiro da Lotus deixou Spa com a liderança do campeonato assegurada.

Um fim resignado

Senna era ciente, entretanto, que não tinha equipamento para manter a toada. Pouco antes do GP do Canadá, afirmou que a inferioridade no balanço do 98T ficaria evidente quando os carros de Honda (Williams) e Porsche (McLaren) terminassem o páreo. Foi o que se deu em Montréal: Mansell venceu com 20s de folga para Prost, Piquet e Keke Rosberg. A Lotus? Uma volta atrás de todos, conformando-se numa melancólica briga com a Ligier de René Arnoux.

Uma reação em Detroit renovou as esperanças do brasileiro. Largando da pole, venceu com 31s de folga para Jacques Laffite, mesmo tendo caído para a oitava posição no início do percurso – em razão de um furo no pneu traseiro direito. Mas tudo não passava de um verão indiano. À exceção de Hungaroring e Adelaide, todos os traçados a partir dali seriam em pistas de alta velocidade, o que favoreceria imensamente as McLarens e as Williams.

O próprio Senna também não contribuiu. Em Paul Ricard, espatifou a Lotus na Signes após escorregar o carro em óleo esparramado pela Minardi de Andrea de Cesaris. Depois, em Brands Hatch, vinha num discreto terceiro lugar – obtido graças a uma falha elétrica no Benetton de Gerhard Berger – quando a caixa de câmbio do 98T falhou. Como consequência, caiu para o terceiro posto no Mundial de Pilotos.

Senna se valeu de uma pane seca com as McLarens de Prost e Keke Rosberg para chegar em segundo em Hockenheim, mas a melhor chance de conquistar uma nova vitória se daria em Hungaroring. Só que, no leste europeu, a despeito de todo o mito em torno do episódio, valeu a experiência de Nelson Piquet e o jovem de 26 anos acabou tendo que se conformar novamente com o vice.

A emblemática cena: Piquet ultrapassa Senna no fim da reta dos boxes em Hungaroring-1986
A emblemática cena: Piquet ultrapassa Senna no fim da reta dos boxes em Hungaroring-1986

O resto da temporada foi de altos e baixos. Em Zeltweg e Monza, o piloto da Lotus não pontuou por falhas mecânicas. No Estoril, já praticamente fora da briga do título, ocupava um brilhante segundo lugar até sofrer uma pane seca no giro final. No México, cruzou em terceiro e, no grand finale de Adelaide, ocupava um discreto quinto lugar até o motor Renault explodir na 44ª volta.

Senna terminou o campeonato em quarto, com 55 pontos conquistados – 55,6% dos tentos possíveis –, mas foi novamente o recordista de poles, assim como em 1985: dos 16 GPs, partiu do posto de honra em oito. Aquela ainda não era a temporada para ele, mas, duelando de igual a igual com os grandes, o brasileiro mostrou boas credenciais para ocupar o Olimpo da F1.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Pablo Habibe

    Depois de 93, 86 é a temporada mais bacana de Senna. Sinceramente não sei se a Lotus não tinha condições de ter dois carros competitivos ou se valeu apenas a vontade natural de reinar sozinho na equipe que todo piloto tem. A McLaren jogou muito bem com seus dois pilotos para manter Prost na briga. Rosberg costumava fazer o papel de coelho muito bem, desestabilizando a estratégia dos outros com início alucinantes e merece um asterisco na taça do francês. Será que Derek Warwick não poderia ter sido uma sombra ativa para Ayrton? Jamais saberemos…

  • Bruno Duarte

    Se não me engano, a falha em San Marino foi nos freios. E o GP da frança naquele ano não foi em Paul RIcard?

    • Lucas Berredo

      Verdade, Bruno. Foi em Paul Ricard mesmo. Já corrigimos. Quanto à falha em Imola, foi um problema na roda. O carro do Dumfries sofreu inclusive uma falha semelhante, voltas antes. Abraço!