1986, a temporada que definiu uma geração #2: Nelson Piquet

3

O favorito para o título de 1986 no início da temporada era o brasileiro Nelson Piquet. Após dois anos erráticos na Brabham – em especial o último –, Piquet, de mudança para a Williams, finalmente tinha em mãos um equipamento honesto para brigar pelo campeonato.. “Com este chassi e esse motor, posso ser campeão”, disse, em entrevista à publicação brasileira “Placar”, pouco antes da etapa de abertura.

O otimismo era justificável. A Honda destinara US$ 150 milhões para um programa de dois anos na F1, num esquema que previa dez motores para cada GP ou teste. O motor turbocomprimido, em especial, era um atrativo à parte: 800 cv de potência a 12.000 rpm, podendo chegar até 1.000 cv na qualificação.

Confira as outras partes da série “1986, a temporada que definiu a geração”:
PARTE 1 – Ayrton Senna
PARTE 3 – Nigel Mansell
PARTE 4 – Alain Prost 

Piquet começou bem o ano. Dominou o GP do Brasil, em Jacarepaguá, e vinha num bom terceiro lugar em Jerez de la Frontera até ser traído pelo motor Honda na 40ª volta.

Na terceira etapa, em Ímola, houve um erro de cálculo: tomou a ponta no início, mas pouco controlou o consumo de combustível na primeira perna do páreo. Como resultado, após um serviço lento da Williams nos boxes, acabou despencando para terceiro, atrás das McLarens de Alain Prost e Keke Rosberg. A sorte é que o finlandês sofreu uma pane seca no último giro e o futuro tricampeão conseguiu salvar mais dois pontos, garantindo-se na liderança do campeonato ao lado de Ayrton Senna.

Piquet e Senna no pódio em Jacarepaguá-86
Piquet e Senna no pódio em Jacarepaguá-86

Acidentes na campanha

O pesadelo de Piquet começou em Mônaco. Na qualificação, sofreu com problemas no tráfego durante sua volta rápida e se classificou num tétrico 11º posto, 2s mais lento que Nigel Mansell. Para piorar, o motor do FW11 explodiu durante o warmup e, com isso, o brasileiro precisou apelar ao carro reserva para competir no domingo. Um desastre só pior do que o sétimo posto na classificação final do páreo.

Passada a crise, Piquet cravou a pole em Spa, duas semanas depois. E vinha liderando o GP da Bélgica com tranquilidade – 8s de diferença para o segundo colocado Senna – até o motor Honda novamente o deixar na mão, desta vez ainda no início do percurso. A partir daí, o panorama já começava a apertar: eram dez pontos de atraso para o líder Senna, uma diferença nada animadora para uma amostragem de apenas cinco GPs. Além disso, Mansell, colega de equipe pouco estimado por Piquet, vencera a corrida e o carioca teria que lidar com um fato inédito: uma disputa interna dentro de sua própria garagem.

Curta a página do PROJETO MOTOR no YouTube!

Nos dois GPs seguintes, no Canadá e em Detroit, a vantagem foi inteira de Mansell: 11 pontos contra quatro do brasileiro. Na prova de Michigan, em que Piquet zerou na pontuação, ainda houve certo atrapalho: ao voltar dos boxes, errou uma tomada de curva, foi de encontro ao guardrail e abandonou. “Com os pneus novos, o carro estava se comportando muito bem, mas errei no golpe de vista e acabei pegando o muro”, resignou-se o carioca. O problema é que o atropelo o deixou 17 pontos atrás de Senna na luta pelo campeonato.

O calvário continuou nas corridas seguintes e Piquet chegou atrás de Mansell tanto em Paul Ricard quanto em Brands Hatch. Nestas duas corridas, foram 18 pontos do inglês contra dez do brasileiro. E, no cômputo geral, quatro vitórias do Leão (Spa, Montréal, Paul Ricard e Brands Hatch) contra apenas uma de Nelson (Jacarepaguá).

Piquet ao lado do engenheiro Frank Dernie
Piquet ao lado do engenheiro Frank Dernie

Reação tardia e esperança

Piquet finalmente confirmou sua primeira vitória no segundo semestre em Hockenheim. Mesmo largando em quinto, esmerilhou uma porção de pilotos no início do percurso, incluindo o pole position Rosberg. Depois, com uma boa estratégia de paradas, se aproveitou da melhor economia de combustível do FW11 para superar o finlandês, faltando seis voltas para o fim. Era o golpe que o brasileiro precisava para aumentar a moral e voltar a sonhar com o título. “Estou no paraíso. Nigel Mansell, eu não sei”, provocou, após a corrida.

O rechaço continuou em Hungaroring (no vídeo abaixo). Depois de uma batalha titânica com Senna, venceu a corrida com 18s de folga e entrou de vez na luta pelo campeonato, reduzindo sua diferença em relação a Mansell para 8 pontos.

Uma falha no motor Honda em Zeltweg brecou um novo passo na recuperação, mas por sorte o Leão também não pontuou e a situação continuou equilibrada para o GP da Itália. De qualquer forma, em Monza, Piquet deu seu golpe de mestre: foi à cata de Mansell mesmo com um pitstop lento no meio do percurso e venceu o britânico no mano-a-mano, quase como num troco do GP da Inglaterra. Foi um triunfo que embaralhou tudo no campeonato: Piquet tinha 56 pontos contra 61 do Leão e a disputa estava mais aberta do que nunca.

Anticlímax

No Estoril, contudo, Piquet voltou a desaparecer. Primeiro, foi 0s7 mais lento que Mansell na qualificação e, no domingo, não ficou à frente do companheiro em nenhum momento, terminando o páreo em terceiro, atrás de Prost.

Acompanhe o Projeto Motor nas redes sociais:
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor

Em Hermanos Rodríguez, parecia que o brasileiro iria retomar a sonância de Monza: tomou a ponta na frente e liderava com placidez, porém sem controlar o alto desgaste de pneus na pista abrasiva do México. Resultado: terminou o GP num distante quarto lugar, com uma volta de diferença para o vencedor Gerhard Berger, da Benetton. Por sorte, Mansell encerrou o páreo atrás do companheiro, também com problemas de pneu.

Apesar disso, a vantagem era inteira do Leão: Piquet e Prost teriam que vencer em Adelaide, última etapa do campeonato, e torcer para o britânico encerrar a prova abaixo do quarto lugar para confirmar o título.

Piquet à frente de Mansell no grid de Hermanos Rodríguez (Williams/LAT)
Piquet à frente de Mansell no grid de Hermanos Rodríguez (Williams/LAT)

O GP da Austrália, por sua vez, merece um capítulo à parte. A tarde inteira prometia uma vitória inesquecível para Keke Rosberg, em seu último GP, e um título para Mansell. Mas uma inexplicável explosão de pneu tirou o título do britânico e a vitória do fínico.

Piquet, líder, estava na posição para confirmar o tri. Mas a Williams estava à frente de um cul de sac: assumir o risco de um pneu furado e conservar o piloto na pista ou chamá-lo para os boxes, por motivos de segurança? O próprio brasileiro parece que aceitou, apesar de seu pneu se encontrar em excelente condição. No fim, Nelson ainda conseguiu encurtar a distância em relação a Prost, iminente bicampeão, para 4s. Mas era tarde demais.

Piquet encerrou a temporada em 3º lugar: 69 pontos, um atrás de Mansell e dois do bicampeão Prost. E, ironicamente, este acabou sendo o campeonato em que o carioca venceu seu maior número de GPs. Talvez a impassível abordagem de Piquet no ano seguinte tenha sido justificável: 1986 foi o ano em que ele arriscou mais e, ao mesmo tempo, o ano de sua maior derrota.

Assista à edição #49 do DEBATE MOTOR:

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.