1986, a temporada que definiu uma geração #3: Nigel Mansell

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Em especial no início de carreira, o estilo colérico de Nigel Mansell no volante nunca atraiu a simpatia de muitos no paddock. Um misto de James Hunt com Satoru Nakajima numa única personalidade, o britânico só não foi dispensado da Lotus no início dos anos 80 pelo ótimo relacionamento com Colin Chapman e o patrocinador Imperial Tobacco, que à época bancava a equipe de Hethel.

De qualquer forma, quando o inglês de Upton-upon-Severn, a bordo de um Williams, encaixou duas vitórias consecutivas no fim de 85, a imprensa automobilística passou a enxergar naquele irascível piloto um potencial campeão. Principalmente para o ano seguinte, em que o time de Grove prometia um carro competitivo.

Confira as outras partes da série “1986, a temporada que definiu a geração”:
PARTE 1 – Ayrton Senna
PARTE 2 – Nelson Piquet
PARTE 4 – Alain Prost 

O único obstáculo para o Leão seria o novo piloto da Williams: Nelson Piquet. O brasileiro, campeão em 1981 e 83, assinara um acordo milionário com Grove e requeria status de nº 1 na equipe. E assim se deu no Brasil, quando Nelson venceu o percurso com facilidade e o obstinado inglês rodou logo na primeira volta, em disputa com Ayrton Senna, da Lotus.

Em Jerez, contudo, Mansell já começou a mostrar seu predicado. Mesmo classificando-se atrás de Piquet, liderou boa parte do páreo e só perdeu a prova por 14 milésimos para Senna no último giro. Problemas mecânicos em San Marino e Mônaco, porém, o tolhiram de se firmar como claro candidato ao título. Com quatro corridas disputadas, um surpreendente Alain Prost, da McLaren, era o líder com 22 pontos, seguido de Senna (19), Piquet (15) e Keke Rosberg (11). Nigel era apenas o quinto, com nove.

Os dois Williams de 1986: o #5, de Mansell, e o #6, de Piquet
Os dois Williams de 1986: o #5, de Mansell, e o #6, de Piquet

Quatro vitórias em cinco corridas

A partir de Spa, no fim de maio, o jogo virou a favor do Leão. Ainda no GP da Bélgica, Piquet sofreu uma quebra no início do páreo e a vitória ficou no colo do britânico, que ultrapassou Senna durante a janela de pitstops. Na sequência, em Montréal, Mansell comandou 63 das 69 voltas e garantiu o segundo triunfo consecutivo, encostando em Alain Prost na briga pela liderança do campeonato – 27 x 29.

Um desempenho turbulento em Detroit, quando ficou apenas em quinto, não impediu a manutenção da sequência positiva nos GPs seguintes. Em Paul Ricard, Mansell só perdeu a ponta durante a janela de paradas. Já em Brands Hatch, na semana seguinte, o destaque ficou por conta de uma ultrapassagem memorável sobre o arquirrival Piquet.

O brasileiro, que começara o páreo no comando do pelotão, errou uma marcha na descida da Pilgrims’ Drop e o Leão tomou a liderança diante de 110 mil torcedores (no vídeo abaixo). Justamente num dia em que o inglês foi obrigado a recorrer ao carro reserva – ajustado, diga-se de passagem, para o piloto brasileiro – após um problema na junta homocinética de seu FW11 a metros da largada.

Àquela altura, aliás, as animosidades entre Mansell e Piquet já começavam a palpitar no paddock. Malandro, o brasileiro frequentemente se apoiava em pequenos jogos mentais para enfraquecer a moral do britânico – por exemplo, ao chamar o adversário de “besta veloz” e atacar sua esposa, entre outras coisas.

A ameaça de Piquet

A vitória no GP da Inglaterra não apenas foi fundamental para estabelecer a hegemonia de Mansell na Williams como também no campeonato. Depois de Brands Hatch, o britânico assumiu, pela primeira vez em 86, a liderança da tabela. No total, o Leão acumulara 47 pontos, quatro à frente de Prost.

Mansell, Piquet e Prost no pódio do GP da França de 86
Mansell entre Prost e Piquet no pódio do GP da França de 86

Tudo começou a degringolar novamente, porém, a partir de Hockenheim. Primeiro, o inglês se classificou mal – em 6º, 0s151 atrás de Piquet. Depois, no domingo, nunca conseguiu escalar o pelotão – diferentemente do brasileiro, que já nas primeiras voltas chegou à liderança –, alegando problemas de sobreviragem no FW11. Terminou em terceiro, graças à pane seca com as McLarens.

Na Hungria, embora tenha conservado a liderança no campeonato, o cenário foi preocupante: Mansell terminou em terceiro, porém, a uma volta dos líderes Piquet e Senna. O Leão teria sofrido de problemas de aderência com o pneu Goodyear. “Houve um problema com meu carro, sobre o qual prefiro não falar”, disse um taciturno Mansell após a corrida.

O azar prolongou até o GP da Itália. Em Zeltweg, ambas as Williams abandonaram, Piquet com problema no motor e Mansell no semieixo. Mas, em Monza, o Leão foi derrotado num confronto direto. No fim da 37ª volta, as duas Williams ficaram lado a lado. Mansell vigiou o lado interno na primeira chicane, mas assim que os dois despontaram na Curva Grande, Nelson completou a manobra sem grandes dificuldades, vencendo no fim com 10s de folga.

Um revés na hora H

Com o desfecho em Monza, a luta pelo título parecia favorável a Piquet. Contudo, duas semanas depois, Mansell reagiu vorazmente no Estoril. O britânico suplantou o futuro tricampeão ainda nos treinos livres, classificou-se em segundo no grid e roubou a ponta de Senna logo no início da corrida, comandando todos os giros do percurso. Piquet chegou em terceiro, 49s atrás do colega.

O GP do México, penúltima etapa do campeonato, foi vencido por Gerhard Berger, da Benetton. O austríaco se valeu da boa durabilidade dos pneus Pirelli em asfalto abrasivo e completou o percurso sem um único pitstop. Lá atrás, na briga dos candidatos ao título, Prost foi o mais beneficiado, chegando 25s atrás de Berger e passando Piquet na tabela. Mansell, quinto, ainda protegia a liderança, seis pontos à frente do francês. Em Adelaide, bastava chegar ao pódio ou torcer para Prost e Piquet não vencerem o GP que o Leão se tornaria o primeiro inglês a vencer o Mundial em dez anos.

Mansell à frente de Piquet em Brands Hatch (Divulgação)
Mansell à frente de Piquet em Brands Hatch (Divulgação)

Até a 64ª volta, tudo estava dando certo. Mansell largou bem e se manteve na zona do pódio durante todo o percurso. Além do mais, mesmo em caso de abandono, Prost, seu rival mais próximo no campeonato, estava sem chances de alcançar Rosberg, líder com boa folga para o segundo colocado Piquet.

Só que o finlandês sofreu um corte no pneu traseiro direito, com 15 voltas para o fim, e entregou a ponta para Piquet. Parecia um prenúncio: um giro depois, assim que o Leão se colocou ao lado da Ligier de Philippe Alliot, o pneu traseiro esquerdo do FW11 se desintegrou. O carro estava em sexta marcha naquele momento e a forma como Mansell conseguiu dominar a máquina em total desarranjo foi digna de aplausos. O título, porém, se perdera.

“Estava em ritmo de cruzeiro, sabendo que me encontrava na posição certa para levar o título. Mas não era para ser, não?”, resignou-se o inglês, depois da corrida.

Mansell terminou o campeonato em 2º, dois pontos atrás de Alain Prost. Ele venceria o Mundial seis anos depois, também com a Williams, mas num contexto competitivo totalmente diferente. No fim de 1986, foi eleito a Personalidade do Ano pela BBC.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.