Quatro Rodas

24 Horas de Daytona: como tradição do endurance surgiu no templo da Nascar

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Construído por um dos fundadores da Nascar, William “Bill” France, para se tornar um dos principais símbolos da categoria de stock car, o autódromo de Daytona também sedia anualmente uma das principais corridas do endurance mundial, as suas 24 Horas.

A prova tem este formato desde 1966, mas sua precursora aconteceu quatro anos antes, com a duração de 3 horas. Aquele evento é considerado uma das grandes corridas realizadas no circuito até hoje, pelo fato de reunir no mesmo grid o então campeão da F1, Phil Hill, da USAC (Indy), AJ Foyt, e diversos nomes importantes da Nascar, além de seu final, com Dan Gurney aproveitando o embalo do carro na inclinação da pista para vencer.

Dan Gurney espera na linha de chegada para vencer as 3 horas de Daytona de 1962
Dan Gurney espera na linha de chegada para vencer as 3 horas de Daytona de 1962

A inauguração do autódromo, em 5 de abril de 1959, contou com uma corrida de 1.000 quilômetros no oval, que acabou antes da hora por falta de luz natural. Mas a partir deste momento, a Daytona 500, da Nascar, logo passou a ser não só o foco dos proprietários, como do público e da mídia, tornando-se a principal competição do automobilismo americano.

France, no entanto, sempre teve a ideia de transformar sua pista em um local de eventos de diversos tipos, e por isso, logo começou a trabalhar em um traçado misto, usando a parte interna (infield) e um trecho do oval.

Em 1961, ele conseguiu a homologação da FIA para a pista de quatro quilômetros e a inclusão de uma prova de 3 horas no Campeonato Internacional de Marcas GT.

A empreitada não era exatamente simples, pois no mesmo estado da Flórida, onde fica o circuito, as 12 Horas de Sebring já era uma prova consolidada e com prestígio internacional como a principal corrida de endurance dos Estudados Unidos, também fazendo parte do calendário internacional. Mesmo assim, a organização conseguiu atrair um grid de primeira linha, com nomes importantes da F1, Le Mans, USAC e Nascar.

A Daytona Continental aconteceu em 11 de fevereiro de 62 e teve Phil Hill dividindo uma Ferrari Dino 246 SP com o mexicano Ricardo Rodriguez, Stirling Moss com uma Ferrari 250 GT, Jim Clark de Lotus Elite, Dan Gurney em um Lotus-Climax 19, além de outros pilotos de certo destaque internacional na época como Jo Bonnier e Pedro Rodriguez. Jim Hall apareceu com seu Chaparral 1, de motor dianteiro, e Roger Penske, de Cooper-Climax.

AJ Foyt, ao lado de seu Pontiac Tempest, na Daytona Continental, 1962
AJ Foyt, ao lado de seu Pontiac Tempest, na Daytona Continental, 1962

Entre diversos pilotos da Nascar, Glen “Fireball” Roberts, que venceria três semanas mais tarde a Daytona 500, correu com outra Ferrari 250 GT, e Marvin Panch, de Corvette. AJ Foyt, que vinha do título da USAC e da Indy 500 do ano anterior, alinhou na prova com um Pontiac Tempest.

O final da prova entrou para a história por sua dramaticidade. Gurney liderava folgado nos minutos finais quando sentiu um problema no motor de seu Lotus-Climax. Temendo não conseguir completar uma última volta e sabendo de sua vantagem de mais de três minutos para o segundo colocado, a Ferrari de Hill e Rodriguez, ele parou seu carro pouco antes da linha de chegada, na lateral alta da pista, para esperar as 3 horas de duração da corrida expirar.

Assim que o tempo de prova terminou e ele viu a bandeira quadriculada nas mão do fiscal, ele simplesmente aproveitou a inclinação do circuito para deixar o carro rolar e cruzar em primeiro alguns segundos na frente.

Veja no vídeo a frieza de Gurney:

O sucesso da corrida foi tanto, que ela se repetiu no mesmo formato em 63, foi estendida para 2 mil quilômetros em 64 e 65, até que, em 66, finalmente passou a adotar a duração clássica de 24 Horas. Em pouco tempo, o evento passaria a ser considerado um dos três principais do endurance mundial, ao lado de Le Mans e Sebring.

Entre os anos 80 e 90, após sair do calendário da FIA, a corrida de Daytona perdeu um pouco de apelo para equipes e pilotos que competiam e competem na Europa, porém, nunca deixou de ser vista como um momento importante de início da temporada norte-americana. Nos últimos anos, com a reaproximação de dirigentes de Le Mans e da IMSA (organizadora do campeonato de endurance dos Estados Unidos criado após fusão da American Le Mans Series com a Grand-Am), ela voltou a ganhar a força. Além disso, equipes e pilotos da Nascar e Indy voltaram a participar em peso.

De qualquer maneira, a história das 24 Horas de Daytona sempre terá muito peso para qualquer fã do automobilismo, com vitórias de pilotos como Mario Andretti, Jacky Ickx, Lorenzo Bandini, Chris Amon, Bobby Rahal, Mark Donohue , AJ Foyt, Al Unser, Thierry Boutsen, Juan Pablo Montoya, Scott Dixon, além dos brasileiros Raul Boesel,de Jaguar, em 1988, Christian Fittipaldi, Doran JE4-Pontiac, em 2004, Oswaldo Negri, Riley-Ford, em 2012, e Tony Kanaan, também de Riley-Ford, em 2015.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.