5 razões para perder vergonha de dizer: Rosberg merece ser campeão da F1

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Nico Erik Rosberg é a 33ª pessoa a conquistar um título de F1. Nascido em berço figurativamente contíguo a um autódromo, na cidade alemã de Wiesbaden (de onde vem a nacionalidade, herdada da mãe, Sina), o filho de Keke se juntou a um seleto e interessante panteão ao lado de Damon Hill, como segunda cria de campeão mundial a repetir o feito do progenitor.

Foi uma conquista suada: após duas campanhas sendo sobrepujado por Lewis Hamilton (a primeira, em 2014, após batalhar até a última rodada; a segunda, no ano passado, de maneira bastante contundente), Rosberg teve de lidar com uma temporada longa e repleta de altos e baixos.

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Confirmou a posse da taça apenas na última rodada, em Abu Dhabi, em páreo no qual o tricampeão inglês usou de toda sua perícia e visão de corrida a fim de dificultar-lhe a vida. Correndo com a tábua de pontos debaixo do braço, o ás germânico de 31 anos suportou toda essa pressão e pôde, enfim, festejar a consumação do sonho com zerinhos que marcaram o asséptico asfalto de Yas Marina.

Há, ainda, quem torça o nariz para o feito, julgando que Rosberg é desmerecedor da láurea que agora possui. Será mesmo? O Projeto Motor reúne cinco motivos para que o douto leitor possa refletir sobre o assunto e, assim, render-se de vez ao campeão de 2016.

1º – Porque bateu Hamilton correndo na mesma equipe

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Tido por muitos como o maior talento da atual geração – se não o é, está insubitavelmente entre os três maiores, junto a Fernando Alonso e Sebastian Vettel -, Hamilton é um competidor muito difícil de ser batido, especialmente porque tem na velocidade pura e no arrojo dois de seus grandes trunfos. Como ganhar de um cara que anda no limite quase o tempo todo? Nem o próprio Alonso conseguiu.

Jenson Button deu uma pequena mostra em 2011, e a estratégia foi seguida por Rosberg este ano: inteligência e paciência para saber aproveitar cada brecha dada pelo adversário. Nico triunfou em praticamente todos os páreos em que Hamilton vacilou: Austrália, Azerbaijão, Itália, Cingapura e Japão foram exemplos de vitórias obtidas por mérito próprio, sem nenhum tipo de “senão”: ali ele soube tirar proveito de cada vacilo, mesmo que pequeno, do companheiro.

2º – Porque soube ser regular numa temporada tão longa

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Rosberg foi mais regular do que Hamilton ao longo de 2016, algo importante em se tratando do campeonato mais extenso da história da categoria, com exaustivas 21 etapas. É verdade que houve um período turbulento na midseason, permeado por atuações ruins/erráticas (Mônaco e Canadá), acidentes polêmicos com o próprio Hamilton (Espanha e Áustria) e até certa falta de sorte (Grã-Bretanha e Alemanha).

Entrementes, Nico regressou das férias de agosto com a cabeça no lugar: ao invés de tentar se por à prova contra o rival no “mano a mano” em pista, o que só lhe vinha causando prejuízos, preocupou-se em completar nove corridas consecutivas na zona de pódio, fator decisivo para sua coroação. Para se ter ideia, das nove vitórias de Rosberg somente em três Hamilton concluiu na segunda colocação; já das dez obtidas pelo inglês em cinco o parceiro completou em posição de dobradinha.

Sabemos que a quebra no GP da Malásia teve papel preponderante, mas e as rodadas de Melbourne, Sakhir, Monza e Suzuka, em que Lewis largou mal e ficou enroscado no meio do pelotão? E a de Baku, quando errou na fase decisiva da classificação e ficou só em décimo no grid? Falhas mecânicas fazem parte do automobilismo. Sempre fizeram. Constância e oportunismo também.

3º – Porque soube controlar a cabeça e dar a volta por cima

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Duros foram os reveses sofridos por Rosberg contra Hamilton ao longo de 2014 e 15. O bretão chegou a tripudear do colega logo após consagrar o tri, arremessando para ele, eivado de mensagens subliminares, o boné “#2” da Pirelli. Ali parece ter sido o ponto em que Nico resolveu não aceitar mais a mera condição de “segundão”. Venceu de maneira seguida as três últimas etapas do ano e, depois, as quatro primeiras de 2016. Estava dada a volta por cima.

Estava? Hamilton encontrou forças para reverter, entre os GPs de Mônaco e da Alemanha, uma diferença de 43 pontos imposta pelo teutônico nas quatro primeiras rodadas. Como consequência, adentrou as férias de agosto 19 tentos à frente. Ali Rosberg poderia sucumbir de vez, mas seguiu absorto em sua missão e conseguiu virar de novo o enleio a seu favor entre as rodadas de Bélgica e Japão. A partir dali foi mera questão de administrar a confortável vantagem construída.

4º – Porque o número de vitórias nem sempre é tudo

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Sim, Rosberg foi campeão com uma vitória a menos do que Hamilton, mas e daí? Ao longo de 66 anos de F1, em 13 ocasiões o campeão não foi o ás que mais vezes esteve no ponto central do pódio. Alain Prost, lenda viva do esporte, foi campeão assim em 86 e 89. Niki Lauda e Nelson Piquet, dois nomes de reputação igualmente inconteste, obtiveram dois de seus três títulos também dessa forma. Piquet, aliás, jamais terminou algum ano como maior vencedor na categoria, e se tornou tri em 87 tendo metade do número de triunfos do vice, Nigel Mansell.

O ponto é que o espectador da F1 ficou desacostumado a esse tipo de situação. Dos anos 90 para cá o fato só se repetiu uma vez, e ironicamente a favor de Hamilton: em 2008, o então representante da McLaren celebrou o primeiro título tendo vencido cinco páreos, contra seis de Felipe Massa. Se em nenhum desses casos a legitimidade da conquista é contestada, não há porque fazê-lo com Rosberg. Afinal, a F1 ainda é (apesar das ideias malucas de Bernie Ecclestone…) um campeonato de pontos corridos.

5º – Porque ser o mais rápido nem sempre significa ser o melhor

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É claro que todos os fãs de automobilismo se encantam ao ver ases de extrema velocidade e habilidade levando seus equipamentos ao patamar mais próximo do limite. Tal predicado pode ser otimamente propício para encher os olhos e fazer palpitar mais rápido o coração do entusiasta, mas não garante o sucesso por si só. Gilles Villeneuve que o diga. É preciso saber dosar velocidade, arrojo, consistência e inteligência, e Rosberg soube, hic et nunc, encontrar o equilíbrio desses fatores desde o início de 2016.

Conforme já dito, Hamilton se perdeu em seus próprios problemas e vacilos ao longo do certame, algo com o qual seu companheiro tem absolutamente nada a ver. Estamos falando que Nico é mais rápido do que Lewis? Não. Que é melhor? Também não. Que é brilhante e tem tudo para entrar no rol dos maiores da história? Certamente não. A conclusão aqui, portanto, é a de que, embora menos veloz, Rosberg soube ser mais eficiente em 2016. Lutou com as armas que tinha e, desta vez, subverteu a lógica e venceu. Foi o melhor sem ser o melhor, em suma.

Ninguém jamais poderá tirar de si tamanho feito.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.