7 momentos da F1 pelos quais sentimos falta do charmoso GP da França

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Duas semanas atrás, no dia 26 de junho, completaram-se 110 anos da realização do primeiro GP da história: o Grand Prix de l’Automobile Club de France – ou, melhor resumindo, o GP da França.

Mas infelizmente uma das corridas mais tradicionais na F1 não existe mais. Vítima de má gestão financeira e frequente mudança de sedes – ao longo da história, 16 circuitos distintos sediaram o evento –, a prova foi interrompida em outubro de 2008 pela FFSA. Tentativas de reintegração no calendário se sucederam nos primeiros anos da atual década – o circuito de Paul Ricard chegou a aspirar uma vaga em 2012 –, mas nenhum procedeu com sucesso.

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Num artigo anterior, o comitê editorial do Projeto Motor já defendeu abertamente o retorno do GP da França. Achamos que o calendário da F1 carece de provas clássicas que suscitem no público a recordação de um imaginário comum – as curvas travadas de Mônaco, a Eau Rouge de Spa ou até mesmo um signo mundano como a montanha russa de Suzuka.

Decidimos então relembrar alguns momentos que fizeram deste GP uma presença quase familiar na primeira semana de julho ou na última semana de junho. Principalmente para quem acompanhou a F1 nos anos 90 e 2000, a etapa francesa era um momento que o esporte reencontrava uma ancestralidade já perdida nos tempos modernos – algo que acontece toda vez que o circo vai a Silverstone, na Inglaterra, ou Spa-Francorchamps.

Largada do GP da França de 2008, a última edição da corrida (Divulgação)
Largada do GP da França de 2008, a última edição da corrida (Divulgação)

1999: Frentzen se redime no temporal de Magny-Cours

O conceito de Heinz-Harald Frentzen na F1 não andava lá tão bom. Após uma temporada pífia pela Williams, o germânico contemplava na transferência para a Jordan, em 99, uma chance de redenção. Que se concretizou no GP da França daquele ano.

Graças a uma engenhosa estratégia de pits e um temporal que vitimou os protagonistas Mika Hakkinen (que derrapou várias vezes durante o percurso) e Michael Schumacher (problema elétrico na F399), Frentzen viu caminho aberto para concretizar um dos triunfos mais surpreendentes da F1 nos anos 90. O alemão ainda conseguiu prolongar a boa fase ao vencer mais um GP na Itália e lutar pelo título com Hakkinen e Eddie Irvine.

 1990: Leyton House de Newey surpreende as McLarens

Num dos casos mais inusitados da história da F1, as Leyton House de Ivan Capelli e Maurício Gugelmin andaram em 1º e 2º durante dois terços do percurso. A equipe, que sequer tinha se qualificado para a etapa no México, se aproveitou do asfalto liso de Paul Ricard – a última vez em que a categoria correu no circuito da Riviera – para explorar as potencialidades aerodinâmicas do CG901 e completar a prova sem trocar pneus. Tudo sob a batuta de um talentoso projetista de 27 anos chamado Adrian Newey.

Eventualmente, Gugelmin teve que abandonar enquanto era o terceiro enquanto Capelli, a três voltas do fim, sofreu um problema no motor Judd e teve que ceder a liderança à Ferrari de Alain Prost. Ainda assim, a apresentação do time deixou todos no paddock sem reação.

2008: Massa leva o Brasil à liderança do Mundial após 15 anos

A última edição do GP francês, em 2008, foi marcada pela quebra de um tabu: desde 1993, com Ayrton Senna, um piloto brasileiro não figurava na liderança do campeonato. A sina se desfez com Felipe Massa, que fez uma apresentação irrepreensível em Magny-Cours, completando o percurso com folga de 17s para o companheiro de Ferrari, Kimi Raikkonen.

Massa também dissipou uma velha rixa dos tupiniquins com a França, já que o último vencedor sul-americano tinha sido Nelson Piquet, 23 anos antes – os dois únicos triunfos do Brasil em solo francês, por sinal.

1953: a vitória de Hawthorn sobre Fangio na “batalha do século”

No traçado ultraveloz de Reims, Mike Hawthorn, da Ferrari, e Juan Manuel Fangio, da Maserati, trocaram voltas rápidas pela ponta durante mais da metade do percurso. No fim, Hawthorn impôs seu domínio, vencendo por uma pequena folga – 1s – em relação ao argentino e colocando-se como um nome a se respeitar no circuito europeu de GPs.

O frenesi em torno do britânico, aliás, foi tão grande que o confronto contra Fangio foi chamado de “batalha do século”.

Uma outra curiosidade dessa prova foi que a diferença entre o primeiro e o quarto colocado na corrida – no caso, Hawthorn e seu colega de equipe Alberto Ascari – também foi uma das menores na história – 4s6.

1988: Prost se recupera de parada ruim e subjuga Senna na Signes

Uma das vitórias mais destacadas de Alain Prost contra o arquirrival Ayrton Senna. Em Paul Ricard-88, o francês da McLaren cravou a pole position e liderou os primeiros giros até um erro durante a janela de pitstops – roda dianteira emperrada – o jogar para trás do companheiro.

Nos giros seguintes, Prost perseguiu o tricampeão e, com a ajuda dos retardatários Alex Caffi e Pierluigi Martini, tomou a ponta com uma bela manobra na Signes. Senna acabaria perdendo terreno – principalmente depois de sofrer problemas na transmissão – e terminando 31s atrás do Professor, que àquela altura abriu 15 pontos de vantagem no Mundial.

1985: a última vitória da Brabham na F1

A edição derradeira do GP da França no traçado longo de Paul Ricard também foi o canto do cisne da Brabham na F1. E em grande estilo: Nelson Piquet partiu da quinta posição, mas logo na largada pulou para terceiro, atrás da Keke Rosberg e Ayrton Senna.

Com pneus mais frescos que Williams e Lotus, Piquet passou facilmente seu conterrâneo na Mistral e na 11ª volta superou Rosberg na Signes. Depois disso, o carioca, suportado pelo (à época) motor mais poderoso na F1, não teve dificuldades para confirmar a primeira e única vitória da Brabham naquela temporada. Senna abandonou com uma colisão na Mistral, então o terceiro lugar ficou para Alain Prost, da McLaren.

1979: o duelo Villeneuve x Arnoux

O público em Dijon-79 atestou a primeira vitória de Jean-Pierre Jabouille na F1 e a primeira de um francês em seu GP doméstico desde outro João Pedro, o Wimille, em 1948. Mas o que se conserva no imaginário coletivo é a disputa entre Gilles Villeneuve, da Ferrari, e René Arnoux, da Renault, pela segunda colocação. Como já se comentou a esmo, um dos embates mais comoventes e admiráveis na história do automobilismo.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.