Quatro Rodas

9 motivos pelos quais jamais haverá outro Niki Lauda

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Niki Lauda morreu na última segunda-feira (21/05), aos 70 anos, após mais uma longa luta pela vida. O austríaco passou por um transplante de pulmão no ano passado e vinha em tratamento intensivo desde então, porém, desta vez não conseguiu resistir.

Muitas vezes, na maioria talvez, quando morre uma personalidade do calibre de Lauda os elogios transbordam as páginas da internet e redes sociais e se tornam exageros diante da perda. Porém, desta vez é difícil enxergar que qualquer elogio ou adjetivo possa ser visto desta maneira, pois nada mais justo do que dizer que Lauda é sim um gênio e uma lenda da história do automobilismo.

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Listamos nove motivos para comprovar este fato:

1 – Lutou para conseguir seu lugar ao sol

A carreira de Lauda não caiu do céu. Assim como alguns outros ídolos dos anos 50, 60 e 70, ele teve que lutar muito para conseguir se consolidar dentro do automobilismo. E isso requereu uma briga contra a própria família e riscos financeiros consideráveis.

Lauda era de uma linhagem rica da Áustria, com tradição no setor industrial e financeiro. Seus pais nunca aprovaram sua ideia de correr de carro e o primeiro dinheiro que conseguiu para entrar no automobilismo veio da avó, que lhe comprou um Mini Cooper para competir, sem consentimento ou muito menos consciência dos pais. Em sua primeira prova, ficou em segundo lugar em uma corrida de subida de montanha na Áustria, em abril de 1968.

No ano seguinte, ele brigou de forma definitiva com o pai e resolver apostar de vez na carreira no automobilismo. Ele trocou o Mini por um Porsche 911 para correr em provas de esportivos e também conseguiu uma vaga para fazer algumas provas na Fórmula Vee e F3.

Em 1971, para impulsionar seu caminho no esporte a motor, ele tomou um empréstimo bancário de 30 mil libras e comprou uma vaga na equipe March de F2. Na mesma temporada, ele fez sua estreia na F1, em Osterreichring, com um March antigo, mas abandonou a corrida.

Niki Lauda, com sua March, em 1972

Para o ano seguinte, ele fez um novo empréstimo para fazer o campeonato completo da F1 pela March. Só que os resultados não foram como ele esperava e no final da temporada, Lauda estava com uma grande dívida bancária e sem lugar para correr. Ele mesmo admitiu que na época chegou a pensar em suicídio.

Só que ele resolveu seguir em frente com seu sonho. Ele conseguiu um novo empréstimo para comprar um vaga na BRM em 1973 para competir ao lado de Clay Regazzoni. Desta vez, os resultados finalmente começaram a surgir e ele ganhou fama por seu bom trabalho como acertador de carros. Na temporada seguinte, o suíço foi contratado pela Ferrari e convenceu Enzo Ferrari a levar Lauda junto. Bastaram dois campeonatos para o primeiro título vir.

2 – Mostrou velocidade e tirou a Ferrari da fila

Já contamos essa história em detalhes aqui no Projeto Motor. A Ferrari vivia um momento complicado quando Lauda chegou à equipe e não vencia um campeonato desde 1964, com Surtees. Já se iam 10 anos e a pressão em Maranello era grande.

Apesar de ter sido superado em 74 por Regazzoni, mais experiente e que já tinha uma passagem pelo time de Maranello antes, o austríaco passou a trabalhar de forma muito próxima com o projetista Mauro Forghieri de olho no futuro. Os dois desenvolveram o 312T, que se tornaria base para os triunfos de Lauda na Ferrari.

Salto de tirar as quatro rodas no chão de Lauda

Assim, ele se tornou um líder e venceu dois títulos mundiais pela Ferrari nos três anos seguintes, com um vice-campeonato entre eles. Não existe dúvida que Lauda foi um dos responsáveis diretos pelo ressurgimento da equipe como uma grande da história da F1.

3 – Mostrou resistência ao maior revés de sua vida em Nurburgring

A história é bastante conhecida e até mesmo já foi para telas de cinema no filme “Rush”, de 2013. No GP da Alemanha de 1976, Lauda sofreu um forte acidente no circuito de Nurburgring, em que seu carro pegou fogo.

O austríaco foi resgatado por outros pilotos que se envolveram na batida e foi levado ao hospital com chances remotas de sobrevivência. Ele chegou até mesmo a receber a extrema-unção, mas resistiu aos ferimentos e saiu do coma alguns dias depois. Mesmo assim, ele sofreu queimaduras severas no rosto e perdeu parte da orelha.

Acidente de Niki Lauda, em Nurburgring, durante o GP da Alemanha de 1976

O mais surpreendente é que apenas seis semanas após o forte acidente, ele voltou a um carro de corrida e competiu no GP da Itália, em Monza, conquistando um incrível e emotivo quarto lugar, em frente à torcida da Ferrari, que o manteve na liderança do campeonato.

Lauda acabou perdendo a briga pelo título de 1976 para James Hunt por um ponto, após desistir de correr no GP do Japão debaixo de uma intensa chuva no circuito de Fuji por sentir que a situação não era segura. Mesmo assim, seu feito pós-acidente ficou marcado não só em sua carreira, mas na história da F1.

4 – Mostrou pulso firme ao mandar a Ferrari às favas

Como já contamos em outro texto aqui no Projeto Motor, Lauda sentiu que após sua decisão de deixar o GP do Japão de 76, ele perdeu a confiança de Enzo Ferrari e da equipe. O cenário se agravou ao perceber a moral interna com a qual o novo contratado, Carlos Reutemann, chegou ao time.

Sentindo que não tinha mais o ambiente de antes, ao garantir o título de 77, ele resolveu deixar a Ferrari de forma abrupta e assinou para correr em 78 pela Brabham. Para se ter ideia da ira do austríaco contra o time italiano, ele nem mesmo participou das duas corridas finais da temporada, por não precisar mais de pontos.

Enzo Ferrari, Luca di Montezemolo e Niki Lauda, o trio de ferro da Ferrari nos anos 70

5 – Liderou o início de um projeto promissor com a Brabham

A equipe Brabham passava por uma remodelação com Bernie Ecclestone como proprietário e Lauda se mostrou o piloto certo para iniciar o ressurgimento da equipe. Mesmo enfrentando muitos problemas e abandonos, ele não deixou a peteca cair e conquistou duas vitórias (uma delas com o famoso carro ventilador) e terminou a classificação geral na quarta posição com 44 pontos.

Para se ter ideia, na temporada anterior, a Brabham tinha marcado apenas 27 pontos no campeonato de construtores com todos os seus pilotos.

Niki Lauda, em sua Brabham

6 – De novo mostrou pulso firme ao chutar a Brabham antes do fim do ano para tocar sua vida

Ao final de 1979, com a Brabham e sua motivação em baixa, Lauda mais uma vez mostrou sua forte personalidade e decidiu se aposentar da F1 e nem mesmo participou da última corrida da temporada. Segundo relatos da época, ele disse a Ecclestone que estava “cansado de ficar pilotando em círculos”.

O austríaco estava investindo na criação de uma companhia aérea de voos charter, a Lauda Air, e passou a trabalhar em tempo integral em sua nova empreitada.

7 – Voltou da aposentadoria, desbancou a nova geração e foi campeão de novo

Com o passar dos anos, Lauda começou a ter dúvidas de sua escolha de ter deixado a F1. Foi quando Ron Dennis, que tinha adquirido parte da McLaren no começo dos anos 80 e estava administrando a operação, o convenceu a retornar.

A McLaren MP4-2 levou Niki Lauda ao seu tricampeonato mundial em 1984

Assim, Lauda retornou ao grid da F1 em 82 pela McLaren, com um contrato de US$ 3 milhões por ano, o que era considerado o maior acordo de um piloto da F1 na época. A primeira temporada foi cheia de contratempos e sem grandes momentos, mas em 84 o austríaco voltou a mostrar sua classe e conquistou o tricampeonato mundial ao bater o companheiro Alain Prost por apenas 0,5 ponto.

Mais uma vez, o austríaco mostrava sua habilidade ao volante, como desenvolvedor de carro e na forma para se reinventar e bater uma nova geração de pilotos que chegava com tudo à F1.

8 – Lutou por melhorias na F1

Niki Lauda sempre foi um líder na busca por mais segurança no automobilismo, cobrando maior comprometimento de FIA e equipes e até mesmo apontando problemas nos circuitos da década de 70.

Mesmo depois de sua aposentadoria, ele seguiu com um papel importante nesta luta. Após a morte de Ayrton Senna e Roland Ratzenberger no GP de San Marino de 1994, ele se juntou com seu compatriota Gerhard Berger para restabelecer a Associação dos Pilotos de GPs (GPDA), que tinha acabado em 1982.

Em sua nova fase, a entidade dos competidores ganhou força, inclusive sendo constituída formalmente como empresa.

9 – Teve participação ativa fora do cockpit

Além de grande piloto, Lauda também teve papel como dirigente dentro da F1. Primeiro em sua ex-equipe, a Ferrari, a pedido de Luca di Montezemolo, onde assumiu o papel de consultor a partir de 1993, mas não ficou muito tempo ao ver que não conseguia ter voz ativa no dia-a-dia do time.

Depois, se tornou chefe de equipe na Jaguar, porém, mais uma vez, sem muito sucesso, principalmente pela dificuldade de lidar com a política de uma grande montadora, no caso a Ford, que era proprietária da marca inglesa e bancava toda a brincadeira.

Mas se não teve muito do que se gabar nas duas primeiras tentativas, sua passagem pela Mercedes foi mais que um sucesso. Ao final de 2012, ele assumiu o papel de presidente não executivo da equipe, inclusive recebendo algumas cotas do time da marca alemã.

Lauda esteve por trás da contratação de Hamilton pela Mercedes

Lauda foi quem arquitetou a contratação de Lewis Hamilton, que vivia em constante frustração na McLaren, em substituição a Michael Schumacher. Além disso, ele esteve por trás de boa parte da reestruturação do time.

É difícil dizer o quão grande realmente foi sua participação na formação da Mercedes que passou a dominar a F1 a partir de 2014, mas é impossível negar sua importância simbólica dentro da equipe e como liderança nas cobranças do dia-a-dia.


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.