A curiosa edição da Indy 500 que ninguém sabe ao certo quem venceu

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Há muitas histórias curiosas e malucas em mais de 100 anos de Indy 500, no Brasil conhecida como 500 Milhas de Indianápolis. O Projeto Motor contará neste artigo uma das mais bizarras, a da edição de 1966.

Todos conhecem a prova realizada 52 anos atrás como aquela que coroou Graham Hill, ajudando-0 a sedimentar a caminhada que, algumas primaveras mais tarde, culminaria na conquista da Tríplice Coroa do automobilismo mundial (feito que até hoje o britânico detém com exclusividade).

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Graças a esse feito o nome do bicampeão de F1 está grafado de maneira bastante particular no panteão das grandes lendas do esporte a motor. Porém, a verdade é que até os dias atuais ninguém tem certeza, aquela certeza real e impoluta, de que o ás do capacete azul com as oito pás de remo do Clube de Regatas de Londres realmente foi o vencedor do páreo.

Antes de iniciarmos o relato daquela breve epopeia, confira abaixo um ótimo compacto de 35 minutos publicado pelo canal oficial da Indy no YouTube, resumindo os principais momentos da corrida a partir da transmissão oficial do dia feita pela TV americana NBC. Quer conferir o mesmo conteúdo na íntegra? É só apertar aqui.

Assim as coisas aconteceram: logo na largada um incidente múltiplo envolveu 17 dos 33 carros participantes. Billy Foster, que partia do meio do pelotão, em 12º, se enroscou com Gordon Johncock e desencadeou um salseiro que culminou no abandono de 11 competidores, entre eles dois dos favoritos ao triunfo, AJ Foyt e Dan Gurney.

Tal ocorrência, aliás, levou pilotos como o próprio Graham Hill a criticarem a dinâmica das largadas lançadas, tão comuns na Indy 500 porém pouco habituais na Europa. “Geralmente esse tipo de reação em cadeia não acontece no circuito de Grand Prix, porque nossas largadas acontecem com os carros parados”, comparou o vencedor oficial em entrevista após concedida logo após a bandeirada.

Por muita sorte, já que o que menos faltou foram pneus, braços de suspensão e pedaços de carenagem voando sobre a cabeça dos pilotos, ninguém se machucou. O único ferimento registrado foi um pequeno corte numa das mãos de Foyt, mas não em decorrência da batida e sim de sua tentativa de sair da pista pulando uma grade. Todavia, foi necessária uma longa paralisação para limpar a pista antes de reiniciar as atividades. A relargada ocorreu com meros 17 bólidos na pista e outros cinco partindo dos boxes por conta de reparos. Um deles era Gordon Johncock.

O acidente na largada da Indy 500 de 1966
O acidente na largada da Indy 500 de 1966

Mario Andretti foi o detentor da pole position, com direito a quebra de recorde de velocidade média (167.411 mph ou ) a bordo de um Brabham-Ford preparado por Clint Brawner. Porém, o ítalo-americano deixou a disputa logo no 28º giro pelo quadrioval de 2,5 milhas, consequência de uma falha nas válvulas do motor.

Vencedor da edição anterior da Indy 500, Jim Clark tomou as rédeas e chegou a pontear 66 voltas, com ampla vantagem. Entretanto, rodou sozinho duas vezes e, apesar de não ter batido ou danificado seu Lotus-Ford, precisou passar por inspeções obrigatórias nos boxes a fim de comprovar que tinha condições de seguir correndo. Tais procedimentos causariam uma boa confusão no fim da prova, conforme atestaremos mais adiante.

Jackie Stewart assumiu então a dianteira com seu Lola-Ford na cronometragem oficial e parecia destinado a vencer. O escocês apresentou um ritmo excepcional (especialmente considerando que estamos falando de um estreante), e chegou a ostentar liderança com mais de um giro de vantagem sobre Hill. Eis que, a apenas 10 passagens da quadriculada, o então jovem de 26 anos sofreu um problema de pressão de óleo e se viu forçado a abandonar. Tão impressionante foi sua atuação que foi Stewart, e não Hill, eleito o “novato da prova”.

De todo modo, Graham herdou a ponta com a quebra do companheiro de BRM na F1 e confirmou a vitória. Ou não? Os membros do time de Clark, uma sociedade entre Colin Chapman e Andrew Granatelli, discordavam do resultado extra-oficial e defendiam que a direção de provas estava deixando de contabilizar uma das voltas completadas pelo “fazendeiro voador”.

“É impossível Hill ter vencido. Nós estávamos uma volta à frente de Stewart e Hill vinha ainda mais atrás. Houve um erro de contagem”, acusou Granatelli em entrevista a jornalistas meia hora após o encerramento daquela Indy 500. Segundo ele, Clark perdeu pouco tempo nas rodadas porque não deixou o motor morrer e ainda aproveitou a inspeção obrigatória para reabastecer a barata, portanto não teria perdido em nenhum momento a liderança.

A equipe estava decidida a protestar o resultado, mas no último momento abdicou do intento, tendo oficialmente admitido que “pode ter deixado de contabilizar uma das passagens de Hill quando Clark estava parado averiguando os danos de sua segunda rodada”. Repare no uso da expressão “pode ter deixado”, pois implicita que não houve admissão plena de erro. Provavelmente a sociedade Lotus-Granatelli desistiu porque se deu conta de que não conseguiria provar seu ponto, apesar de acreditar nele.

Várias teorias advieram dali: uma delas defende que a direção de provas confundiu o carro de Clark com o de Al Unser, pintado de maneira praticamente idêntica, e creditou uma das voltas do escocês ao americano. Outra aponta para o contrário: uma passagem de Unser teria sido contabilizada como sendo do europeu, o que teria sido posteriormente corrigido, mas não sem levar a escuderia de Jim a erroneamente crer que tinha triunfado. Seja como for, fato é que o já consagrado bicampeão da F1 teve de se contentar mesmo com o segundo lugar.

Graham Hill a bordo do Lola T90 #24 com o qual venceu as 500 Milhas de 1966
Graham Hill a bordo do Lola T90 #24 com o qual venceu as 500 Milhas de 1966

 

 

Outro protesto surgiu do time de Gordon Johncock, quarto colocado no resultado final. Lembra dele, um dos causadores do acidente múltiplo na largada? Pois bem, ele relargou dos boxes, por conta das avarias em seu monoposto, mas completou as 500 milhas com um tempo menor e uma média horária superior àquela apresentada por Graham Hill. Seria ele, então, o verdadeiro vencedor por direito?

Neste caso não havia tantas dúvidas de que não, pois o chefe dos fiscais da corrida, Harlan Fengler, mostrou ao proprietário do carro de Johncock o artigo do regulamento que especificava que, nas relargadas, todo piloto que partisse dos boxes não teria seu primeiro giro contabilizado. Parece esdrúxulo, mas assim funcionava na época. Logo, o americano passou a prova toda correndo com um giro de desvantagem sobre os líderes, mesmo sem estar efetivamente uma volta atrás. Bizarro, não?

Depois de todo esse imbróglio, Graham Hill ficou denitivamente com as láureas e os quase US$ 160 mil em premiação. O bretão não foi em nenhum momento o melhor ou mais veloz ás daquela tarde. Não foi nem o primeiro a completar a distância da corrida, e pode ser que tenha saído dali vitorioso “por engano”. Seja como for, fato é que foi o seu nome que ficou gravado para sempre nos livros de História.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.