A F1 perdeu a competitividade ou nós perdemos a inocência?

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Toda vez que falo sobre meu entusiasmo por F1, alguém faz a ressalva: “Mas corrida de F1 está em queda livre, o grid ficou desequilibrado”. Ouvi essa constatação (que já se tornou rotineira) poucos dias antes de fechar esse texto. E apesar de discordar, ela abre alguns questionamentos importantes: houve uma época em que o esporte esteve mais equilibrado? Se sim, o que contribuiu para esse balanço? A F1 de hoje é mais previsível e menos competitiva?

Recorremos primeiro a um parâmetro matemático. Teoricamente, um campeonato equilibrado é aquele em que a variação de pontos entre os pilotos na liderança ao longo do percurso foi menor, certo? É o que permite que a disputa pelo topo permaneça viva até a última corrida, seja por equivalência na hierarquia de forças, erros individuais ou a famosa “Emenda Alain Prost” – o caso de 1986, quando dois pilotos de uma mesma equipe (Nelson Piquet e Nigel Mansell, da Williams) se anularam e um azarão (Prost) se aproveitou para tomar a ponta na rodada decisiva.

Partindo desse princípio, constatamos que, das 65 temporadas disputadas até então na F1, 28 (43,0%) foram decididas na prova final – cinco nos anos 50, 80 e 90, quatro nos anos 60 e 2000, três nos anos 2010 e duas nos anos 70. No entanto, é quando dividimos os últimos 65 anos da F1 em quatro quindecênios que surgem alguns números interessantes: entre 1999 e 2014, oito campeonatos foram definidos na prova derradeira; de 1983 a 1998, sete; de 1967 a 1982, seis; e de 1950 a 1966, sete. Em suma, 8 das 28 (29,7%) temporadas definidas na última corrida se deram nos últimos 15 anos – justamente o período criticado por alguns como o mais moroso e previsível do esporte.

Se reduzimos o escopo para os últimos 10 anos, o panorama se afunila ainda mais: somente em 2009, 2011 e 2013, o campeão não foi conhecido na rodada derradeira. Em 2010, aliás, uma situação inédita ocorreu: quatro volantes, Lewis Hamilton, Fernando Alonso, Mark Webber e Sebastian Vettel, estiveram na briga pelo título.

É claro que este método trabalha com dados arbitrários e está sujeito a distorções. Contudo, é importante para capturar um recorte de temporadas que definitivamente não é usual na história da F1, comparável apenas ao período entre 1981 e 1986, quando apenas um campeonato foi decidido com antecipação.

A disputa entre Vettel e Alonso em 2012 foi uma das mais equilibradas na história (Getty Images/ Lars Baron)
A disputa entre Vettel e Alonso em 2012 foi uma das mais equilibradas na história (Getty Images/ Lars Baron)

Diferenças na classificação e corrida ajudam a entender o caso

Uma outra forma de entender a tendência de equilíbrio entre carros e pilotos ao longo da história é analisar os coeficientes de classificação nas diferentes temporadas. Esta já é uma seara longa e trabalhosa, mas que foi perfeitamente resumida pelo jornalista Edd Straw em When was Formula 1 most competitive?, artigo publicado pela “Autosport” em agosto de 2013.

Na análise, Straw afirma que o treino classificatório não apenas reflete o desempenho bruto de um carro num GP, como também é o fator menos propenso às distorções advindas da análise de dados num fim de semana. Para definir sua tese, ele elencou 877 corridas de F1 entre 1950 e 2013, deixando de fora apenas as 500 Milhas de Indianápolis.

E os números apresentados foram interessantes: na década de 1950, a distância entre o 1º e o 2º colocado na qualificação era de 1s212 (0,663% do tempo do pole). Nos anos 60 e 70, o valor caiu, respectivamente, para 0s967 (0,559%) e 0s360 (0,369%). A porcentagem subiu nas décadas seguintes – anos 80 (0s436 – 0,510%) e anos 90 (0s385 – 0,457%) –, mas caiu drasticamente na era moderna. Entre 2000 e 2013, o segundo mais rápido foi, em média, 0s258 mais lento que o pole.

Quando se fala em corridas, a disparidade fica mais exposta: em 1956, a média de diferença entre o primeiro e segundo colocado no páreo foi de 32s4; em 1986, 16s9; e em 2006, caiu para 8s5. Assim como se observou nos treinos classificatórios, o grid, a cada década, ficou mais próximo e equilibrado. Isso ficou ainda mais evidente com o advento das corridas com pitstops e a limitação de testes, a partir dos anos 2000.

Mas, afinal, a F1 era melhor ou não no passado?

Nem pior, nem melhor. O equilíbrio no grid, definitivamente, é maior dos anos 1990 para cá. As equipes ganham mais dinheiro (ainda que a redistribuição seja injusta, mas isso é discussão para outro texto) e a corrida de desenvolvimento é mais acirrada, já que os planejamentos para cada temporada são mais complexos.

Alguns leitores passionais, contudo, podem discordar. O esporte perdeu o romantismo que o caracterizava nas décadas anteriores. Com a tecnologia, acabaram-se as quebras e o acidentes. Se você tem mais de 30 anos, é fácil relembrar o grid de 1988 ou 1989 e alegar que naquela época havia nele ao menos três craques – Ayrton Senna, Prost e Piquet –, dois deles lutando cabeça a cabeça pelo título, enquanto hoje os corredores são inexpressivos e não há tanta rivalidade na pista. Aquela época, sim, dizem uns, foi a mais competitiva.

Mas a memória afetiva, marcada pela inocência, às vezes nos trai. É como quando um relacionamento acaba: as boas lembranças se sobrepõem às ruins e criam um passado fantasioso.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.