A fria tarde de primavera em que o acaso gerou uma corrida de F1 na neve

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Há algumas tradições às quais nos acostumamos quase que como eventos naturais. Exemplo: o douto leitor já parou para refletir por que a fase europeia do calendário da Fórmula 1 é aglutinada entre os meses de maio (por vezes extrapolando a segunda quinzena de abril) e setembro? Para fugir do rigoroso inverno europeu e, consequentemente, das corridas de F1 na neve. A resposta parece óbvia, mas a liturgia segue de maneira tão automática que nem todo mundo se dá conta disso.

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Agora proporemos uma segunda reflexão: em meio a toda à recente discussão sobre até onde se deve ou não liberar a competição sob diferentes intensidades de chuva, o nobre visitante consegue apontar, de cabeça, alguma prova oficial da F1 realizada sob nevasca? Não, né? A pergunta é difícil, mesmo, até porque oficialmente nunca aconteceu. Domar um carro potente sobre o gelo parece um exercício que orna muito mais com os carros 4×4 e de teto fechado do rali do que com um um certame cujos monopostos mal se aguentam em cima de um trilho molhado.

Entretanto, o Projeto Motor contará nestas mal traçadas a história do único páreo do qual se tem notícia até hoje a ter contado com a participação de bólidos da F1 e a ter sido praticado com neve na pista.

Estamos falando da edição de 1973 do BRDC International Trophy, tradicional evento realizado pelo British Driver’s Racing Club (Clube dos Pilotos Britânicos, na tradução livre do inglês) e que, naqueles tempos, fazia parte do grupo de etapas extra-campeonato da F1. Entre 1977 e 2004 a prova “baixou de categoria” e passou a ser composta por competidores de F2 (até 84) e F3000 (a partir de 85). De 2005 em diante se transformou numa premiação concedida durante um festival de carros históricos.

Ah, sim! O palco deste irrepetível acontecimento foi Silverstone. Eis os fatos. Estamos falando do terceiro fim de semana pós-equinócio de primavera de 73, portanto já um bocado fora da época em que neve é comum por aqueles lados. Pelo contrário: nem o mais pessimista dos meteorologistas preveria o que aconteceu naquela tarde de 8 de abril. Só que o clima estava bastante frio, mais do que o imaginado.

Recém-coroado campeão mundial, Emerson Fittipaldi largou da pole na prova que mesclou 13 carros de F1 com outros  16 de F5000. Os Fórmula 1 ditavam o ritmo com sobras: Ronnie Peterson, companheiro de Emmo na Lotus, partiu em segundo na grelha, seguido pela Tyrrell de Jackie Stewart.

A disputa começou sob um cenário nublado, mas ainda sem a presença de neve. Fittipaldi teve pouco tempo para desfrutar de sua posição e honra, pois a embreagem queimou tão logo foi agitada a bandeira verde. Peterson arrancou bem e assumiu a dianteira, seguido de perto por Stewart. O escocês logo o superou e abriu vantagem, mas poucos giros mais tarde rodou sozinho e caiu para sexto. Como estava numa tarde inspirada, o então bicampeão veio recuperando uma a uma as colocações perdidas até encostar no sueco de novo.

Líder da prova, Peterson foi o primeiro a ser pego desprevenido pela nevasca
Líder da prova, Peterson foi o primeiro a ser pego desprevenido pela nevasca

Foi aí que… Passada pouco mais de 30 das 40 voltas programadas, Peterson se defendia dos ataques do rival quando repentinamente se deparou com flocos de neve repousando sobre a entrada da curva Becketts. Sem tempo de reagir o escandinavo perdeu o controle de seu 72E equipado com motor Ford Cosworth e foi parar na grama. Por sorte conseguiu voltar. Stewart bravamente domou o rebelde 006, também dotado da unidade DFV V8, mas logo subumbiria à não menos escorregadia Stowe. Ainda assim seguiu em frente por mais oito ou nove passagens até receber a bandeirada como vencedor.

Seria impensável nos dias atuais uma corrida dessas não ser interrompida no ato em que a nevasca começou, não é mesmo? Como os tempos eram outros, não só o séquito continuou como apenas um abandono registrado diretamente por causa das condições da pista, o de Brett Lunger (com um chassi Lola-Chevrolet de F5000). Ao final 13 bravos sobreviventes alcançaram a linha de chegada. Stewart foi seguido por Peterson, Clay Regazzoni (BRM), Peter Revson (McLaren) e Niki Lauda (BRM) no grupo dos cinco mais bem classificados. Gijs van Lennep foi o mais bem colocado entre os carros de F5000: sétimo lugar, a duas voltas do vencedor e a bordo também de um Lola-Chevrolet.

Logo depois do encerramento a nevasca caiu ainda mais forte, promovendo atrasos e consequente encurtamento de duas baterias que seriam realizadas posteriormente (uma de Fórmula Ford e outra de veículos históricos).

Embora todos tenham passado ilesos pela experiência, repetir tamanha sandice numa corrida de monopostos se tornou algo impensável. Dois anos mais tarde, na popular Race of Champions, outro páreo extra-campeonato praticado em Brands Hatch, a largada teve de ser adiada por causa de uma fina e leve chuva de neve. Foi o mais perto que a F1 passou de voltar a se exibir em caráter competitivo sob tais circunstâncias.

OUTROS CENÁRIOS

Se em corrida o caso acima foi único, é possível peneirar outros momentos isolados em que carros de F1 se encontraram com o gelo. Preparamos abaixo uma rápida lista para isso:

1) Mika Häkkinen – McLaren MP4-15 de dois lugares na Lapônia (2000)

O bicampeão finlandês deu uma carona à esposa, Erja, numa versão adaptada do MP4-15 num circuito sobre a neve improvisado em Kippila, pequena cidade da famosa região da Lapônia (Finlândia). Conforme release da equipe publicado na época, “a altura do carro foi aumentada ao máximo e as suspensões, amolecidas ao máximo. Também foram usados pneus especialmente macios da Bridgestone. Óleo do motor e do câmbio tiveram de ser especialmente aquecidos antes de ligar o carro”. Tudo isso num ambiente cuja temperatura média foi de -15ºC.

2) Fernando Alonso – Renault R25 em Silverstone (2005)

Nevascas atrapalharam bastante uma bateria de treinos privados realizada pela Renault no final de fevereiro. A sessão contava com a presença dos titulares Fernando Alonso e Giancarlo Fisichella, além do reserva Franck Montagny. A McLaren compareceu na mesma data para realizar o shakedown do MP4-20, mas não encontramos registros de Kimi Raikkonen pilotando o modelo prateado em tal paisagem.

3) Nick Heidfeld – BMW Sauber F1.07 na Suíça (2007)

O alemão conduziu o modelo de 2007 da escuderia teuto-suíça durante exibição feita num lago congelado de St. Moritz, região alpina da Suíça.

4) Nelsinho Piquet – Renault R28 em Dubai (2009)

Em abril de 2009 o jovem ás brasileiro participou de uma exibição numa pista artificial de esqui criada em pleno deserto dos Emirados Àrabes Unidos.

5) Sébastien Buemi – Red Bull RB5 no Québec (2010)

Volante suíço, à época representante da Toro Rosso, gravou um vídeo promocional a bordo do carro que deu à matriz, Red Bull, o vice-campeonato ao time em 2009. O material foi produzido em meio a um lago congelado no norte do Québec (Canadá).

6) Max Verstappen – Red Bull RB7 na Áustria (2016)

A grande sensação da F1 recente guiou o bólido que deu o bicampeonato a Sebastian Vettel em 2011 numa estação de esqui de Kitzbühel, Áustria. Para tanto a produção teve de amarrar correntes aos arcos de chuva extrema da Pirelli, a fim de que ele dispusesse de aderência suficiente.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Ilmar Fernandes Souza Junior

    É, parece que, antigamente, pelo mundo ser mais ingênuo ou menos malicioso, e mais barato ou menos caro, esses ”causos” aconteciam com muito mais frequência do que hoje em dia!
    Gostaria de saber como o Keke Rosberg se sairia naquela corrida, já que vira e mexe o Galvão Bueno vive falando tanto dele. :)