Como foi a manobra secreta de Melbourne para roubar o GP de F1 de Adelaide

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O GP da Austrália, apesar de ter uma tradicional história fora da F1, entrou para o calendário do campeonato mundial da categoria apenas em 1985. A primeira versão da corrida acontecia na cidade de Adelaide e durou por 10 anos, até a mudança para Melbourne, a partir de 1996.

Essa transferência da prova aconteceu através de uma operação secreta comandada por um grupo de Melbourne e do estado da Vitória. Eles conseguiram convencer Bernie Ecclestone, na época o chefe da F1, e tiveram que guardar o segredo do acordo por meses até a revelação.

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Esse mistério todo se deu por diversos motivos, como de não dar chances para Adelaide reagir, além das peças no xadrez da política local se posicionarem nos lugares certos. A verdade é que a cidade da Austrália Meridional baixou a guarda, e a rival aproveitou.

Como Melbourne se organizou

Tudo começou ainda em 1992 quando aconteceu com Ron Walker, um empresário do estado de Vitória e então presidente da Companhia de Grandes Eventos de Melbourne, entidade estatal sem fins lucrativos, percebeu que a F1 estava enfrentando dificuldades para a renovação do contrato do GP da Austrália. Além disso, a Austrália Meridional, onde fica Adelaide, passava por uma crise em seu governo, que incluía processos por corrupção e o premier local, John Bannon, ser obrigado a deixar o cargo.

Então, Walker foi atrás de Pat Stone, diretor executivo da cervejaria Carlton & United Breweries (CUB), sediada em Melbourne e fabricante da Foster’s, e John Haddad, chefe da rede Federal Hotels para costurar uma aliança pelo evento. Com as garantias financeiras para patrocínios, ele enviou um diretor da Companhia de Grandes Eventos da cidade, o ex-nadador olímpico John Konrads, para uma missão em Londres: contactar Bernie Ecclestone e abrir negociações.

Pneu de Mansell estoura durante o GP da Austrália de 1986, em Adelaide

Com os problemas explodindo no governo da região de Adelaide, e a possibilidade de aumentar as taxas na conversa com Melbourne, claro que Ecclestone rapidamente percebeu que tinha a possibilidade de um bom negócio pela frente.

O primeiro acordo entre a cidade e a F1 foi assinado no começo de 1993, mas apenas em um formato de carta de intenções, totalmente confidencial. Além de Adelaide, Melbourne teria que superar outras duas candidaturas internacionais que queriam entrar na vaga do GP da Austrália no calendário e já estavam em conversas com Ecclestone: Pequim, na China, e Kuala Lumpur, na Malásia.

Neste meio tempo, o premier de Vitória, Jeffrey Kennett, deu mais poderes e verba à Companhia de Grandes Eventos de Melbourne e ainda colocou Stone, da CUB (Foster’s), em seu conselho. O próprio Kennett pegou um avião em julho de 1993 rumo a Londres para se encontrar com Ecclestone e mostrar total apoio de seu governo à prova.

As negociações seguiram tão secretas, que Walker e outros membros da delegação de Melbourne chegaram a utilizar nomes falsos em suas reservas de hotel em Londres, com medo de a informação vazar.

O acordo definitivo para levar o GP da Austrália para Melbourne a partir de 1996 foi assinado poucos meses depois, em setembro de 93, em total segredo.

Por que a mudança seguiu confidencial

Mesmo depois de Melbourne ter garantido a corrida de F1, Kennett e Walker pediram a Ecclestone manter o segredo sobre a notícia. Existia uma questão política.

Com o governo trabalhista caindo na Austrália Meridional, o partido Liberal tinha uma chance considerável de conquistar o estado pela primeira vez em 11 anos. A eleição aconteceria apenas em dezembro.

Kennett e Walker eram liberais na Vitória e acharam que caso a manobra em que roubaram o GP viesse à público, isso poderia prejudicar o partido na disputa no estado vizinho.

Dean Brown, dos liberais, realmente venceu. No dia seguinte de sua posse, em 17 de dezembro de 1993, ele recebeu a ligação de Walker em que ficou sabendo da novidade. O novo governador da Austrália Meridional nem teve como reagir e viu seus companheiros de partido levarem o GP logo em seu primeiro dia de administração.

Horas depois, em Melbourne, Kennett posou de herói do estado de Vitória levando a público a seu triunfo para levar a F1 ao seu estado.

Circuito de Albert Park, em Melbourne, recebe a F1 desde 1996
Circuito de Albert Park, em Melbourne, recebe a F1 desde 1996 (Foto: Sam Bloxham / LAT Images / Pirelli)

Brown ainda tentou contatos com a F1 para ver a possibilidade de reverter a questão, mas não tinha mais jeito. A notícia caiu como uma bomba em Adelaide e parte da população local chegou a criar movimentos de boicotes contra produtos vindos de Vitória e até mesmo à cerveja Foster’s, que era patrocinadora da corrida na cidade e atuou para levar o GP para Melbourne.

Problemas em Melbourne

Mesmo após o anúncio do acordo, Adelaide ainda recebeu a F1 por mais dois anos, 1994 e 95, como o contrato previa. Neste tempo, Melbourne preparou o Albert Park, que já tinha recebido o GP da Austrália nos anos 50, para sediar a corrida.

O que talvez o governo local não esperava era um forte movimento de ambientalistas contra o evento dentro do mais importante parque da cidade. Durante os dois anos antes da chegada da F1, passeatas e manifestações juntaram milhares de pessoas contra o GP.

Mesmo depois da estreia, em 96, o movimento continuou, mas foi perdendo força com o tempo. Hoje, ainda existem questionamentos dos ambientalistas, mas sem a mesma força. A questão financeira e de investimento estatal na prova é a que mais levanta polêmica entre os cidadãos do estado e da cidade.

Apesar de tudo isso, Melbourne já sediou 24 vezes o GP da Austrália dentro do calendário do Mundial e anunciou em 2019 a renovação de contrato com a F1 até 2025.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.