A obstinada peregrinação da F1 em busca de afirmação nos Estados Unidos

5

Com quase 70 GPs na conta, os Estados Unidos são um dos países que mais receberam a F1 na história – inclusive com mais provas oficiais do que praças como França, Mônaco, Bélgica e Brasil.

O curioso é que, quando se menciona as sedes mais tradicionais da categoria, nem sempre a terra do Tio Sam é lembrada. E isso não é à toa.

Acompanhe o PROJETO MOTOR na redes sociais: Twitter | Facebook | YouTube

Afinal, o GP dos Estados Unidos nunca tiveram uma praça mais fixa, que faça com que a identificação a um determinado circuito seja automática – ao contrário do que acontece em locais como Spa-Francorchamps, Monza ou Silverstone.

Mapa EUA

Ao todo, foram nada menos do que dez circuitos usados pela F1 nos Estados Unidos. Nenhum outro país recebeu a F1 em tantos locais diferentes. Vamos entender um pouco mais das andanças da categoria de ponta a ponta da nação.

INDIANÁPOLIS

Indianápolis 2

Período na F1: 1950-1960 (500 Milhas), 2000-2007

Enquanto o Mundial de F1 ainda engatinhava, as 500 Milhas de Indianápolis eram uma prova oficial do calendário – embora se tratasse de uma parada pouco aderida por equipes e pilotos que regularmente competiam no campeonato completo.

Quando a F1 voltou ao local, 40 anos depois, a circunstância era bem diferente. A prova passaria a contar com um circuito misto, construído especialmente para a categoria à beira do mítico oval – em trecho que seria percorrido no sentido contrário ao tradicional.

A história do GP de F1 em Indianápolis teve provas movimentadas (como 2000, 2003 e 2004), viu o fiasco de 2005 e chegou ao fim após 2007, quando a direção do autódromo não entrou em acordo financeiro com Bernie Ecclestone.

SEBRING

Sebring

Período na F1: 1959

A segunda praça americana ingressou no calendário da F1 em 59. Era Sebring, situada a 330 km/h de Miami, na Flórida. Construída em uma antiga base militar, a pista tinha 8,368 km de extensão e era composta por várias longas retas, ligadas por curvas de 90º ou um pouco mais fechadas. Era um traçado maior e mais veloz do que a versão atual.

Sua única participação no calendário marcou a conquista do primeiro título de Jack Brabham, que chegou em quarto. O vencedor foi Bruce McLaren. Mas o evento não foi um grande sucesso, o que gerou a mudança imediata da sede do GP dos Estados Unidos.

RIVERSIDE

Riverside

Período na F1: 1960

Um ano após a aparição em Sebring, o promotor da prova, Alec Ullman, decidiu levar a F1 ao outro canto do país, perto do deserto da Califórnia. O traçado de Riverside era praticamente o oposto de sua compatriota floridense, ou seja, era curta para os padrões da época (5,230 km) e cercada de pontos lentos.

Mas o evento em si foi um fracasso. Não houve grande divulgação promocional, sendo que a prova foi realizada quase dois depois da etapa anterior. Além disso, como o título já havia sido definido duas corridas antes, muitos carros sequer compareceram (incluindo a Ferrari).

WATKINS GLEN

Watkins Glen

Período na F1: 1961-1980

Não tardou para que a F1 encontrasse nova casa nos EUA, novamente na costa leste. A sede escolhida foi Watkins Glen, no norte de Nova York, que viria a se tornar a praça que mais recebeu a F1 no país até hoje.

Curta e rápida, “The Glen” passou por diversas configurações, sendo que todas as mudanças acabaram por deixar a pista mais lenta. Também pudera: apesar de desafiadora, a pista sediou consecutivamente dois dos acidentes mais aterrorizantes da história, com François Cevert (1973) e Helmuth Koinigg (1974).

Mesmo assim, Watkins Glen sediou momentos históricos, como em 70, com a primeira vitória de Emerson Fittipaldi (e, consequentemente, o título póstumo de Jochen Rindt).Mas a estrutura da pista ainda incomodava, e isso, aliado a problemas financeiros, fez com que a corrida chegasse ao fim após a edição de 80.

LONG BEACH

Long Beach

Período na F1: 1976-1983

Em meados dos anos 1970, os Estados Unidos inseriram uma segunda prova no calendário, desta vez na outra ponta do país. Em um traçado montado nas ruas de Long Beach, a categoria voltava à Califórnia após a experiência malsucedida em Riverside. A intenção dos promotores era em transformar o evento citadino na “Mônaco americana”.

A pista passou por várias mudanças, com configurações que variavam de 3,251 a 3,428 km. No entanto, mais uma vez por questões financeiras e por desentendimentos da direção da prova com Ecclestone, o circuito ficou de fora do calendário após a edição de 83. Contudo, Long Beach encontrou sua casa na Indy, onde realiza provas até hoje.

LAS VEGAS

Las Vegas

Período na F1: 1981-1982

A saída de Watkins Glen abriu espaço para uma nova prova americana. O local escolhido foi em Las Vegas, no infame circuito montado no estacionamento do cassino Caesar’s Palace.

LEIA TAMBÉM: 10+: As piores pistas que já receberam um GP de F1

O evento passou longe de ser um sucesso. A pista desagradava por seus poucos desafios, além de provocar um desgaste excessivo nos pilotos com o calor do deserto de Nevada. E mesmo sediando duas decisões de título (com as conquistas de Nelson Piquet e Keke Rosberg), os eventos atraíam públicos ínfimos. Assim, a saída do calendário foi uma decisão praticamente automática, sendo que a pista sediou mais algumas provas de Indy.

DETROIT

Detroit

Período na F1: 1982-1988

A chegada da capital do automóvel à F1, em 82, fez com que os EUA tivessem três provas em um mesmo ano (algo inédito na história). Porém, o circuito urbano de Detroit não agradou os pilotos, que reclamavam da lentidão da pista, dos poucos desafios e da baixa aderência do asfalto.

Mesmo assim, Detroit permaneceu no calendário por sete anos, incluindo três vitórias de Ayrton Senna e uma de Nelson Piquet. Mas adivinhe: a pista saiu da rota da categoria quando a organização não entrou em acordo financeiro com Ecclestone. E, assim como se passou com outros traçados americanos, Detroit encontrou espaço no calendário da Indy por mais alguns anos.

DALLAS

Dallas

Período na F1: 1984

A ideia do comitê organizador do GP de Dallas era mostrar que a cidade texana tinha potencial para se igualar a qualquer outra megalópole global em termos de estrutura. Tendo em vista como a prova se desenrolou, dá para concluir que o tiro foi pela culatra.

Montado nas instalações do Fair Park, o circuito enfrentou vários problemas desde o início das atividades, especialmente com um asfalto que se partia com o passar dos carros – o que fez o warm-up ser cancelado. O calor absurdo registrado (quase 40º C no ar, com mais de 65º C na pista) também não ajudou em nada.

Assim, não à toa, a prova teve um festival de abandonos – incluindo Senna e o bizarro choque no muro que havia se movido após um acidente anterior, e Nigel Mansell com sua quebra seguida de desmaio. Bom para Keke Rosberg, que driblou as condições desumanas ao correr com uma bolsa de gelo dentro do capacete. Dada toda a maluquice do fim de semana, não é surpresa que a F1 nunca mais tenha voltado ao local.

PHOENIX

Phoenix

Período na F1: 1989-1991

Mais uma cidade americana que queria usar a F1 para se fazer conhecida internacionalmente, e mais uma vez um evento chocho. A pista de rua de Phoenix era composta majoritariamente de curvas de 90º, mas, mesmo assim, conseguiu sediar boas provas – como a famosa batalha entre Senna e Jean Alesi em 1990.

O problema era que a repercussão da prova era quase nula no local. Isso provocou um cancelamento após três edições, sendo que a organização da prova e a prefeitura, que queriam a continuidade do evento, viram o rompimento como “um tapa”.

AUSTIN

Austin

Período na F1: 2012-

Depois de uma longa ausência no país, a F1 voltou aos EUA à sua maneira em 2012. Desta vez, nada de circuitos pouco estimulantes, improvisados em ruas cuja superfície que se desfaz: o plano agora consistia na concepção do Circuito das Américas, primeiro autódromo do país inteiramente construído para receber a F1.

Houve certa desconfiança no início, contudo, já que não se sabia se Austin abraçaria a categoria. Porém, em termos de público, o evento é um sucesso. A pista também agrada: mesclando retas, subidas e descidas e curvas de alta velocidade, é um traçado de versatilidade.

Nem tudo são flores, já que sempre há o risco financeiro – especialmente após o governo local reduzir a verba destinada ao evento há alguns anos. Mas, aparentemente, a F1 enfim encontrou sua casa nos Estados Unidos após inúmeras tentativas.

Debate Motor #97: Vem título por aí? O que esperar do GP dos EUA de 2017

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Angelito

    Vale ressaltar que o Circuito das Américas foi desenhado pelo Tilke, num raro caso de pista empolgante por parte dele.

    E como o Jovinner falou, a F1 deveria ter feito uma aparição em Laguna Seca

  • Jovinner

    O interessante é que quase todos os locais deixaram de sediar os GPs por “desentendimento” financeiro com o Ecclestone.
    Acho que a maioria dos fãs de F1 gostariam de ver uma prova em Laguna Seca.

  • Victor Zero

    Las Vegas tem um autódromo fixo?

    • Lá tem o oval que recebe a Nascar e que foi palco da tragédia do Dan Wheldon em 2011. A pista também tem um traçado misto, mas esse é muito curto e apertado.

      • Victor Zero

        Obrigado pela informação