A trajetória cheia de rejeições e desvios de Albon até a Red Bull

1

Enquanto boa parte das pessoas ainda discutem se a Red Bull fez bem ou não ao trocar Pierre Gasly por Alexander Albon em sua equipe principal, é impossível não darmos uma olhada com carinho para a trajetória repleta de negativas e desvios que o tailandês enfrentou até chegar a um dos principais times da F1.

Nascido em 23 de março de 1996, na cidade de Londres, Albon é filho do inglês Nigel Albon, um ex-piloto de turismo na Grã-Bretanha, com a tailandesa Kankamol Albon. Mesmo tendo crescido e vivido toda sua vida na Europa, ele recebeu parte da educação e conhecimento da cultura tailandesa pela mãe. Anos depois, o laço com o país asiático foi visto como uma oportunidade para tentar arrecadar patrocinadores e atenção da mídia local, o que lhe incentivou a competir pela Tailândia no automobilismo.

Albon iniciou sua carreira de kart nos anos 2000, conquistando em 2011 o vice-campeonato mundial, ficando atrás de um futuro eterno rival, Nyck de Vries. O resultado chamou a atenção da Red Bull, que o contratou para seu programa de formação de pilotos.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Assim, em 2012, ele competiu nas F-Renault Europeia e Alps com o apoio da marca de enérgicos. O resultado, no entanto, não foi nada bom. Apenas 16º na Alps e uma temporada zerado em pontos na competição continental, ainda mais enquanto outro piloto do projeto, Daniil Kvyat, ficou com o vice-campeonato. O título foi para Stoffel Vandoorne. Com um desempenho bem abaixo do esperado, a Red Bull excluiu Albon de seu programa.

Para piorar, o piloto ainda viveu um drama familiar quando naquele ano. Sua mãe foi condenada a seis anos de prisão na Inglaterra por comandar um esquema de pirâmide com carros de luxo em que enganou dezenas de compradores e ainda sonegou impostos. Buscando os recursos para possível devolução, a polícia descobriu que a maior parte do dinheiro que ela ganhou foi gasta com escolas particulares de alto padrão para seus cinco filhos.

Pilotos do programa da Red Bull Junior em 2012: Daniil Kvyat , Lewis Williamson, Stefan Wackerbauer, Alex Albon, Carlos Sainz Jr. e Callan O’ Keffe (Foto: Samo Vidic/Red Bull)

No meio do turbilhão, Albon conseguiu um acordo para manter seu lugar na equipe KTR na F-Renault Europeia por mais dois anos. Apenas em sua terceira temporada, em 2014, ele conseguiu um resultado de destaque, ao terminar com o terceiro lugar na classificação geral. A sua frente, mais uma vez Nyck de Vries levou o título.

Albon então conseguiu um patrocínio para pular para a F3 Europeia pela equipe Signature, terminando 2015 com o sétimo lugar na tabela de pontos com cinco pódios e duas poles. Felix Rosenqvist, hoje na Fórmula E, levou o título, enquanto outros pilotos da atual F1 ficaram logo à frente do tailandês, como Antonio Giovinazzi, vice, Charles Leclerc, quarto, Lance Stroll, quinto, e George Russell, sexto.

Mesmo não sendo o grande destaque do campeonato, o resultado rendeu a Albon uma chance na ART, equipe importante das categorias de base, para correr na GP3. Seus companheiros seriam Leclerc, Nirei Fukuzumi e, mais uma vez, De Vries.

Ao final de 2016, Leclerc ficou com o título, mas Albon mostrou uma boa evolução ao terminar o campeonato com o segundo lugar geral somando quatro vitórias, sete pódios e três pole positions. O monegasco foi contratado pela Ferrari para sua academia de pilotos e promovido para a F2 na equipe Prema, que mantém uma parceria com a marca italiana nas categorias de base.

Sem seu principal nome, a ART resolveu investir em Albon e também o promoveu para a F2 dentro de sua operação. Desta vez, no entanto, as coisas não caminharam tão bem. Mais uma vez Albon teve um desempenho inconsistente e terminou 2017 com a décima posição do campeonato, enquanto seu companheiro de equipe, Nobuharu Matsushita, ficou em sexto com quase 50 pontos a mais. O resultado fez com ele perdesse seu lugar na ART para a temporada seguinte e o tailandês mais uma vez ficaria sem rumo certo na carreira.

Albon conseguiu convencer então Jean-Paul Driot, proprietário da equipe Dams, a lhe conceder um acordo corrida-a-corrida, em que ele poderia ser substituído a qualquer momento. Quem diria que um acordo tão frágil e instável poderia se tornar a grande virada de sua vida profissional. Sob grande pressão, ele não falhou: venceu quatro corridas, subiu ao pódio em oito oportunidades e terminou na terceira posição na classificação geral da F2 em 2018. Depois de chegar até a disputar o título, ele ficou atrás apenas de George Russell, campeão, e Lando Norris, vice, e logo à frente de… Nick de Vries!

O bom desempenho fez com que a Dams resolvesse voltar a investir no tailandês, só que agora olhando para o longo prazo, assinando um contrato com ele para a equipe Nissan na Fórmula E, cuja operação é do time francês. Após anos garimpando oportunidades e se arriscando com orçamentos curtos para cavar vagas em bons times, Albon finalmente tinha um horizonte para sua carreira.

Albon celebra com a equipe Dams vitória na etapa de Sochi da F2 em 2018 (Foto: Zak Mauger / FIA Formula 2)

Só que curiosamente, o antes rejeitado piloto viu seu valor de mercado crescer inesperadamente. A saída de Daniel Ricciardo da Red Bull para a Renault na F1 causou um efeito dominó no programa da marca de energéticos. A organização precisou apressar a promoção de Pierre Gasly da Toro Rosso para seu time principal e Helmut Marko tinha que arrumar dois competidores para a equipe B.

O primeiro acabou sendo Daniil Kvyat, que tinha sido dispensado pela Red Bull um ano antes e agora estava de volta. O segundo nome na cabeça de Marko era do ascendente Dan Ticktum. Porém, sem os pontos necessários para a superlicença, a FIA não permitiu que ele entrasse na F1. O austríaco então olhou para as opções de mercado de jovens e viu em Albon, vindo de uma boa temporada na F2, como uma boa para o time.

Apesar do óbvio interesse do piloto, existia, no entanto, um obstáculo: o contrato que ele tinha firmado com a Dams e a Nissan para a Fórmula E. As negociações não foram fáceis, mas Albon, depois de muita conversa com Driot, o convenceu lhe liberar do acordo. O próprio dirigente francês, depois de mostrar alguma frustração com a situação, admitiu que seria injusto ficar no caminho de um piloto e uma chance única de correr na F1. “Quando ele [Helmut Marko] falou sobre F1 para um piloto que sempre sonhou com aquilo, você sabe qual será a resposta”, declarou na época.

Assim, Albon chegava de forma surpreendente à F1 para competir pela Toro Rosso. Parecia que a história dele já tinha capítulos suficientes para um belo livro a ser escrito daqui alguns anos. Mas existia ainda mais surpresas pelo caminho.

Diferente de muitos pilotos de sua geração que participaram por anos de programas de equipes da categoria e puderam em algum momento testar seus carros, a primeira vez que ele andou em um F1 foi apenas na pré-temporada, em fevereiro, poucas semanas antes do início do Mundial. Mesmo assim, ele não se intimidou. O euro-asiático terminou na zona de pontos em duas de suas três primeiras corridas. Em uma delas, na China, ele recebeu a bandeira quadriculada em décimo após largar dos boxes.

Este slideshow necessita de JavaScript.

O desempenho consistente continuou durante toda a primeira metade do campeonato e Albon somou 16 pontos nas 12 primeiras corridas de 2019, com cinco resultados dentro da zona de pontuação. Na Alemanha, ele teve um grande desempenho, largando na 16ª posição, ele chegou a ocupar o quarto lugar entre as voltas 30 e 45. No final, ele ficou em sexto, uma bela atuação que acabou sendo ocultada pela terceira posição do companheiro, Kvyat, resultado de uma aposta de pneus no carro do russo quando ele era nono.

Incomodada com o péssimo desempenho de Gasly, a Red Bull aproveitou as férias de agosto da F1 para fazer a troca do francês pelo tailandês em seu time principal. Um movimento que há menos de um ano, parecia impensável para um piloto que seguia para um novo momento da carreira na Fórmula E.

Agora, é ver o que ele consegue neste novo desafio, que mesmo depois de uma história tão maluca, certamente eleva o nível de dificuldade e pressão na mesma escala ao tamanho da oportunidade.


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.