A última vez que Kubica tinha marcado pontos na F1…

1

Foi uma longa, difícil e incrível jornada. Robert Kubica voltou a pontuar na F1, no GP da Alemanha, após quase 9 anos de espera. Aliás, foram exatamente 8 anos, 8 meses e 14 dias entre a corrida de Hockenheim e a última vez que o polonês tinha terminado uma prova da categoria entre os pilotos que marcam tentos, na etapa de Abu Dhabi de 2010.

Isso significa que ele tem agora o recorde histórico da F1 para o jejum entre dois resultados na zona de pontuação de um piloto na categoria. Um feito que provavelmente ninguém gostaria muito de deter, mas que no caso específico do nosso personagem, significa a realização de um retorno de uma situação que parecia que não teria volta.

Entre o GP de Abu Dhabi de 2010 e da Alemanha de 19, Kubica passou por muita coisa. Ao final de 2010, o polonês era uma estrela ascendente dentro da categoria e já era considerado para uma vaga na Ferrari em 2012. Ele mesmo chegou a dizer em entrevistas mais recentes que até já tinha assinado um pré-contrato com a equipe italiana.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Aquela era a primeira temporada da equipe Renault sob nova direção. Apesar de manter o nome da marca francesa, o time era agora de propriedade do fundo de investimento Genii. O campeonato acabou sendo de alguns altos e baixos, sem a evolução esperada. Kubica chegou a Yas Marina questionando sua posição no time e querendo reforçar sua imagem dentro do mercado de pilotos.

A classificação foi difícil, com um 11º lugar, atrás até mesmo de seu companheiro de equipe, Vitaly Petrov. Como ele ficou fora do Q3, ele poderia escolher seus pneus para a largada e optou por uma estratégia de sair com os compostos duros para alongar seu primeiro trecho na prova.

Robert Kubica, em 2019, como piloto da equipe Williams (Foto: Williams)

Aquele GP ficou marcado pela escolha de Mark Webber e Fernando Alonso de anteciparem suas paradas olhando para briga pelo título. O australiano fez o pit na volta 11 e o espanhol, que defendia a ponta do campeonato, na 15. Os dois voltaram muitas posições atrás, depois de Petrov, que tinha precisado fazer um uma parada emergencial no primeiro giro por conta de um acidente, e que era o 11º.

Enquanto todos paravam, Kubica foi conduzindo sua Renault até chegar à segunda posição na volta 40. Seis passagens depois, ele finalmente realizou seu pit obrigatório e voltou em sexto. Adrian Sutil também com uma estratégia de parada tardia, fez a troca depois dele, e o polonês subiu para quinto.

Todos os olhos do mundo se voltaram então para o que estava acontecendo na luta pelo título. Alonso era o sétimo e Webber, oitavo, enquanto Vettel liderava a corrida e passava a ficar em posição de título. Para o espanhol ficar com o campeonato, ele precisava ultrapassar Petrov, Kubica e Nico Rosberg e terminar em quarto.

A Renault tinha desenvolvido um bom sistema de F-Duto, cópia da McLaren, que dava uma boa velocidade nas retas, por isso, o espanhol não conseguiu nem ameaçar o russo, enquanto Kubica andava na frente dos dois. Assim, o polonês fechou a prova em quinto, enquanto um frustrado Alonso terminava em sétimo, atrás dos dois carros da marca francesa, perdendo o título para Vettel. O resultado significou a oitava posição do campeonato para Kubica, apenas oito pontos atrás do sexto, Felipe Massa, da Ferrari, com Rosberg, da Mercedes, entre eles.

Kubica, com sua Renault, à frente da McLaren de Hamilton, no GP de Abu Dhabi de 2010 (Foto: Renault)

Entre o fim da temporada de 2010 e o começo dos testes para 11, Kubica passou a ser um dos nomes mais comentados da F1, considerado por muitos como um dos melhores pilotos do grid. Por isso, quando começaram as sessões de treinos pré-campeonato, muito se olhou para o que a – agora – Lotus Renault poderia levar para a pista e se ela daria uma chance ao seu principal piloto de brigar por vitórias.

Kubica participou da primeira fase de testes da F1 para 2011, em Valência, no começo de fevereiro. Na última sessão daquela semana, ele marcou o melhor tempo, deixando muita gente otimista sobre o que ele poderia fazer naquele ano.

Após os treinos na cidade espanhola, antes de seguir para a segunda fase de testes, que aconteceriam uma semana depois, em Jerez, ele foi participar do Rali de Andora, na Itália. Na competição, ele sofreu um grave acidente com seu Skoda Fabia. Um pedaço do guardrail de metal em que ele bateu, penetrou no cockpit e lesionou ombro, braço direito e perna do piloto. Ele ficou quase uma hora no carro até que a equipe de resgaste conseguisse retirá-lo e foi levado de helicóptero para um hospital em Pietra Ligure em estado grave, após perder muito sangue.

Kubica sobreviveu, mas com lesões gravíssimas na mão e no antebraço direito, um retorno à F1 ficou praticamente descartado. Em 2012, porém, cerca de um ano depois do acidente, ele surpreendeu a muitos ao começar a participar de provas de rali em carros adaptados, vencendo algumas delas, inclusive.

Em 13, ele conseguiu um contrato para correr regularmente no Campeonato Europeu e no WRC2, espécie de segunda classe do Mundial, pela Citroen. Os acidentes não foram poucos, alguns até em alta velocidade, mas o polonês seguiu evoluindo até chegar a competir na classe principal do WRC.

Kubica, porém, nunca escondeu que pretendia provar que podia voltar a pilotar carros em provas de autódromo, e quem sabe até um dia na F1. Em 2016, ele começou a participar de provas de endurance, como as 24 Horas de Mugello e de Dubai. Em 17, ele chamou a atenção da Renault, que resolveu lhe dar uma chance de testar um F1.

Ele andou com o carro da equipe em Hungaroring marcando tempos bons. No entanto, a dúvida de se ele seria capaz de manter o ritmo por longos períodos como durante todo um GP, deixou a Renault receosa em apostar nele. Então, foi a vez da Williams dar uma oportunidade a Kubica, ao final de 17, desta vez, em Yas Marina, palco da última corrida do polonês na F1.

Mais uma vez, se os tempos do polonês não foram ótimos, também passaram longe de serem ruins. O time inglês ainda testaria com Lance Stroll e Sergey Sirotkin nos mesmos dias dele, e ambos tiveram suas melhores marcas piores do que a de Kubica. Importante, no entanto, destacar que nunca se soube publicamente se os carros correram em condições iguais.

A Williams decidiu então ir para 2018 com a dupla formada por Stroll e Sirotkin, mas contratou Kubica como piloto de testes/reserva. Durante o ano, o polonês teve a chance de ir atrás de patrocinadores e conseguiu, com a saída dos dois titulares em 19, viabilizar seu retorno, mesmo que em meio a muitas dúvidas sobre sua condição física.

Só que a equipe inglesa, que já não vinha bem, entrou em 2019 em um dos piores momentos de sua história. A fabricação do novo modelo FW42 atrasou e quando finalmente foi à pista, o desempenho era de doer. Ficou evidente que Kubica e seu novo companheiro, George Russell, ficariam relegados às duas últimas posições por toda a temporada.

Robert Kubica, em sua Williams FW42, durante o GP da Alemanha de 2019, em Hockenheim (Foto: Williams)

O polonês passou a ter então uma luta pessoal contra o novato inglês para pelo menos mostrar ao mundo que tem sim condições de estar na F1. Nas 10 primeiras etapas, ele foi dominado por Russell, mas, queria o destino que na Alemanha, Kubica tivesse um pequeno raio de redenção em sua vida profissional.

A dupla da Williams seguiu como a pior do grid, mas, no caótico GP de Hockenheim, conseguiu driblar a chuva e os problemas para terminar a prova, enquanto muitos rivais ficaram pelo caminho. Kubica ainda conseguiu cruzar a linha de chegada à frente do companheiro, em 12º. Só que a sorte sorriu para o polonês. As duas Alfa Romeo foram punidas pela utilização de uma configuração irregular de embreagem na largada, e o polonês subiu para o décimo lugar, levando um pontinho para casa.

Um ponto suado, cheio de história e de significado, e que marca um momento especial para o polonês depois de uma caminhada cheia de obstáculos. E que continua.


 Comunicar Erro

Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.