A um ano do final do contrato com F1, Interlagos termina modernização

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Desde 2013, o Autódromo José Carlos Pace, mais conhecido por Interlagos, em São Paulo, passa por um intenso processo de modernização de suas instalações. O circuito voltou a ser sede do GP do Brasil de F1 em 1990, e sempre precisou, ano a ano, de novas obras. Neste novo ciclo, no entanto, o trabalho foi mais complexo e abrangeu estruturas importantes.

Quando renovou o contrato para um novo período que segue até 2020, durante a administração de Fernando Haddad, São Paulo concordou com exigências da F1, na época comandada por Bernie Ecclestone, de praticamente reconstruir sua área de boxes e paddock. Não era segredo para ninguém que mesmo comparado com pistas antigas da Europa, o circuito paulistano já claramente tinha problemas para receber o Mundial, com sua cada vez maior estrutura.

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O acordo foi fechado com aval do governo federal, que disponibilizou uma verba de R$ 160 milhões (valores da época, sem correção para presente) através do Programa de Aceleração de Crescimento (PAC) específico para a área de turismo. Com a promessa da obra pela prefeitura e o montante separado pelo governo, Ecclestone então deu uma colher de chá para a organização do GP do Brasil e colocou em contrato que os promotores locais não precisariam pagar a partir de 2017 as taxas para receber a etapa. Uma espécie de compensação pelas obras.

Andamento da modernização de Interlagos

Apesar do dinheiro já estar empregado, questões burocráticas, crise financeira e trocas de administradores (tanto em âmbito municipal como federal) atrasaram boa parte da obra. A verba acabou sendo dividida e São Paulo resolveu fazer a modernização aos poucos.

Novo prédio dos boxes de Interlagos será inaugurado no GP do Brasil de 2019
Novo prédio dos boxes de Interlagos será inaugurado no GP do Brasil de 2019 (Foto: Projeto Motor)

A primeira etapa, em 2013, contou com cerca de R$ 16 milhões para reforma da pista e pit lane. Na segunda, em 2014, recapeamento total da pista, reforma de algumas instalações permanentes e acessibilidade do autódromo, ao custo e R$ 41 milhões, segundo dados divulgados pela Prefeitura de São Paulo.

Em 2015, finalmente foi feita uma das partes mais importantes do cronograma, reivindicada há anos pela F1 e discutida por diversas administrações: o paddock. No começo da década de 2010, a prefeitura de São Paulo chegou a considerar mover toda a estrutura de box para onde hoje é a Reta Oposta para construir uma área mais moderna do zero. Só que existiam problemas técnicos e até mesmo ambientais.

A área de paddock de Interlagos, que fica localizada atrás do prédio dos boxes, sempre foi considerada muito estreita, o que prejudicava circulação de integrantes das equipes, equipamentos, convidados e jornalistas, e sem locais adequados para ativações de marketing, áreas Vips e coletivas de imprensa. Por isso a construção do novo prédio e redimensionamento de toda área atrás dos boxes teve uma importância considerável para a imagem internacional de Interlagos.

Além disso, também foi construído um novo prédio que passou a contar com a torre de controle das provas no autódromo e outras estruturas técnicas, e um auditório para eventos.

Neste estágio, a prefeitura gastou R$ 77 milhões (R$ 67 mi vindos do PAC)  para subir uma nova edificação que mudou completamente o visual da estrutura do circuito. Desta forma, pelo menos uma parte das exigências da F1, talvez a que mais pesava, estava superada. Mas ainda não era tudo.

Crise e retomada das obras

A partir de 2016, o Brasil passou por dificuldades financeiras e mudanças de governos. O projeto de modernização de Interlagos sentiu o problema, já que parte das verbas do PAC sofreu uma desaceleração de suas liberações.

Mesmo assim, as obras nunca pararam completamente. Naquele ano foram gastos R$ 7 milhões em novas readequações e término de instalações permanentes, especialmente na área dos boxes e paddock, vindos exclusivamente da prefeitura de São Paulo. Essas obras continuaram em 2017, com a complementação de 13 milhões do PAC.

Área do paddock entre os novos prédios dos boxes e de suporte em Interlagos
Área do paddock entre os novos prédios dos boxes e de suporte em Interlagos. Espaço será coberto integralmente para o WEC em 2020 (Foto: Projeto Motor)

No ano passado, pouco se fez. A prefeitura não teve acesso a verbas do PAC e investiu mais R$ 7 milhões em obras de manutenção geral de pista, pit lane e instalações de segurança. Em 2019, no entanto, a parcela final do programa federal foi liberada e São Paulo pôde enfim completar seu projeto com a reconstrução praticamente total da edificação dos boxes.

Nesta área, apresentada de forma oficial pela prefeitura na última quinta-feira (07), todo o espaço de trabalho das equipes foi redimensionado. O novo prédio teve sua altura elevada em um metro para facilitar a instalação e movimentação de equipamentos.

Os boxes não serão mais separados por paredes de alvenaria fixas, mas estruturas móveis que podem ser movimentadas e adaptadas para cada tipo de evento. O piso recebeu uma nova tinta de epóxi, material resistente ao forte atrito, e os portões de cada boxe passaram a ter abertura e fechamento por sistema elétrico (eram manuais até então).

Área interna dos novos boxes de Interlagos
Área interna dos novos boxes de Interlagos para 2019 (Foto: Imprensa GP do Brasil)

O projeto inicial, apresentado em 2014, mostrava que o paddock, conjunto formado pelo prédio dos boxes e o de apoio, construído atrás, seria completamente coberto. A parte em cima dos pits recebeu uma cobertura feita de membrana tensionada em estrutura metálica fixa, porém, a que fica atrás segue sem. A justificativa foi cronograma e planejamento com os organizadores da área VIP, mas a promessa é que tudo estará devidamente instalado antes da etapa do Mundial de Endurance (WEC), que será realizada em 1º de fevereiro de 2020.

Esta última etapa de obras consumiu R$ 41 milhões do PAC, além de outros R$ 10 milhões da prefeitura.

Futuro de Interlagos

Curiosamente, desta forma, São Paulo entrega o final (ou quase, já que ainda falta parte da cobertura) de seu projeto de modernização a apenas um ano do término de seu contrato com a F1. Inegavelmente uma mostra da morosidade e lentidão da conclusão de qualquer projeto de infraestrutura no Brasil.

Por outro lado, ter agora o autódromo pronto em um nível mais próximo do desejado paras os circuitos internacionais que recebem a F1 não pode deixar de ser uma vantagem contra a um novo cocorrente pela vaga no calendário, o Autódromo de Deodoro, no Rio de Janeiro, que sequer saiu do papel.

Ainda não se sabe quem ficará com o novo contrato para sediar o GP do Brasil. A F1, é claro, espera saber o que acontece com o Rio de Janeiro para ter ideia se poderá contar com uma nova praça ou se para se manter no país deverá renovar com São Paulo. Além disso, ainda existem negociações sobre a taxa a ser paga pela organização da capital paulista e até mesmo quem seguirá como promotor da prova. Uma decisão dificilmente sairá antes de abril ou maio de 2020.

Circuito de Interlagos está nos preparativos finais para receber o GP do Brasil de 2019
Circuito de Interlagos está nos preparativos finais para receber o GP do Brasil de 2019 (Foto: Projeto Motor)

São Paulo se movimenta em torno de seu autódromo. A pista irá receber a partir de 2020 a etapa do WEC e, segundo o secretário da Casa Civil e Turismo da cidade, Orlando Faria, negocia com a Dorna uma prova do Mundial de Superbike, o que ainda exigiria algumas adequações de segurança do circuito para corridas internacionais de motovelocidade.

Paralelamente, a prefeitura segue com seu projeto de concessão do equipamento. A intenção original era a privatização do ativo, mas diante de dificuldades burocráticas e até mesmo de encontrar interessados, optou-se a partir da administração de Bruno Covas pelo novo modelo.

Segundo edital publicado neste dia 07/11, o vencedor do processo irá administrar o Autódromo de Interlagos por um período de 35 anos, ficando responsável por demais investimentos e manutenção. Em contrapartida, poderá explorar comercialmente o local com eventos de automobilismo, outros esportes que usem a pista (ex: ciclismo), construção de um hotel, galpões industriais e comerciais e duas áreas para entretimento como shows e outros espetáculos.

A propostas deverão ser conhecidas em 08 de janeiro de 2020 e o objetivo do município é encerrar o processo em março. O Projeto Motor trará nos próximos dias nova reportagem sobre o assunto.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.