A vida pós-F1 #2: Mansell, das aventuras no BTCC ao susto em Le Mans

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As retiradas de Felipe Massa e Jenson Button da F1 na temporada de 2017 trazem novamente à tona o debate sobre o momento certo para a aposentadoria de um piloto. Dois nomes de amplo destaque saem de cena e levantam um grande ponto de interrogação em suas trajetórias: fora da principal categoria automobilística do mundo, a vida de piloto competitivo chegou ao fim?

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Esta é a ocasião certa para darmos continuidade à seção A vida pós-F1. Na primeira parte, relembramos o caso do bicampeão Mika Hakkinen, que, a exemplo de Button, deixou o certame inicialmente para tirar um ano sabático. O finlandês nunca mais voltou à F1, mas disputou provas importantes do automobilismo em outras modalidades.

Agora, vamos contar como foi a vida de aposentado de Nigel Mansell, campeão da F1 em 1992. O inglês não “abraçou” nenhuma categoria fixa, mas se aventurou em provas de vários tipos – inclusive as 24 Horas de Le Mans, onde teve um enorme susto que colocou um fim indesejado em sua trajetória.

VAI E VOLTA DA F1

Mansell flertou com a F1 até o fim de 1996
Mansell flertou com a F1 até o fim de 1996

Para começar a nossa história, é bom lembrar que Mansell teve várias “aposentadorias” da F1. A primeira delas, em 1990, nem chegou a acontecer, como já mencionamos anteriormente aqui no Projeto Motor.

Dois anos mais tarde, poucos meses depois de enfim se sagrar campeão, o inglês abandonou a categoria ao se ver trocado na Williams por Alain Prost. Em 1993, então, Mansell iniciou sua vida fora da F1 na Indy, com direito a vitória em sua corrida de estreia, na Austrália. Junto da poderosa Newman-Haas, fez história ao emendar títulos consecutivos nas duas principais categorias de monopostos do planeta, o que só foi possível após batalha acirrada contra Emerson Fittipaldi.

O inglês continuou na categoria americana em 94, mas de maneira muito mais apagada. Naquele ano, porém, retornou à F1 em algumas etapas após a morte de Ayrton Senna para auxiliar a Williams em na disputa pelo título.

A carreira de Mansell na F1 ganhou sobrevida em 95, na breve e malsucedida passagem pela McLaren. Mas poucos se lembram que, apesar do vexame, o inglês flertou com um novo retorno à F1: no fim de 96, ele chegou a testar pela Jordan de olho em uma vaga de titular – e nos 8 milhões de libras que a patrocinadora da equipe, Benson & Hedges, estava disposta a lhe pagar.

Em três dias de atividades em Barcelona, Mansell fez um tempo quase 0s5 pior que o registrado por Ralf Schumacher, que estrearia na categoria no ano seguinte. A Jordan, então, ofereceu ao inglês um contrato com cláusula de performance, o que impossibilitou o acordo. A carreira de Mansell na F1 enfim se encerrava de vez.

O RECOMEÇO

O inglês competiu no BTCC com um Ford Mondeo
O inglês competiu no BTCC com um Ford Mondeo

Após o imbróglio com a Jordan, Mansell ficou afastado das pistas em 97. No ano seguinte, voltou à ativa para competir brevemente no BTCC, o Campeonato Britânico de Carros de Turismo. Com um Ford Mondeo, teve uma apresentação de gala em Donington Park (largou em 19º, chegou a liderar e fechou em quinto), mas, depois, acumulou atuações mais apagadas em Brands Hatch e Silverstone.

Entre 1999 e 2004, Mansell fez apenas algumas corridas de demonstração esporádicas – o que incluiu um acidente bizarro com Fernando Alonso em uma prova de modelos da Minardi de dois lugares. Contudo, em 2005, aos 53 anos, Mansell dava mostras de que estava prestes a recomeçar no automobilismo com participações mais constantes.

Rivais na Indy, Mansell e Fittipaldi travaram breve duelo na GP Masters
Rivais na Indy, Mansell e Fittipaldi travaram breve duelo na GP Masters

Primeiro, o inglês disputou uma “Corrida das Lendas” no DTM no circuito de Norisring. Em prova realizada no formato de tomadas de tempo, Mansell ficou com o segundo lugar, atrás de Alain Prost, mas à frente de figuras como Emerson Fittipaldi, Jody Scheckter e Mick Doohan.

No mesmo ano, Mansell competiu na Grand Prix Masters, categoria voltada a pilotos veteranos cuja história também já foi contada no Projeto Motor. Em três etapas realizadas, o campeão de 92 da F1 venceu as duas primeiras, em Kyalami e Losail, e, em Silverstone, abandonou depois de largar em último – seu carro quebrou tanto no treino classificatório como na corrida.

A categoria faliu pouco depois, mas Mansell voltou às pistas em 2007, na etapa inglesa do FIA GT. Com uma Ferrari 430 da escocesa Scuderia Ecosse, o veterano, ao lado do canadense Chris Niarchos, terminou em sétimo (e último) na classe GT2 depois de largar em 25º no geral.

FIM DA LINHA EM LE MANS

Mesmo quase “sessentão”, Mansell iniciou um novo projeto nas pistas de olho nas 24 Horas de Le Mans, a última grande prova do automobilismo que faltava em seu currículo. Depois de uma participação nos 1000 km de Silverstone em 2009, o inglês tornou-se sócio da equipe Breechdean Motorsport, onde competiria no ano seguinte ao lado de seus filhos Greg e Leo.

E foi justamente em Le Mans que Mansell teve o sinal mais forte de que havia chegado a hora de pendurar o capacete. Com apenas 17 minutos de prova, sofreu um assustador acidente logo após a curva Mulsanne, quando, depois de sofrer um estouro no pneu, bateu forte nos guard-rails dos dois lados da pista.

Em um primeiro momento, Mansell chegou a sofrer problemas de memória e na fala devido ao acidente. Com o passar do tempo, ele voltou ao seu estado normal graças à prática de truques de mágica. Mas, por mais que desejasse dar continuidade ao sonho de guiar ao lado dos filhos, a cautela falou mais alto e ele nunca mais competiu.

Muitos podem ter considerado que Mansell teve um fim de carreira tétrico, com vexames e riscos desnecessários. Não deixa de ser verdade. No entanto, mesmo condecorado nas pistas, o campeão da F1 sempre mostrou paixão pela velocidade, desejo de competir nas principais provas do mundo e, ainda por cima, com o prazer de guiar ao lado de seus filhos. Um legado cheio de altos e baixos, mas que certamente lhe dá, com méritos, o status de lenda.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de edições das 24 Horas de Le Mans e provas de categorias como Indy e WTCC.