Quatro Rodas

A volta da bandeira preta e branca e por que ela foi usada com Leclerc

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O GP da Itália de 2019 ficou marcado pela bela exibição de Charles Leclerc em Monza contra as duas Mercedes e também algumas polêmicas. Uma delas aconteceu na volta 23 da corrida, quando o monegasco se defendeu de um ataque de Lewis Hamilton e o inglês o acusou de espremê-lo para fora da pista pelo rádio.

Muita gente achou que Leclerc deveria ser punido. Outros, que o lance não passou de um lance de corrida. A direção de prova tomou um caminho interessante e que já tinha avisado, antes do GP da Bélgica, na semana anterior, que iria utilizar mais vezes: bandeira preta e branca.

Fãs frequentes das corridas de carros ou qualquer pessoa que já participou de alguma brincadeira de kart indoor certamente já viram as famosas bandeiras de sinalização do automobilismo. Azul é para permitir ultrapassagem para um carro que vem uma volta à frente, amarela representa perigo na pista, verde quer dizer que o traçado está liberado e por aí vai…

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A bandeira preta e branca vem sendo muito pouco utilizada no automobilismo de alto nível e por isso, muita gente não sabe o que ela quer dizer. Nada mais é um do que uma advertência por um comportamento antidesportivo, mas que também não é grave o bastante para uma penalização. O diretor de provas da FIA, Michael Masi, fez um paralelo com o cartão amarelo do futebol. Ou seja, você fez algo de errado agora e tome cuidado que na próxima…

A dividida entre Leclerc e Hamilton em Monza

Vamos ao lance de Monza para entender por que a decisão de Masi foi neste sentido. Tudo começou quando Hamilton entrou na reta dos boxes logo atrás de Nico Hulkenberg e Charles Leclerc. O piloto da Ferrari fez a ultrapassagem na Renault segundos antes, na Parabólica. O inglês da Mercedes aproveita o vácuo duplo e a asa móvel para ultrapassar o alemão e chegar à chicane quase ao lado de Leclerc.

O monegasco, sentindo o perigo, entra na variante fechando o traçado interno, o que compromete o contorno da segunda perna da sequência. Já Hamilton usa sua experiência e freia um pouco mais cedo e faz um contorno mais redondo da chicane com a intenção de ter mais tração na saída.

A estratégia do inglês dá certo e ele entra na Curva Grande, metros depois, colado na Ferrari de Leclerc. O piloto de 21 anos, sabendo que a próxima chicane é para esquerda, já toma a linha para evitar uma ultrapassagem por ali, deixando a Hamilton o lado externo do traçado.

Os dois então chegam á freada da segunda variante e aí que a polêmica acontece. Com uma velocidade máxima incrível em Monza, Leclerc percebe que Hamilton não vai conseguir chegar à próxima curva à frente. Para evitar que ele contorne a primeira perna da chicane por fora para ficar por dentro na segunda (como o próprio inglês fez com Vettel em 2018), ele começa a abrir seu traçado para cima do adversário. Hamilton é espremido na zona de frenagem e acaba passando reto.

Leclerc não deixa espaço na pista para Hamilton, que precisa usar a zebra externa para frear
(Imagem: Reprodução/F1)

A regra de pilotagem da FIA, que serve para todas as categorias homologadas por ela, desde o kart até a F1, afirma que em disputas em que dois pilotos chegam a uma curva em situação dividida, mesmo que algum deles esteja à frente, um deve deixar o espaço de pelo menos um carro de largura para o outro dentro do traçado.

Ao abrir sua linha para fora antes da chicane, Leclerc claramente não cumpriu o regulamento, já que, como as imagens mostram, Hamilton foi o obrigado a entrar na zebra, que proporciona menos aderência, bem no momento da freada. Por isso, tentar permanecer na pista seria uma rodada quase certa e o inglês foi inteligente de deixar o carro seguir em frente para retornar depois da variante.

Então, se Leclerc não cumpriu a regra, por que não recebeu uma punição em tempo? No GP do Bahrein deste ano, aconteceu uma reunião entre Masi (diretor de provas da FIA que substituiu Charlie Whiting, que morreu no começo do ano), pilotos e equipes. No encontro, entre vários assuntos, a questão do excesso de penalizações em brigas por posições na pista foi abordado e se concluiu que os limites deveriam ser afrouxados um pouco com o objetivo de se melhorar o espetáculo.

O retorno da bandeira preta e branca

Na volta das férias de agosto, antes do GP da Bélgica, Masi mais uma vez se reuniu com os pilotos e avisou que passaria a utilizar mais vezes a bandeira preta e branca com dois objetivos: avisar que o competidor estava abusando da passagem dos limites da pista e possíveis infrações pequenas ou não muito claras do código de pilotagem.

No primeiro caso, ele explicou que a cada GP, o briefing seria utilizado para informar se algum ponto específico da pista poderia gerar advertências ou até punições. No caso de Spa, o ponto em questão era a saída da Raidillon, que leva à reta Kemmel. Ali, caso o piloto ultrapasse o limite de pista, ele carrega mais velocidade na saída da curva e pode ganhar alguma vantagem na reta. Nos treinos e classificação, toda vez que o competidor passa da linha branca com as quatro rodas ali, ele teria o tempo deletado. Na corrida, ele teria a chance de passar por três vezes até receber a bandeira de advertência. Na quarta, ele tomaria uma punição de tempo.

Durante a prova, no entanto, a bandeira preta e branca foi utilizada justamente para um caso de pilotagem perigosa, quando a direção de prova identificou uma manobra em que Pierre Gasly movimentou seu carro durante a zona de frenagem. A última vez que o instrumento tinha sido usado foi em 2010, na década passada, para advertir Lewis Hamilton que fez um zigue-zague na frente da Renault de Vitaly Petrov.

O aviso então foi dado. Masi deixou claro aos pilotos e equipes que o instrumento passaria a ser mais utilizado e em caso de uma segunda transgressão, os comissários decidiriam o grau da punição dentro do cardápio de penalizações.

O diretor de provas também explicou que a bandeira de advertência não seria obrigatoriamente usada na primeira infração do piloto, já que dependeria da gravidade. Uma fechada sem toque, por exemplo, seria considerada algo leve. Caso contrário, o lance poderia também ser levado aos comissários. Além disso, a decisão do diretor de provas usar a preta e branca pode ser revertido pelos comissários, caso esses acreditem que a falta foi grave e merece uma penalização por tempo.

Voltando ao lance de Leclerc e Hamilton. A direção de prova chegou à conclusão que sim, o monegasco ultrapassou os limites do que é permitido dentro dos padrões de pilotagem defensiva. Porém, como ele não tocou em Hamilton, tinha certa vantagem na curva (estava um pouco à frente) e o inglês não perdeu posição nem sofreu uma perda excessiva de tempo, uma advertência, seguindo o novo modelo, estava de bom tamanho.

Mesmo um pouco à frente de Hamilton, Leclerc precisaria dar mais espaço ao adversário na freada
(Imagem: Reprodução/F1)

“Se tivesse acontecido um toque, nós teríamos que analisar mais no detalhe, mas sob a filosofia de ‘deixe-os correr’ que as equipes, o Grupo F1, os pilotos e a F1 têm trabalhado juntos durante este ano, e dado o recado às equipes na última corrida em Spa, vamos usar mais frequentemente a bandeira preta e branca. A pedido deles, devo dizer”, explicou Masi, na segunda-feira depois da corrida em Monza, ao site da F1.

Leclerc ainda passou apertado para não tomar a punição em uma segunda polêmica quando na volta 36 ele perdeu a freada da primeira curva e cruzou a segunda perna da variante por fora do traçado, por cima das lombadas. Caso ele ganhasse alguma vantagem, ele seria certamente punido, pois já estava pendurado com uma advertência. Porém, o sistema de GPS da FIA mostrou que ele não aumentou sua vantagem para Hamilton (pelo contrário, inclusive) nem evitou uma manobra de ultrapassagem.

Claro que alguns pilotos irão chiar com a nova postura da FIA, já que é uma mudança recente e exemplos de decisões diferentes de pouco tempo atrás serão lembrados. Em especial pelos que estiverem do lado considerado prejudicado em cada história. A chave na cabeça dos pilotos, torcedores, comentaristas e até mesmo dos próprios comissários precisará mudar um pouco para uma posição mais complacente em certos tipos de disputas. O mais importante é a consistência. Ou seja, nos próximos lances parecidos, a decisão deve ser igual.

De qualquer forma, a F1 encontra uma forma transparente de mostrar ao público quando identifica algo de errado na pilotagem de seus competidores, mas que ao mesmo tempo não acredita ser tão grave, e permite mais agressividade nas disputas – algo que há tempos é pedido pelos fãs.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.