AC: o protótipo nacional desenhado por Anísio Campos

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No último dia 14 de setembro, o Brasil perdeu um de seus grandes ícones do setor automotivo. Projetista, piloto, artista… Anísio Campos participou de alguns dos principais e mais incríveis projetos de nossa indústria, além de sua contribuição imensurável ao automobilismo brasileiro como competidor, com projetos de carros de corrida e, claro, como líder de equipe.

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Com a morte de Anísio Campos, diversas reportagens saíram nos últimos dias sobre sua obra. Resolvemos aqui no Projeto Motor focar em um de seus trabalhos para as pistas: o protótipo AC, único modelo de sua vasta produção que levou seu nome.

Na segunda metade da década de 60, o cenário do setor automotivo brasileiro estava mudando bastante, com a compra e fechamento de algumas marcas e a chegada de outras. A Vemag, por exemplo, foi absorvida pela Volkswagen e como despedida, em 1967, desenvolveu do Carcará, carro produzido para bater o recorde de velocidade brasileiro na Rodovia Rio-Santos e projetado pelo próprio Anísio Campos.

Claro que essas mudanças também impactaram o esporte a motor. Enquanto algumas equipes oficiais se despediram, iniciativas diferentes também começaram a brotar, tanto de fabricantes quanto de times que partiram para a produção própria.

O conceito do AC

De olho nesta mudança no mercado interno, Anísio Campos resolveu investir em uma nova empreitada: um esporte-protótipo que pudesse ser produzido em série. A ideia era fabricar um carro de competição no Brasil que atendesse à demanda do automobilismo nacional a um bom preço. Algo diferente do que a maioria dos outros construtores faziam por aqui, com projetos específicos para suas equipes.

AC de Anísio Campos é apresentado no Salão do Automóvel pela Puma
Apresentação do AC no Salão do Automóvel de 1968 (Foto: Site Lexicar Brasil)

E assim nasceu a ideia do AC, modelo que acabou ficando famoso por diversos pontos. A começar, pelo processo do projeto. Ao contrário de muitos protótipos e carros de corrida construído nacionais na época, o design foi idealizado antes do resto. Ou seja, a carroceira não abraçava a mecânica, mas sim, foi planejada para ter eficiência aerodinâmica e principalmente para poder ser adaptável a kits de motorização da escolha do cliente. Como a ideia era ser um chassi de fabricação em série, ele precisaria estar pronto para receber diversos pacotes de radiadores para refrigeração a água ou a óleo e espaço para diferentes tipos e tamanhos de motores, sempre traseiros em posição central . O objetivo era flexibilizar as possibilidades para entregar ao mercado um carro financeiramente acessível.

A Puma encampou o projeto e o novo protótipo, que levou o nome de AC, as iniciais de Anísio Campos, teve cinco unidades produzidas na fábrica da marca. A empresa apresentou o carro em seu estande no VI Salão do Automóvel, realizado ainda no Ibirapuera, em São Paulo, em 1968.

O AC era um protótipo biposto que tinha uma característica peculiar do piloto ficar à direita, como se fosse um carro inglês. Na sua primeira versão, com mecânica Volkswagen, o câmbio ficava na mão direita, mas quando foi atualizado para o pacote da Porsche, meses depois da estreia, a manopla foi centralizada no cockpit, à esquerda do volante.

Testes do AC de Anísio Campos no Rio
Primeira versão do AC, ainda com asa traseira, durante testes no Rio (Foto: Site Lexicar Brasil)

A estrutura era tubular e a carroceria de plástico reforçado com fibra de vidro, o que o deixava mais leve do que alguns concorrentes, que usavam placas de alumínio. O modelo tinha uma suspensão dianteira da Volkswagen enquanto na traseira, Anísio Campos adaptou um modelo do seu Fórmula Vê. O carro, neste início, tinha freios a disco apenas na dianteira e um motor Volks de 1,6 litro de 146 cavalos.

O projeto AC original, inclusive o que foi mostrado no Salão do Automóvel, ainda contava com uma asa traseira bastante elevada e que tinha um mecanismo que podia ser acionado pelo piloto para se mexer entre duas posições através de um sistema elétrico, dando a opção de mais ou menos pressão aerodinâmica (alguém falou em asa móvel por aí?). A peça, no entanto, raramente foi usada em competição, com a maioria das equipes preferindo utilizar o carro sem a asa.

AC na pista e as duas versões por Anísio Campos

A estreia do AC aconteceu na primeira semana de abril de 1969, na prova Costa e Silva, em Curitiba. O resultado não foi dos melhores: abandono por conta de um furo no radiador de óleo. Mesmo assim, a boa impressão em relação à estabilidade e rendimento ficou para todos. Aquele poderia vir a ser um forte protótipo nacional.

AC na briga com Lola e Fusca dos Fittipaldi
AC com Francisco Lameirão na briga com um Lola T-70 e o Fusca dois motores dos Fittipaldi (Foto: Site Lexicar Brasil)

Ao mesmo tempo, o automobilismo brasileiro viu uma explosão de competidores do estilo, com os Can-Am sempre como referência para os nacionais. Além dos protótipos que já vinham competindo desde 68 como Lorena Porsche, o AC de Anísio Campos também teve que começar a enfrentar o Snobs (projetado por Ricardo Divila), e principalmente importados de alto desempenho como o Lola T-17 e a Alfa Romeo P-33, que vieram a dominar as corridas em solo brasileiro na virada da década.

O carro voltaria à pista para a abertura do Campeonato Brasileiro na divisão 4 em 20 de abril daquele ano, em Brasília. Nesta etapa, quatro ACs já apareceram com proprietários e algumas motorizações diferentes. O mais potente usando um Volks 1,7l.

Para o segundo semestre, no entanto, Anísio Campos seguiu com a evolução do projeto e estreou em Interlagos em outubro a versão com um motor Porsche de 2 litros e 195 cavalos. Para a mudança, o carro teve que passar por algumas alterações que incluíram um reforço na estrutura, redesenho da suspensão traseira e a adoção de freios a disco nas quatro rodas. O próprio projetista admitiu, segundo matéria da revista Quatro Rodas da época, que aquele seria o limite de força que o carro aguentaria.

Reencontro de Anísio Campos com o AC e suas outras criações (Foto: anisiocampos.com.br)

Mesmo na versão Porsche, o AC nunca chegou a ser um carro extremamente vitorioso principalmente por conta da concorrência dos importados, porém, ganhou algumas provas importantes e passou pelas mãos de nomes de destaque do automobilismo nacional como Bird Clemente, Chiquinho Lameirão e Wilson Fittipaldi.

Os AC continuaram correndo até 1974, quando foram aposentados das pistas. Se o carro não se tornou um grande campeão, também passou longe de fazer feio contra adversários internacionais e foi base de inspiração para mais protótipos que nasceriam no Brasil.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.