Acrobatas e astronautas: os destaques da F1 segundo engenheiro brasileiro

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Os engenheiros de pista da F1 conhecem como poucos as reais habilidades dos pilotos ao volante. Os profissionais têm acesso não só aos detalhes da tocada com gráficos da telemetria, mas também podem ver de perto o método de trabalho, conhecimento técnico e o aspecto psicológico dos grandes nomes do atual grid.

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Este é o caso de Ricardo Penteado, atual chefe de operações de pista da Renault na F1. O brasileiro passou por diversos cargos desde que entrou na empresa francesa, em 2000, até assumir o posto de engenheiro de motores de um dos carros de corrida da equipe, na época com Giancarlo Fisichella.

R. Penteado é chefe de operações da Renault
R. Penteado é chefe de operações da Renault

Na função, também teve a oportunidade de trabalhar com nomes como Nelsinho Piquet, Romain Grosjean, Robert Kubica, Nick Heidfeld, Bruno Senna, Kimi Raikkonen e Heikki Kovalainen. Depois, foi transferido à Toro Rosso quando o time passou a usar motores Renault, o que lhe rendeu a chance de auxiliar Jean-Eric Vergne e Max Verstappen.

Hoje, Penteado chefia todas as operações da Renault nos autódromos, o que inclui, além da equipe oficial, a Red Bull e, a partir de 2017, a Toro Rosso. Por isso, o Projeto Motor indagou ao engenheiro brasileiro a respeito de todos os pilotos com quem trabalhou de perto, o que traz à tona um ponto de vista interessantemente único.

“Todos os pilotos são muito diferentes. Todos querem ganhar, todos acham que são rápidos, mas eles não trabalham da mesma forma para chegar ao mesmo objetivo”, observa o engenheiro. Para compreender melhor as diferenças no método de trabalho de alguns nomes, Penteado faz uma analogia com termos de aviação.

“A comparação é assim: um F1 é um avião de caça. O cara precisa ser piloto, mas também precisa entender como funciona a parte técnica. Por exemplo, em 2012 e 2013, na Lotus, tínhamos o Kimi e o Romain. O Kimi era um campeão de acrobacia, onde as qualidades de orientação e timing são importantes para a realização de um programa perfeito. O Kimi tem o talento de pilotagem absurdo, acho que o melhor que já tive, com noção de tempo, de 3D, como se saísse de dentro do cockpit e visse a corrida do alto. Com ele, bati o recorde de corridas seguida nos pontos, com 30 corridas sem quebrar. Mas não é tão forte na parte técnica”, analisa.

Kubica seria o astronauta, enquanto que Kimi é acrobata
Kubica seria o astronauta, enquanto que Kimi é acrobata

“O Romain era um astronauta pilotando um avião de caça. Tinha menos talento de pilotagem que o Kimi, mas tinha parte técnica e intelectual muito desenvolvidas. Então, quando havia aqueles difusores soprados, o Romain conseguia adaptar a pilotagem dele para ter o máximo de apoio aerodinâmico do escapamento”, lembra. “O Kubica e o Alonso também seriam astronautas. As qualidades naturais são também muito importantes, mas o conhecimento técnico e a preparação científica por trás de cada sistema são indispensáveis”, destaca.

“É óbvio que Verstappen vai ser campeão”, prevê

verstappen

Em sua passagem pela Toro Rosso, Penteado viu o surgimento de uma estrela na chegada de Max Verstappen ao grid. Por isso, o jovem holandês foi tema de parte de nossa conversa com o engenheiro em Interlagos – coincidentemente, pouco antes de uma das apresentações individuais mais marcantes dos últimos tempos.

Jos, parte importantíssima do sucesso de Max
Jos, parte importantíssima do sucesso de Max

Penteado se mostrou impressionado não só com a habilidade de Verstappen ao volante, mas também com sua dedicação e paixão pelo automobilismo. “O Verstappen é um cara muito bem moldado. O fato de a mãe dele ter sido campeã de kart e do pai dele ter investido muito em sua formação originou isso. Sem querer criticar, mas a geração de pilotos do Brasil que está aparecendo é mais por hobby do que por talento. Você vê o Verstappen: ele tem só 19 anos, mas tem dez, 12 anos de carreira. Conversei muito com o Jos [Verstappen, pai de Max] e ele me dizia: ele colocava o kart no furgão, dirigia até as corridas, fazia testes, mexia no kart, passava conselhos… E o moleque também é apaixonado pelo negócio. Coincidiu o menino ter talento natural, ter vontade de trabalhar, com um pai que tinha dinheiro, tempo e conhecimento para investir”, pontua.

Assim, Penteado acredita que todos os fatores convergem para um único caminho: “Ele é supercompleto. Óbvio que ele é muito novo ainda e tem muito a desenvolver, especialmente na parte de entender como é o business da F1. Mas, pelo que acompanhei, é óbvio que ele vai ser campeão do mundo.”

As mudanças de regulamento da F1 em 2017 podem proporcionar a Verstappen uma boa oportunidade de evidenciar ainda mais seu gigantesco potencial. De qualquer maneira, fica a expectativa para mais batalhas ferrenhas entre os acrobatas e os astronautas na pista.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • É sempre muito bacana saber desses detalhes. Fico me perguntando se o fato de Kimi ter pulado tão jovem diretamente da F Renault para o mundial não teria a ver com esta profunda ignorância que ele manifestaria em termos de acerto do carro. Ele teve tempo de sobra para desfazer essa lacuna já na F1, mas não o fez. A essa altura de sua carreira, trata-se de algo que deve ter feito o finlandês perder muitas oportunidades de se dar bem.

    É lugar comum no automobilismo dizer que é na F3 que realmente se aprende a refinar a pilotagem e se tem acesso a um carro complexo o suficiente para desenvolver suas habilidades de acertador. Até Max Verstapen passou por lá. Acabei reforçando a minha impressão de que Raikonen seria uma espécie de gênio autista, uma máquina de pilotar em alto nível o tempo inteiro, que detesta ser interrompido pelo rádio. Um cara para quem o mundo se limita a volante, câmbio, acelerador e freio, que ignora cambagem, diferencial, ajuste de asa… Ele simplesmente é capaz de tirar 100% do que tiver em mãos.

    Tivesse corrigido esta falha, Kimi poderia ter sido o “anti-schumacher” tão aguardado antes do advento de Alonso…

  • Luiz S

    Podiam se aprofundar um pouco mais na entrevista, achei pouco superficial considerando a análise de um engenheiro de F-1.
    Faltou aquele fator “uau!!’