Além da ultrapassagem: os detalhes do dia em que Piquet trucidou concorrência

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A cena é ilustre. Nelson Piquet acossava Ayrton Senna na briga pela liderança do GP da Hungria, a primeira edição válida por um Mundial de F1. O carioca, a bordo de um Williams, ameaça ombrear por dentro e o paulista joga o carro para a direita, preservando-se no meio do traçado.

Disso, surge o tradicional movimento tantas vezes projetado quando se trata de dar o exemplo sobre a manobra ideal no esporte: Piquet desloca o FW11 para o traçado externo e procrastina o ponto de frenagem ao limite. Senna tenta retornar à linha, mas à esta altura o piloto da Williams já está lado a lado com a Lotus negra, entrando na curva com sua máquina de lado e derrapando nas quatro rodas. O paulistano não teve brecha para reagir.

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Como mencionado acima, esta é considerada por muitos a ultrapassagem mais admirável da história da F1. A partir dali, Piquet controlou o páreo no seu próprio ritmo, apressando de vez em quando para administrar a distância em relação a Senna. No fim daquela tarde, exatos 30 anos atrás, a folga foi de 17s673 para o brasileiro da Lotus e uma volta para o terceiro colocado Nigel Mansell, colega do carioca em Grove. Um massacre técnico e tático de Piquet, cuja dimensão é atenuada – às vezes de forma indireta – pela suntuosidade da manobra que lhe garantiu a liderança na corrida. Tentemos relembrar o que ocorreu ali.

A pressão em Piquet na temporada 1986

Piquet (à direita): muito contente com a vitória de Mansell em Paul Ricard
Piquet (à direita): muito contente com a vitória de Mansell em Paul Ricard

Definitivamente não é preciso abordar o contexto da Williams à altura do GP da Hungria: o confronto entre Piquet e Mansell em Grove, afinal, é um dos temas mais coçados na história da F1. Os dois não se davam bem, a equipe, ao que as evidências apontam, favorecia o inglês e o brasileiro se sentia enxovalhado. Há até outras interpretações ao episódio, mas não é o caso do presente artigo.

O que convém dizer é que, dias antes da prova em Hungaroring, Piquet estava pressionado. Ele vencera o páreo em Hockenheim, duas semanas antes, mas ainda se encontrava 13 pontos atrás do Leão na classificação de pilotos. Para uma dupla que claramente tinha em mãos o melhor bólido da categoria, a posição do brasileiro era inaceitável.

De qualquer forma, Piquet estava engajado numa reação: após uma franca derrota para Mansell em Brands Hatch – uma corrida controversa em que o rival triunfou com um carro ajustado para o brasileiro –, ele bateu o inglês na Alemanha por 45s de folga na prova e 0s1 na qualificação.

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O início do fim de semana na Hungria foi favorável a Mansell. Frente a uma pista nova e empoeirada, o britânico escolheu pneus de corrida para efetuar sua volta mais rápida e foi o melhor na sexta-feira.

A maré, porém, reverteu no dia seguinte. Mansell danificou seu carro numa sessão extra ao evitar uma colisão com Riccardo Patrese e nunca mais foi o mesmo. Durante o qualificatório, caiu para quarto no grid após se atrapalhar com a Brabham de Derek Warwick e a Tyrrell de Philippe Streiff em sua volta classificatória. Piquet, por sua vez, foi o segundo mais rápido na definição para o grid de largada, 0s3 mais rápido que o companheiro de Williams. Para a corrida, o carioca tinha um trunfo interessante nas mãos.

O golpe técnico na Williams e a corrida

Mais de 200 mil espectadores compareceram ao fim de semana do GP da Hungria em 86, a primeira prova oficial de F1 no “mundo socialista”. A impressão inicial dos pilotos sobre a pista foi ambivalente: alguns se queixaram do asfalto empoeirado, outros da falta de curvas velozes e de uma reta muito longa para ultrapassagens.

De qualquer forma, a prova foi considerada um sucesso pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo). Havia, por exemplo, o temor de que a multidão se tornasse hostil com o evento – por conta das tensões socioeconômicas entre os blocos capitalista e socialista na Guerra Fria. Mas, no fim, o público foi bastante comportado e disciplinado, sem necessidade de intervenção estatal para aplacar qualquer animosidade.

Diante deste cenário, Senna e Piquet se posicionaram na primeira fila do páreo, com Alain Prost, da McLaren, e Mansell no renque logo atrás.

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Durante os três dias de ensaio, Piquet experimentou seus dois carros e concluiu que um ajuste distinto no diferencial seria o ideal para a corrida. Talvez pensando no episódio de Silverstone, porém, o brasileiro omitiu a informação de Mansell, um fator que incidiu diretamente no desenvolvimento da corrida.

Na largada, Senna tomou a ponta, enquanto o Leão pulou para a vice-liderança, logo à frente de Piquet e Prost. Os quatro, aliás, negociaram sem drama o primeiro complexo de curvas.

Pouco depois, o novo ajuste técnico de Piquet passou a mostrar efeito. Logo no terceiro giro, o brasileiro ultrapassou Mansell e, volta a volta, passou a descolar absurdamente do companheiro de equipe, enquanto acossava a Lotus de Senna.

Piquet persegue Senna em Hungaroring
Piquet persegue Senna em Hungaroring

No início da décima volta, Piquet tentou passar a Lotus na primeira curva, mas o paulista conferiu vantagem e o manteve atrás. O carioca, porém, não se deu por vencido. No giro seguinte, superou a 99T no fim da reta dos boxes e abriu pequena distância. Na sequência, Senna logo começou a sofrer pressão de Prost, que havia ultrapassado o rastejante Mansell e ocupava o terceiro posto.

A situação do britânica, a propósito, era sórdida. A bordo de um carro desequilibrado, com as rodas patinando o tempo inteiro, Mansell fez a primeira de suas duas paradas ainda na 28ª volta, terminando depois o percurso com um giro de diferença para o colega de equipe. O inglês ainda salvou um ponto com o abandono de Prost, que se encaminhava para encerrar o páreo em terceiro lugar, mas a tarde havia sido para esquecer.

A manobra final e as reclamações do ás da Williams

No fim da 35ª volta, Piquet entrou nos pits para sua única parada no percurso e Senna reassumiu a liderança. O ás da Lotus, com sua invejável mistura de velocidade e sensibilidade no volante, administrava os pneus para manter a distância em relação ao carioca.

O equipamento superior de Piquet, no entanto, começou a aparecer e, na 53ª volta, a diferença entre os rivais era de 1s. No giro seguinte, era a hora do bote: o piloto da Williams colocou por dentro na reta dos boxes e efetuou a manobra. Mas Senna, que serpenteava no meio do asfalto para evitar a ultrapassagem, deslocou seu carro para a direita. Com efeito, espremeu Piquet nas extremidades da pista, obrigando o rival a derrapar para a área de escape.

Duas voltas depois, no entanto, a Lotus cedeu e o piloto da Williams efetuou uma das manobras mais icônicas da história da F1, a qual já descrevemos na introdução do texto. É para assistir e assistir inúmeras vezes.

Piquet voltou à briga pelo título de 86 com a vitória, encurtando oito pontos para Mansell na liderança do campeonato. Mas o mais emblemático no pós-GP foi a reação do carioca às manobras defensivas de Senna. Como o jornalista Luiz Alberto Pandini cita nesta ótima coluna sobre o episódio no site GP Total, Piquet acusou Senna de ter sido sujo na segunda tentativa de ultrapassagem.

“Ele deixou o lado de fora para mim e eu aceitei, mas aí ele voltou para me espremer no lado esquerdo. Depois que fiz a ultrapassagem, mandei-lhe uma bela rosca.”

Senna, por sua vez, avaliou a manobra do carioca como “suicida” em entrevista à publicação “Quatro Rodas”, no fim de 86. Mas, verdade seja dita, o futuro tricampeão da McLaren nunca aceitou muito bem suas derrotas.

Hoje, o que fica deste dia memorável em Budapeste é a forma como Piquet suplantou seus adversários. Na sensibilidade técnica superior à de Mansell em relação ao carro e na tenacidade durante o confronto com o sempre difícil Senna. O dia 10 de agosto não é o “dia da ultrapassagem”, e sim o dia em que se homenageia a genialidade de Nelson Piquet.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.