Antes banido, automobilismo tem caminho livre para voltar a ser olímpico

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Automobilismo e Olimpíadas sempre foram dois entes de relação animosa. Afinal, um esporte (que alguns nem consideram como tal) que depende de uma complexa máquina com rodas e motor, de uma praça muito maior do que uma simples quadra e de investimentos simplesmente nababescos para ser realizado nunca foi visto com olhos muito simpáticos por parte de quem comanda a festa quadrienal.

Da era moderna dos Jogos Olímpicos o esporte a motor fez parte apenas duas vezes, conforme Lucas Berredo explica neste artigo que também faz parte do especial do Projeto Motor Automobilismo e Olimpíadas. A primeira, na edição de Paris, em 1900, ocorreu na forma de um conjunto de demonstrações; a segunda – e única oficial -, oito anos mais tarde, em Londres, envolveu três eventos de motonáutica.

Automobilismo entrou como modalidade extra-oficial nos Jogos de Verão de 1900, em Paris. As categorias de competição iam de carro de passageiro até caminhão de bombeiros, passando por táxis e vans de entrega
Automobilismo entrou como modalidade extra-oficial nos Jogos de Verão de 1900, em Paris. As categorias de competição iam de carro de passageiro até caminhão de bombeiros, passando por táxis e vans de entrega

Desde então a relação foi de discreto e contínuo afastamento. Sim, é verdade que a entidade reguladora do esporte a motor, atualmente conhecida como FIA (Federação Internacional do Automóvel), mas que na primeira metade do século XX se chamava AIACR (sigla em francês para Associação Internacional de Automóveis Clube Reconhecidos), seguiu vinculada ao COI (Comitê Olímpico Internacional) até o início deste milênio.

Entretanto, o já fragilizado vínculo entre as partes foi quebrado em 2003, quando a federação se recusou a assinar o recém-formulado Código Mundial Antidoping. À época, a entidade máxima do esporte a motor, então comandada por Max Mosley, alegava possuir mecanismos próprios e adaptados à sua realidade para prevenir a dopagem. Por insubordinação, acabou excluída da lista de federações chanceladas pelo comitê no ano seguinte.

Antes disso o COI já incluíra na Carta Olímpica (documento magno que rege os preceitos esportivos mundiais) a regra 47.4.2, que estabelecia: “qualquer esporte, disciplina ou evento em que o desempenho dependa essencialmente de propulsão mecânica não será aceito” na programação dos Jogos.

Max Mosley: o homem responsável por romper de vez o tênue elo entre FIA e COI
Max Mosley: o homem responsável por romper de vez o tênue elo entre FIA e COI

Observe como a expressão “propulsão mecânica” foi marotamente escolhida para que a regra abrangesse o automobilismo, e somente ele. Afinal, há outros esportes que não dependem exclusivamente da ação humana. Todavia, ao elencar especificamente a “propulsão mecânica”, o comitê isentava as forças naturais (iatismo), animais (hipismo) e humanas sobre a máquina (ciclismo) de sua restrição.

Circunscrito a tudo isso estava a própria discussão sobre se o automobilismo podia ou não ser considerado um esporte, algo ao qual Lucas Berredo já respondeu de maneira primorosa neste Fato ou Mito.

Depois de muitas negociações e ponderações, a FIA só veio a aceitar os termos do acordo coletivo sete anos mais tarde, já sob tutela de Jean Todt. Assim, a trégua veio em 9 de dezembro de 2011: o então presidente do comitê olímpico, Jacques Rogge, voltou a reconhecer a federação de automobilismo como membro de seu “guarda-chuva” em caráter provisório.

Após aceitar o esporte a motor provisoriamente sob o guarda-chuva do COI, Jacques Rogge resolveu conhecer melhor o universo das corridas e chegou a aparecer no padoque do GP da Inglaterra de 2012
Após aceitar o esporte a motor provisoriamente sob o guarda-chuva do COI, Jacques Rogge resolveu conhecer melhor o universo das corridas e chegou a aparecer no padoque do GP da Inglaterra de 2012

Para reconquistar a cadeira permanente, Todt teria que, num prazo de dois anos, adaptar todos os estatutos e atividades aos preceitos da Carta Olímpica e criar uma Comissão Oficial de Atletas. Além disso, prontificou-se a enviar missivas às 222 confederações associadas – incluindo a nossa CBA – dando diretrizes sobre como agir em meio ao processo. Antes de terminar o prazo estipulado o pequenino francês já havia cumprido suas promessas e, em setembro de 2013, numa reunião realizada em Buenos Aires (Argentina), o COI oficializou a FIA como membro definitivo da instituição.

Mas, afinal, o que isso significa na prática? Existe alguma possibilidade de o automobilismo voltar a contar com um evento oficial dos Jogos?

Bem… a tal restrição da Carta Olímpica já não existe mais – caso o douto leitor tenha curiosidade, pode acessar por si mesmo a versão digitalizada do documento, versão 2015, para confirmar a informação. Em resumo, o caminho está teoricamente livre para que as Olimpíadas contem, em algum momento, com uma corrida de automóveis (ou barcos motorizados) em sua programação. Resta saber se haverá vontade e organização para, a partir daí, colocar ideias em prática.

Para muitas fontes, é no silêncio ecologicamente correto e padronizado da Fórmula E que está a grande chance de o automobilismo voltar a contar com um evento olímpico
Para muitas fontes, é no silêncio ecologicamente correto e padronizado da Fórmula E que está a grande chance de o automobilismo voltar a contar com um evento olímpico

Imaginações já começaram a trabalhar: em julho de 2015 a publicação germânica F1-Insider divulgou reportagem em que destrinchava um suposto plano para promover a reestreia do esporte a motor nos Jogos de Tóquio, em 2020. Segundo o site, o ex-vice-presidente e atual membro fixo do Conselho Mundial da FIA, o sueco Lars Österlind, estaria empenhado em tornar o sonho realidade.

“A quieta e ecologicamente correta Fórmula E, que utiliza chassis e motores padronizados, seria a base para fornecer os carros. A(s) prova(s) ocorreriam, muito provavelmente, em circuito de rua. Cada comitê olímpico nacional, em consulta às confederações nacionais de automobilismo, teria direito a selecionar três pilotos por país”, especulou o texto do F1-Insider, com certa dose de detalhismo.

Seja um mero devaneio ou uma possibilidade tangível, o fato é que ter um Grand Prix olímpico e ver ases como Lewis Hamilton, Sebastian Vettel, Sébastien Loeb e afins brigando por medalhas seria insanamente empolgante e divertido. Não custa sonhar.

DEBATE MOTOR #38 – O que deu errado no projeto da Ferrari?

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • castilho17

    Dada a quantidade de esportes que dependem de equipamentos, que inclusive não são padronizados (algumas classes da vela, ciclismo, hipismo, bobsleigh, por exemplo..) a entrada do automobilismo é uma questão politica e logistica..

    Minha sugestão para as competições, KART. Fácil de padronizar, organizar dezenas de baterias, barato, ocupa pouco espaço e é a forma mais crua e simples de automobilismo. Caso sigam o esquema de 3 pilotos por país, teríamos um limite de uns 600 atletas, não vejo como organizar isso em nada que não seja Kart.

    É possivel e eu assistiria, tomara que de certo..

  • Guilherme Laporti

    Eu pensei em algo como a ROC. Circuito pequeno e carros como Xbow ou o Ariel atom

  • Gustavo Segamarchi

    Ótima matéria, eu não sabia que o Mosley é que tinha sido o estopim da desunião, mas que bom que a FIA voltou a ser membro do Comitê Olímpico Internacional(C.O.I).

    Eu concordo quando já se especula a F-E como uma provável categoria que pode dar origem ao retorno do automobilismo como esporte olímpico, pois hoje, prega-se que o esporte deve ser ”verde”, onde a F-E consegue se mostrar que é uma categoria que busca o ”verde”.

  • Frank Rock

    se ha pessoas que pensam que nas olimpiadas ate futebol e volei nao eram pra ter vez, assim como provas de tiro, com cavalos e barcos, imagina com motores

    mas quem sabe, as coisas mudam, e essa mudança seria pra melhor

  • achsanos

    Karts. Custo menor, demanda menor de espaço e insumos, padronização mais fácil, pilotagem mais visível, tudo mais cru. O pessoal do monoposto não vive dizendo que é lá que está toda a essência da coisa?

    • Leonardo Felix

      Sugestão muito interessante, achsanos. Seria muito mais fácil para atrair pilotos de diversas modalidades (não há muita desculpa, todo mundo começa no kart). Fora que organizar um espaço pra uma corrida de kart seria muito mais fácil.

      Abraços!

    • Gabriel Pena Catabriga

      Pois é ia comentar justamente isso, kart um estacionamento já da para fazer e em todo lugar tem pista de kart, basta saber como se daria a disputa, deveria ser por eliminatórias até chegar na grande final.

  • Elizandro Rarvor

    Patético, deixe os esportes olímpicos para quem realmente é atleta de altíssimo rendimento.

    • JDM FROM HELL!!!

      Você acha que pilotos não são atletas? Cara, está muito por fora do preparo físico que um piloto precisa ter, mas muito por fora mesmo. Academia, dieta, nutrição, suplementação, treino, disciplina, controle mental, tudo isso são atividades que todo atleta olímpico precisa ter, e garanto para ti, o preparo de um piloto da F1 é brutal.
      Você nunca verá um cara fora de forma dentro de um carro de corridas, e se ele estiver fora de forma, pode ter certeza que estará no fundo do grid.
      Foi-se já esse pensamento antiquado e ridículo que uma máquina não pode ser considerada a prática de um esporte, sendo que esta, é 100% controlada por um cara que com conhecimento e muito preparo físico.

      • Elizandro Rarvor

        Claro que pilotos são atletas, Alex Zanardi que o diga, e Jason Button é um bom triatleta, nada, pedala e corre mais ou menos, nada de excepcional.

        O que me refiro é colocar o carro como esporte olímpico.

        Existe algo chamado X-GAMES para isso, lá é o local para esporte a motor.

        • JDM FROM HELL!!!

          Dependendo do tipo de carro acharia bem interessante, talvez uma Fórmula bem simplificada, além disso seria louvável quebrar essa paradigma de que automobilismo não é esporte, não há jeito melhor de quebrar um esteriótipo envolvendo esportes do que na própria casa do esporte.