Antes de Jules, família Bianchi ficou marcada por tragédia em Le Mans

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A morte de Jules Bianchi chocou o mundo do automobilismo no último fim de semana. Por causa do bom desempenho em campeonatos de base e da ligação à Ferrari, o francês era cotado como um futuro ás na F1 tanto pela imprensa quanto pelos colegas de trabalho – recentemente, o ex-presidente da marca italiana informou que Bianchi seria o provável substituto de Kimi Raikkonen em Maranello, quando este último se aposentasse.

O ex-piloto da Marussia também estava conectado ao automobilismo pela família. Seu avô, Mauro Bianchi, competiu em corridas de turismo durante os anos 60 e participou de três GPs não-oficiais de F1 em 1961. Já o tio-avô Lucien foi um automobilista mais vencedor que chegou a triunfar nas 24 Horas de Le Mans e, infelizmente, também ficou marcado pela tragédia.

Bianchi com o carro da Emeryson, no início dos anos 60 (Divulgação)
Bianchi com o carro da Emeryson, no início dos anos 60 (Divulgação)

A biografia de Lucien é curiosa. Nascido em Milão, ele era filho de um mecânico da Alfa Romeo que se mudou para a Bélgica com o objetivo de trabalhar para o músico e piloto semiprofissional de F1, Johnny Claes (outros tempos, amigos). No país dividido entre flamengos e valões, Lucien e o irmão Mauro logo se envolveram com automobilismo por influência do pai. E não demoraram a mostrar resultados.

Em 1957, aos 23 anos, Lucien venceu o Tour de France Automobile ao lado de outra futura estrela do endurance, Olivier Gendebien. Seguiram-se vitórias em 1958 e 1959 e o ítalo-belga ganhou uma chance de correr na F1. Mas a presença na categoria-mãe foi pouco competitiva. Sua equipe, a ENB, não tinha fundos suficientes para construir seu próprio carro e precisava recorrer a Coopers ultrapassados para se manter no grid.

Bianchi ao lado de Pedro Rodríguez, comemorando a vitória em Le Mans (Divulgação)
Bianchi ao lado de Pedro Rodríguez, comemorando a vitória em Le Mans (Divulgação)

Ciente disso, Lucien decidiu então se concentrar nos protótipos e no rali. Pela Ferrari, o belga venceu as 12 Horas de Sebring em 1962, e seis anos depois, conquistou as 24 Horas de Le Mans, a bordo de um Ford GT40 do time JW. Outros triunfos no endurance ocorreram nesse ínterim como as 6 Horas de Watkins Glen e os 1000 km de Paris (por três vezes) e o belga novamente voltou a chamar a atenção dos chefões da F1. No início de 1968, ele estava de retorno ao campeonato de monopostos, com a equipe oficial da Cooper.

O time de Surbiton, contudo, não era mais a força que se mostrara na virada dos anos 50 para 60. Conexões com a British Leyland impediam a equipe bicampeã de negociar com a Ford – à época todos os times, à exceção de Ferrari e BRM, já passaram a adotar os Cosworth DFV V8 – e o T86 era um carro instável, equipado com um V12 da BRM originalmente desenhado para veículos esportivos. O resultado disso foi uma temporada apática na F1: apesar de um pódio em Mônaco, Bianchi amargou um melancólico 17º lugar na classificação final.

Bianchi à frente de Graham Hill, no GP de Mônaco de 68 (Divulgação)
Bianchi à frente de Graham Hill, no GP de Mônaco de 68 (Divulgação)

Ao mesmo tempo, estranhos paradoxos começaram a acontecer na vida do belga. Na mesma edição em que triunfou em La Sarthe, seu irmão Mauro sofreu um grave acidente e foi forçado a abandonar a carreira de piloto.

Um ano depois, no dia 30 de março de 1969, o então campeão de Le Mans testava com um protótipo da Alfa Romeo para as 24 Horas. No segundo dia de ensaios, o T33 sofreu uma falha mecânica na reta Mulsanne e se chocou com um poste telegráfico. Bianchi morreu na hora.

Quatro décadas depois, o sobrenome de Lucien, agora com inscrição francesa, retornou às pistas e à F1. Mauro publicamente apoiava a carreira de Jules. Mas o que provavelmente não esperava era um novo trauma: mais um talento que foi perdido para o acaso.

Debate Motor #5 analisa morte de Bianchi e seus desdobramentos na F1:

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Gustavo Segamarchi

    Vocês acham que a teoria dos cockpits fechados pode ganhar mais força agora?

    Mesmo com um cockpit fechado, acho que o Bianchi não teria escapado das lesões!

    Deve ser triste para a família do Bianchi perder dois entes queridos na pista.

    • Bruno Ferreira

      De fato, Gustavo, depois da morte do Bianchi a ideia dos cockpits fechados já foi bastante defendida por gente no paddock, incluindo Hamilton e Massa. Mas nós opinamos sobre o assunto no Debate Motor Especial, mais ou menos aos 57min40s do vídeo que colocamos acima. Dá uma conferida lá! Abraços!

      • Gustavo Segamarchi

        Obrigado, Bruno!

        Vou conferir!

        Um abraço!