Archie Scott Brown: o piloto que andou na F1 com apenas uma mão

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Você com certeza já ouviu muitas histórias de pilotos heróis que fizeram de tudo com carros de corrida, seja na F1 ou em outras categorias. Mesmo assim, poucas delas devem se equiparar com a de Archie Scott Brown, escocês que teve ótimos resultados nas pistas apesar de uma deficiência de nascença que o deixou com apenas uma mão.

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Isso mesmo, você não leu errado. Scott Brown venceu provas na Inglaterra e chegou a competir na F1 com apenas uma mão. E o mais interessante é que ele passou longe de apenas fazer figuração, com diversas vitórias e boas atuações, além de enfrentar uma boa dose de preconceitos, o que fez dele um símbolo da comunidade de deficientes do Reino Unido.

A mãe do escocês contraiu rubéola durante a gravidez e ele nasceu, em 13 de maio de 1927, com uma série de problemas físicos: sem parte do antebraço e nada da mão direita, pernas sem a tíbia e pés torcidos quase que para trás. Durante seus dois primeiros anos de vida, ele passou por 22 cirurgias que resolveram boa parte de seus problemas nas pernas, o permitindo andar.

Mesmo sem a mão direita, Archie Scott Brown se tornou um dos grandes pilotos de carros esportivos da década de 50

O gosto pelo automobilismo começou quando ele ainda era criança, aos 11 anos, e seu pai construiu um pequeno carro adaptado a ele. O garoto nunca mais parou de evoluir e, incentivado pelo pai, logo aprendeu a dirigir. Com espírito destemido, ele nunca viu seus problemas como uma limitação e no começo dos anos 50, aos 24 anos, entrou em competições de carros esportivos com seu MG.

Com um estilo bastante agressivo, sempre deslizando seus carros de lado, e muita velocidade, Scott Brown passou a reunir uma legião de fãs nos autódromos britânicos, muitos dos quais nem sabiam de seus problemas físicos. Ele basicamente pilotava com a mão esquerda, mas também conseguia apoiar a parte do antebraço direito que tinha no volante e puxá-lo até quase a linha da cintura quando necessário. Mesmo com a limitação física, ele tinha uma boa sensibilidade de balanço, o que o ajudava nas correções ao contornar as curvas a tempo de manter o carro no traçado e em alta velocidade.

Com os bons resultados, ele passou a ter uma relação próxima com o empresário Brian Lister e passou a pilotar modelos da marca Lister, que produzia carros esportivos em cima da estrutura de modelos da Jaguar.

Archie Scott Brown e a Lister fizeram uma parceria de muito sucesso nas pistas britânicas

Scott Brown logo se tornou um dos principais pilotos de esporte-protótipos da Inglaterra, com triunfos importantes. Em 1954, porém, ele sofreu com o preconceito. Mesmo com um currículo que já o colocava entre os melhores pilotos locais da época, ele foi denunciado por um rival e teve sua licença para competir no Troféu do Império Britânico, no circuito de Oulton Park, cassada por comissários. Archie não foi considerado apto a participar de provas de automobilismo por possuir deficiência.

Diversos pilotos e pessoas do meio passaram a protestar em seu favor até que ele recuperasse sua permissão para competir. Algumas provas fora da Inglaterra ainda demoraram alguns anos para aceitá-lo.

Ainda naquele ano, ele conseguiu acumular 13 triunfos durante a temporada de carros esportivos britânicos, com alguns resultados impressionantes, como a vitória em Snetterton, em maio, batendo Peter Collins e seu Aston Martin DB3S e em Crystal Palace, à frente de Roy Salvador. Ele ainda voltou a Oulton Park para vencer uma bateria em que também estavam Reg Parnell e Collins, novamente de Aston Martins.

Archie Scott Brown lidera com seu Connaught B-Type B2 o Troféu Glover, no circuito de Goodwood, à frente da Maserati 250F de Stirling Moss

Nos anos de 1955 e 56, além de competições em esportivos, Scott Brown também começou a participar de algumas provas de F1. Ele teve algumas apresentações importantes em provas não válidas pelo campeonato, como no Troféu Internacional de 1956, em Silverstone, quando chegou na segunda posição, atrás apenas do Vanwall de Stirling Moss.

Na mesma temporada, ele participou de sua única etapa válida pelo campeonato da F1, no GP da Inglaterra, também em Silverstone. Entre 28 competidores, ele conquistou a décima posição do grid, melhor entre os três Connaught inscritos. Na corrida, abandonou com um problema na transmissão na 16ª volta quando ocupava o sétimo lugar.

Archie Scott Brown persegue a Ferrari D50 de Alfonso de Portago com seu Connaught B Alta durante o GP da Inglaterra de 1956

Ele ainda tentaria participar do GP da Itália daquele ano, mas sua inscrição não foi aceita pela falta de uma licença internacional de piloto justamente por causa de sua deficiência. Este tipo de rejeição foi algo comum em sua carreira e que o impediu de decolar para voos mais altos internacionalmente.

Scott Brown seguiu com sua carreira fazendo sucesso em seu Lister em corridas na Inglaterra e, quando aceito, na Europa e até mesmo na Oceania, apesar de seguir excluído de muitos dos principais campeonatos. Ele se tornou o principal piloto da Lister e a levou a diversos sucessos importantes que contribuíram para o crescimento da marca.

Archie Scott Brown era conhecido por seu bom humor e bom relacionamento com mecânicos

Em 1958, porém, uma derrota para o americano Masten Gregory em Silverstone o deixou abalado pelo fato do rival estar com o mesmo carro que ele.

“A derrota para Gregory o deixou perturbado”, contou Brian Lister à revista Motorsport alguns anos depois. “Acho que ele ficou chocado com o fato de que poderia ser batido com um carro parecido. Ele perdia algumas vezes para carros de outras marcas, mas desta vez foi para outro Lister. Não tenho dúvida de que ele queria provar em Spa de que ainda era o mestre quando se falava de Listers. Foi uma grande corrida entre eles nas primeiras voltas”, continuou.

O GP de Spa, em 18 de maio de 1958, provas de carros esportivos no circuito belga, era o local do novo embate. Scott Brown e Gregory passaram as primeiras seis voltas em uma feroz batalha pela liderança com seus Listers, com direitos a toques e empurrões. Ao contornarem a Blanchimont em alta velocidade e entrarem na antiga Clubhouse (curva veloz na época e que hoje é ocupada pela chicane que leva à reta dos boxes), eles se depararam com uma forte chuva que não caía no resto do circuito.

Scott Brown perdeu o controle de seu carro, bateu em uma placa de sinalização e sofreu um grave acidente. Ele morreu no hospital da cidade de Heusy no dia seguinte, aos 30 anos.

Mesmo com seu fim trágico, Archie Acott Brown se tornou uma referência para o que pessoas com deficiência podem fazer e até mesmo desafiarem habilidades de qualquer outra pessoa.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.