Arrogância deve levar Red Bull a beco sem saída: virar cliente da rival Ferrari

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Acostumada com vitórias, a Red Bull mostrou nos últimos dois anos que esqueceu o que é perder e vem reclamando sem parar de todo mundo na F1. Entre FIA e rivais, um de seus alvos preferidos, pasmem, tem sido uma de suas parceiras mais importantes nos tempos de glória: a Renault. E depois do GP da Itália, o relacionamento mostrou indícios de que está perto do fim, com os austríacos decididos a mudar de fornecedor de motores já na próxima temporada.

Os V6 fabricados em Viry-Châtillon realmente nunca impressionaram em potência ou confiabilidade, apesar das três vitórias conquistadas por Daniel Ricciardo em 2014. O que mais frustrou a equipe tetracampeã, no entanto, foi a falta de capacidade de reação, ficando cada vez mais para trás não só da Mercedes, como também da Ferrari.

Por outro lado, a verdade é que desde o começo da crise, a Red Bull em nenhum momento mostrou paciência ou vontade de trabalhar ao lado dos franceses para resolver os problemas. O rompimento unilateral (o contrato tinha duração ainda para 2016) talvez foi motivado por um pequeno indício de que a Mercedes estaria aberta a uma conversa.

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Só que, segundo informação que saiu nos principais veículos especializados nos últimos dois dias, a ordem que veio dos mais altos dirigentes da empresa de Stuttgart foi de acabar com qualquer tipo de negociação. O presidente da Daimler (principal acionista da empresa), Dieter Zetsche, esteve em Monza e vetou a parceria, com apoio do Conselho da Mercedes. O medo, compreensível, é de munir um concorrente do calibre da Red Bull com seu equipamento de ouro justamente no momento de maior glória da companhia no Mundial em 60 anos.

Restaram então duas alternativas para a Red Bull. A Honda certamente não será nem considerada, pelo óbvio motivo de estar enfrentando ainda mais problemas do que a Renault. A outra é a Ferrari. E, por incrível que pareça, os italianos parecem estar propensos a fechar um negócio. A primeira reação seria de acreditar que os dirigentes de Maranello seguiriam o pensamento da Mercedes, mas, pelo que declarou o chefe da equipe do cavalinho, Maurizio Arrivabene, a coisa não é por aí.

“A Red Bull tem grandes nomes, com Adrian Newey como projetista-chefe, e é fácil pensar que, se você der o motor, eles vão construir um chassi monstro, o que significaria que eles serão muito competitivos. Minha equipe, meus engenheiros e aerodinamicistas sabem o que têm de fazer. Por essa razão que não temos problema e competição é bom quando você tem um concorrente forte”, declarou o italiano ao jornal The Guardian.

Tudo parece mesmo indicar que Red Bull e Ferrari reeditarão a parceria que já aconteceu na temporada de 2006, a segunda do time, que vivia ainda um momento bastante diferente, longe das vitórias. A fornecedora ainda trabalhou de 2007 até o final de 2013 com a Toro Rosso, equipe satélite que também pertence à fabricante de energéticos.

Vettel leva a Toro Rosso à vitória no GP da Itália de 2008 (Bridgestone)
Vettel leva a Toro Rosso à vitória no GP da Itália de 2008 (Bridgestone)

Curiosamente, a única vitória da história de um motor Ferrari que não tenha sido em um chassi fabricado pela própria escuderia foi justamente com a Toro Rosso, na inesquecível conquista de Sebastian Vettel no GP da Itália de 2008.

De qualquer maneira, a Red Bull, que desde o começo de 2014 resolveu entrar em colisão direta com a Renault, que a tratava como uma equipe oficial, com um suporte bastante próximo, vai se tornar agora uma cliente da adversária com quem manteve a maior rivalidade em seu melhor momento, entre 2010 e 2013. Será que é uma boa posição?

Difícil saber se a Ferrari dará equipamento igual a uma rival que, com certeza, terá condições de fazer um carro tão bom ou até melhor. E mesmo que faça isso, o serviço prestado certamente será o de uma equipe cliente normal, como a Sauber, e não de um parceiro, como era na relação com a Renault. Ou alguém acha que os engenheiros de Maranello vão arrancar os cabelos para entregar os dados que seus “colegas” de Milton Keynes precisarão?

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A Red Bull abriu mão de se manter com apoio oficial quando, na crise, não quis abraçar a Renault e tentar ajudá-la a recuperar o terreno perdido. Em vez disso, preferiu ficar na posição de crítica do trabalho dos franceses, apenas impondo uma pressão ainda maior em um ambiente já complicado. E até em termos de marketing, a plataforma nunca funcionou de uma forma balanceada.

Claro que todo mundo quer ver uma organização como a de Christian Horner e companhia com a estrutura necessária para que eles possam colocar mais fogo na competição. A questão toda fica em torno da posição em que o time se colocou, sendo obrigado a abraçar a Ferrari como sua salvadora. Além disso, não é nem para ser cliente da fabricante do melhor motor do momento…

Red Bull e Ferrari têm sido rivais nos últimos anos
Red Bull e Ferrari têm sido rivais nos últimos anos

Do outro lado, os italianos também assumiriam o risco de ver seu motor ajudando um potencial rival a lhe vencer. Seria algo próximo do inédito para a Ferrari, que jamais forneceu propulsores para uma equipe realmente grande, que pudesse ser uma ameaça à sua equipe. Além das médias Sauber e Red Bull [de 2006], as parcerias sempre passaram por equipes do nível de Force India, Minardi, Spyker, Marussia, entre outras ainda menores.

Do ponto de vista político, no entanto, a Ferrari passa a ter um poder de barganha ainda maior dentro da F1. Hoje, eles já fornecem motores para três equipes, contando a sua própria: Ferrari, Sauber e Manor. Ela já tem acordo com a Haas, que estreia em 2016. Caso feche mesmo o contrato com a dupla Red Bull/Toro Rosso, serão seis. É verdade que a Manor anda conversando com a Mercedes (além de ser sempre uma incógnita no grid), mas, mesmo assim, seriam no mínimo cinco times dos 11 que irão correr em 2016.

E como fica a Renault?

Fernando Alonso, com sua Renault, em 2006
Fernando Alonso, com sua Renault, em 2006

Em meio a tudo isso, caso se confirme a informação do rompimento, a Renault fica entre duas opções que de qualquer forma lhe custarão muito: aceitar derrota e, sem clientes para 2016, deixar de vez a F1, ou entrar de cabeça e recomprar uma equipe para voltar a ser um time de fábrica (fala-se que um acordo com a Lotus já estaria bem encaminhado).

A montadora francesa tem tradição na F1 e no automobilismo em geral. Já teve duas passagens vitoriosas pelo Mundial, sendo que na segunda conquistou os títulos de pilotos e construtores em 2005 e 06. Além disso, existe a questão já levantada aqui no Projeto Motor de um compromisso moral por ela ter sido quem mais pressionou pela mudança no regulamento dos motores.

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Para a F1, obviamente que o mais interessante seria eles voltarem a ser um time oficial e tentarem reerguer seu nome no campeonato. Já pensaram o que não seria para a Renault bater a Red Bull daqui a dois anos?

A decisão não deve demorar. O tempo é curto para a próxima temporada. Na verdade, os projetos dos carros já devem estar em andamento. Fala-se até em um ano sabático, já com tudo acertado com os atuais donos da Lotus, para voltar com tudo em 2017. Tudo irá depender agora da avaliação do alto escalão da montadora.

Assista à análise do GP da Itália de 2015 na edição #8 do Debate Motor:

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.