As corridas de F1 que o público brasileiro não assistiu na íntegra na televisão

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Como nos últimos três anos, os brasileiros não vão assistir ao GP dos Estados Unidos na tevê aberta. Por questões contratuais, a Rede Globo, emissora que transmite a F1 no Brasil, vai priorizar no próximo domingo (25) a transmissão da 31ª rodada do Campeonato Brasileiro de Futebol.

Isso significa que há a chance de, pela primeira vez em ao menos dez anos, os brasileiros não assistirem à decisão do título da categoria, já que Lewis Hamilton pode ser campeão no fim de semana. A última ocasião em que isso aconteceu foi em 2004, quando Michael Schumacher se sagrou heptacampeão no GP da Bélgica – prova que não foi transmitida por causa dos Jogos Olímpicos.

GP da Bélgica de 2004 deu o hepta a Schumi, mas não foi transmitido pela Globo (Divulgação)
GP da Bélgica de 2004 deu o hepta a Schumi, mas não foi transmitido pela Globo (Divulgação)

De qualquer forma, a situação já era esperada. A Globo passou a transmitir com exclusividade a F1 a partir de 1976, e mesmo na época do heyday da categoria no Brasil, relegava as provas disputadas com horário à tarde – geralmente na América do Norte – a flashes depois do “Fantástico”.

A situação só começou a mudar no fim de 1981, quando Nelson Piquet lutava pelo título mundial com Carlos Reutemann e a emissora exibiu os GPs do Canadá e de Las Vegas.

Ainda assim, no ano seguinte, apenas o último GP na América do Norte, em Las Vegas, que decidiu a briga pelo título entre Keke Rosberg, da Williams, e John Watson, da McLaren, foi transmitido ao vivo. Os outros três – Long Beach, Detroit e Canadá – foram exibidos em flashes ou excluídos da programação.

Neste texto, o Projeto Motor relembra algumas das provas preteridas pela Globo nas últimas décadas – vamos deixar de fora os GPs dos EUA dos últimos três anos, já que eles estão mais frescos na memória –, além dos motivos pelas quais elas não foram exibidas ao vivo.

A lista de corridas foi formulada no saudoso Tazio, três anos atrás, e está republicada aqui com as devidas atualizações.

CANADÁ-1982

A primeira vitória de Nelson Piquet com a Brabham-BMW turbo não foi transmitida na íntegra no Brasil.

Isso porque, por causa da Copa do Mundo na Espanha, a organização do GP adiou a largada para as 16h locais (17h no Brasil). Logo na primeira partida, houve o triste acidente fatal de Riccardo Paletti, da Osella, e a prova só foi reiniciada cerca de duas horas depois, já no período da noite em terras tupiniquins.

Como o “Fantástico” estava programado para entrar no ar durante aquele período, a Globo exibiu apenas a primeira metade da corrida. Somente o término do GP, com Piquet na ponta, foi televisionado para o público nacional.

CANADÁ-1983

Por conta de uma partida da seleção brasileira na Copa do Mundo Sub-20 do México, o GP do Canadá de 1983 ficou em segundo plano. Transmitida apenas parcialmente – as primeiras 26 voltas, para ser mais exato -, a corrida teve domínio da Ferrari de René Arnoux, que só não liderou três das 70 voltas.

O francês chegou ao primeiro triunfo no certame e iniciou uma arrancada que o levaria à disputa pelo título. Para azar do principal brasileiro no grid e sorte da Globo, Nelson Piquet teve uma tarde ruim em Montreal, abandonando na 16ª passagem, quando vinha em terceiro, por um problema no acelerador.

DETROIT-1986

A vitória de Ayrton Senna em Detroit foi quase uma vingança indireta contra os franceses. Um dia antes da corrida nos Estados Unidos, o Brasil de Sócrates e Zico havia sido eliminado nas quartas de final da Copa do Mundo do México pela seleção de Michel Platini & Cia. nos pênaltis.

Sendo colega de trabalho dos membros da Renault – que à época fornecia motores para a Lotus –, Senna virou alvo de chacota no box. Mas no domingo, deu o troco: embora tenha sofrido um pneu furado no início da prova, o brasileiro superou os franceses Jacques Laffite (Ligier) e Alain Prost (McLaren) e ficou com a vitória nas ruas de Detroit.

Por causa da partida entre Argentina e Inglaterra, válida pelas quartas de final da Copa, esta prova também não foi transmitida na íntegra pela Globo, como você pode reparar no vídeo. Sim, aquela mesma em que Maradona fez um gol de mão e outro driblando toda a defesa adversária.

MÉXICO-1990

Mais uma vez a F1 foi preterida pela Globo em razão da Copa do Mundo (vai, sejamos justos, um motivo nobre) e o público brasileiro não assistiu à vitória de Alain Prost no Hermanos Rodríguez. Houve flashes, no entanto, durante o jogo Alemanha Ocidental x Holanda e as voltas finais foram transmitidas ao vivo.

De qualquer forma, a corrida acabou sendo negativa para o Brasil. Além de assistir à apresentação de gala do arquirrival Prost – que venceu a prova largando do 13º lugar –, o líder do campeonato Senna teve o pneu traseiro furado na 63ª volta e não terminou a corrida. O melhor brasileiro foi Nelson Piquet, em sexto, com a Benetton.

HUNGRIA-1997

Este é um caso menor, mas vale a menção. Por conta da extensão de outro evento esportivo transmitido antes (dá para reparar isso logo no início do vídeo abaixo), a largada do GP da Hungria daquele ano não passou ao vivo em rede nacional.

A prova apareceu nos televisores só a partir da terceira volta, quando a surpreendente Arrows de Damon Hill brigava pela liderança com a Ferrari do arquirrival Michael Schumacher.

No giro 11, Hill passou o alemão, que vinha com problemas no carro, assumindo uma liderança que duraria até a última passagem. Nesse ínterim, Hill chegou a abrir mais de 30 segundos sobre Jacques Villeneuve, segundo colocado, e parecia destinado a dar a primeira vitória à pequenina equipe.

Mas uma falha no acelerador arruinou a tarde mágica do inglês, que foi superado pelo canadense na volta final e teve de amargar um frustrante segundo lugar – ainda assim seu melhor resultado no ano.

BÉLGICA-2004

O emocionante GP da Bélgica – a única prova vencida por Kimi Raikkonen na temporada 2004 e a corrida do heptacampeonato de Michael Schumacher – sequer foi transmitido para o Brasil porque a seleção nacional de vôlei disputava sua primeira final nos Jogos Olímpicos em 12 anos.

Em Atenas, jogando contra a favorita Itália, Giba, Ricardinho & Cia. venceram por 3 sets a 1 e consolidaram uma hegemonia no esporte que trouxe também títulos na Liga Mundial, no Pan-Americano e na Copa do Mundo.

A F1, por sua vez, foi a Spa-Francorchamps e o público do Brasil deixou de assistir à melhor performance de Felipe Massa no esporte até então – o paulista conquistou um quarto lugar para a Sauber – e ao pódio de Rubens Barrichello, da Ferrari, além de, obviamente, ver Schumacher confirmar seu último título.

ESTADOS UNIDOS-2005

A derrota do Brasil para o México na segunda rodada da Copa das Confederações de 2005 escondeu um dos momentos mais melancólicos da história da F1.

Em Indianápolis, apenas Ferrari, Jordan e Minardi largaram no GP dos EUA, nona etapa do campeonato. Os outros times, orientados pela forncedora de pneus Michelin, retiraram seus carros na volta de apresentação.

O público não perdoou. Mais de 100 mil torcedores vaiaram os carros da Bridgestone, com polegares para baixo, e arremessaram latas de cerveja e garrafas de plástico no asfalto. Um episódio que acabou por manchar a imagem do esporte (já pouco popular) no maior país da América do Norte.

No Brasil, a primeira parte do evento e a chegada foram exibidas ao vivo. Durante o jogo da seleção, houve apenas flashes da corrida.

ESPANHA-2007

Nem sempre a F1 perde espaço na tevê por causa do futebol. Em 2007, o Papa Bento 16 visitou o Brasil pela primeira vez e, num país majoritariamente católico, o esporte a motor ficou em segundo plano. A corrida foi transmitida ao vivo durante a primeira hora e, depois, passou a uma janela no canto da tela.

Na Catalunha, Felipe Massa, da Ferrari, conquistou sua quarta vitória na F1 em manobra arriscada na volta de abertura. Na luta pela primeira curva, o brasileiro não deu chance ao vice-líder Fernando Alonso, piloto da McLaren, tomou a ponta e manteve o traçado. Os dois se tocaram, mas o espanhol perdeu duas posições, enquanto Felipe seguiu seu caminho.

CANADÁ-2011

À exceção do GP do Brasil, a maioria das corridas disputados à tarde por vezes sofrem interrupções por causa do futebol ou da programação rotineira da Globo, como rapidamente discutimos na introdução deste artigo.

Em 2011, não foi diferente. A etapa do Canadá daquele ano até estava na grade para passar na íntegra, mas uma longa interrupção de duas horas na corrida, por conta de uma forte chuva, alterou todos os planos: em vez de continuar com a F1, a emissora cortou o sinal para passar Corinthians x Fluminense, válido pela quarta rodada do Brasileiro.

A emissora manteve o automobilismo só para o estado do Acre, permitindo que apenas aquela população pudesse assistir à brilhante escalada de Jenson Button do 21º e último lugar até a vitória. Ao fim da partida, as últimas voltas, incluindo a escapada de Sebastian Vettel na passagem derradeira, que confirmou o triunfo do piloto da McLaren, foram transmitidas ao vivo a todo o Brasil.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Frank Rock

    até que enfim o Acre se deu bem uma vez