As quatro corridas que Ayrton Senna não venceu em Mônaco

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A relação de Ayrton Senna com o GP de Mônaco sempre foi muito especial dentro da F1. Foi lá que ele deu o seu primeiro “show” e, quando passou a andar em carros competitivos, praticamente dominou a prova, se tornando o recordista de vitórias da corrida mais charmosa do Mundial.

O brasileiro largou em Monte Carlo em 10 oportunidades e venceu seis vezes. A primeira delas, em 1987, está completando 30 anos justamente neste 31 de maio. Como aparentemente receber a taça do príncipe era a rotina dele no principado, resolvemos aqui no Projeto Motor atender a sugestão do leitor Waldez Amorim e relembrar as quatro provas que ele passou em branco por lá, o que seriam as exceções, neste caso.

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E olha que você vai ver que os seis triunfos poderiam ser até mais se fosse um pouquinho mais de sorte aqui ou ali, além da famosa barbeiragem em 88. Vamos lá, então, em ordem cronológica:

1984
Grid: 13º
Final: 2º

Apesar de não ter vencido o GP de Mônaco de 1984, a corrida é uma das mais famosas do currículo de Senna. Todo mundo, mesmo quem não viveu a época – e alguns até que nunca assistiram à corrida inteira nem mesmo em VT – relembram o show do novato da Toleman.

Senna, no famoso GP de Mônaco de 1984, com sua Toleman
Senna, no famoso GP de Mônaco de 1984, com sua Toleman

A edição foi um verdadeiro caos e aconteceu debaixo de muita chuva. Uma tempestade que certamente nos dias de hoje causaria adiamento por algumas horas, entradas de safety car e provavelmente também seria encerrada com bandeira vermelha.

Senna largou na 13º colocação. Logo na largada, um acidente na primeira curva já tirou alguns concorrentes da frente: as Renaults de Derek Warwick e Patrick Tambay e a Ligier de Andrea de Cesaris. Senna fechou a volta inicial em nono e não parou de subir, se aproveitando de novos erros de adversários, além de completar manobras extremamente ousadas para as condições da pista.

Na 19º volta, ele realizou uma ultrapassagem que ficaria bastante marcada na história, sobre a McLaren Niki Lauda no final da reta dos boxes, por fora, para assumir a segunda posição. Naquele momento, ele estava a 34 segundos do líder, Alain Prost, e passou a diminuir de maneira feroz a desvantagem.

A diferença entre os dois caiu para sete segundos no giro 31, apenas 13 depois do começo da perseguição. Mas, naquele exato momento, a chuva, que já era intensa desde a largada, aumentou ainda mais e o diretor da prova, o ex-piloto Jacky Ickx, resolveu interromper a corrida com bandeira vermelha. Prost ficou com a vitória e Senna, com o segundo lugar.

A decisão do belga é muitas vezes questionada por fãs. Em 2014, em entrevista ao portal brasileiro UOL, ele explicou que pensou apenas na segurança dos pilotos, ainda em uma época em que as corridas eram permitidas em situações extremas:

“Como diretor da corrida, o ponto era não vê-los acabar no guard-rail, não se ferir, o ponto era sua sobrevivência. A única coisa que você tem de ler é que, pela primeira vez na história, alguém se preocupou em tomar uma decisão que inaugurou uma nova era. Desejar saber apenas quem seria o vencedor do GP representaria ter uma visão muito estreita. A vida de um piloto teria de ser mais longa, o que não era o caso até então. Em Mônaco, em 1984, pela primeira vez o diretor teve a coragem de acabar uma corrida antes do fim por causa de as condições não serem apropriadas, mas perigosas para todos.”

Muitos gostam de lembrar também que apenas metade dos pontos foram somados aos pilotos no campeonato porque a prova não teve pelo menos três quartos de suas voltas completadas e que Prost perdeu o título naquela temporada por apenas 0,5 ponto para Lauda. O seis pontos completos do segundo no lugar dos 4,5 (metade do vencedor na época) bastariam.

1985
Grid: 1º
Final: abandono na 13º volta (motor)

Senna voltava ao palco de sua primeira grande demonstração de talento na F1, agora na Lotus e já com sua primeira vitória, em Estoril, semanas antes, no currículo. E pela terceira vez naquela temporada em quatro etapas, ele conquistava a pole position.

Senna, com sua Lotus-Renault, no GP de Mônaco de 1985
Senna, com sua Lotus-Renault, no GP de Mônaco de 1985

Na classificação, o brasileiro se envolveu em grande polêmica. Logo após marcar o melhor tempo, ele permaneceu na pista nos minutos finais atrapalhando os outros pilotos que ainda tentavam melhorar suas marcas. Alguns como Lauda, Alboreto e Rosberg ficaram furiosos e chegaram a discutir com o piloto da Lotus após a sessão.

No domingo, em condições de pista seca, Senna pulou na ponta na largada e passou a comandar a corrida, abrindo quatro segundos de vantagem para o seu perseguidor mais próximo, Michele Alboreto, da Ferrari.

Parecia que ele poderia seguir para uma corrida tranquila quando o motor Renault de sua Lotus o deixou na mão e quebrou na 13ª volta. A vitória, mais uma vez, ficou com Prost.

1986
Grid: 3º
Final: 3º

Senna ficou com a terceira posição do grid com sua Lotus-Renault atrás do pole Prost, da McLaren, e Mansell, da Williams. Os três terminaram a classificação separados por 0s5, enquanto o quarto colocado, Alboreto, da Ferrari, já pareceu 1s2 atrás do primeiro.

Na largada, o brasileiro deixou Mansell para trás e assumiu a segunda posição, logo atrás de Prost. O francês, com carro melhor equilibrado e em dia inspirado, conseguiu abrir uma boa margem na frente, que chegou a 10s4.

Após os pitstops, Senna perdeu a segunda posição para a outra McLaren, de Keke Rosberg, que completou a dobradinha da equipe de Woking na prova, que teve pelo terceiro ano consecutivo Prost como vencedor. Senna voltou ao pódio de Monte Carlo, desta vez em terceiro.

Pódio do GP de Mônaco de 1986 com Senna (3º), Prost (1º) e Rosberg (2º)
Pódio do GP de Mônaco de 1986 com Senna (3º), Prost (1º) e Rosberg (2º)

1988
Grid: 1º
Final: abandono na 66ª volta (batida)

Com certeza o GP de Mônaco mais dolorido para Senna e provavelmente um dos erros que mais marcaram a carreira do piloto.

O brasileiro fazia sua primeira temporada na McLaren. O conjunto da equipe inglesa com o motor Honda era disparado o melhor do grid, o que fazia de sua disputa interna com Prost um verdadeiro embate direto pelo título desde a primeira etapa do campeonato.

Depois de duas corridas, cada um tinha vencido uma etapa, e Senna queria mostrar em Monte Carlo uma grande prova de sua habilidade para tentar ganhar espaço e confiança nesta briga. E seu desejo ficou evidente quando na classificação ele conquistou a pole position com incríveis 1s4 de vantagem para o companheiro, segundo do grid.

Senna, no GP de Mônaco de 1988
Senna, no GP de Mônaco de 1988

Senna pulou na ponta e parecia que a vitória era uma questão de tempo para ser consumada diante de sua superioridade durante toda a prova. Para melhorar a situação, o francês perdeu a segunda posição para Gerhard Berger, da Ferrari, na largada e ficou preso atrás do austríaco até a volta 54. Naquele momento, a diferença entre ele e Senna já estava perto dos 55 segundos.

Mesmo sendo praticamente impossível alcançar o brasileiro, Prost, utilizando toda sua experiência, resolveu impor um forte ritmo para tentar ver se Senna se incomodaria e tentaria respondê-lo, apesar da grande vantagem. E deu certo. Entre a volta 56 e 59 os dois começaram a trocar voltas mais rápidas.

A diferença chegou a cair para 46 segundos e depois subiu novamente para o patamar de 55. A equipe McLaren já pedia no rádio para que Senna aproveitasse a sua grande margem para administrar a liderança e não correr riscos. Foi quando na volta 67, a 11 do final, o brasileiro cometeu um erro sozinho e bateu seu MP4-4 no guard-rail na saída da curva Portier, que leva para o túnel.

Prost ficou mais uma vez com a vitória e Senna saiu tão irritado que nem mesmo voltou aos boxes, indo direto para seu apartamento em Monte Carlo.

Aprendizado ou não, depois do acidente Senna nunca mais saiu derrotado de Mônaco.

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Timothy Dalthonic 3.0

    É, em 88 Senna caiu na armadilha do profexô (não estou criticando).

  • Thiago José Silva de Carvalho

    Eu acho que seis vitórias foi o número adequado. Digo isto porque ele poderia ter vencido em 84, 85 e 88, porém em suas vitórias de 87 e principalmente 92 e 93 contou com muita sorte, que sempre acompanha os grandes. Em 87 Mansell abandonou. Em 92, como de costume, Mansell estava disparado e teve um furo, acompanhado de um pit stop bizarro da Williams (pelo que lembro era algo comum). E em 93 Prost, que tinha tudo pra ganhar, queimou a largada e Schumacher, que havia herdado a primeira posição, tava tranquilo e tinha ritmo imensamente superior ao de Senna terminou quebrando, dando de bandeja a vitória para Ayrton. Então acho que seis foi o justo.

  • Luigi G. Peceguini

    “Logo após marcar o melhor tempo, ele permaneceu na pista nos minutos finais atrapalhando os outros pilotos que ainda tentavam melhorar suas marcas.”.
    Aí se o Schumacher atrapalha um vai pro fundo do grid. E depois dizem que a direção de prova é justa.

    • Timothy Dalthonic 3.0

      Schumacher simplesmente estacionou o carro.
      E não vi imagens do Senna para poder opinar.

      • Mas deu no mesmo, né?

        • Timothy Dalthonic 3.0

          Como eu disse, não vi as imagens do Senna.

  • Leandro Farias

    “Como diretor da corrida, o ponto era não vê-los acabar no guard-rail, não se ferir, o ponto era sua sobrevivência. A única coisa que você tem de ler é que, pela primeira vez na história, alguém se preocupou em tomar uma decisão que inaugurou uma nova era. Desejar saber apenas quem seria o vencedor do GP representaria ter uma visão muito estreita. A vida de um piloto teria de ser mais longa, o que não era o caso até então. Em Mônaco, em 1984, pela primeira vez o diretor teve a coragem de acabar uma corrida antes do fim por causa de as condições não serem apropriadas, mas perigosas para todos.”

    Pois é, nego não pensou que podia ter acontecido com o Senna um desastre com ele igual com Gilles Villeneuve por volta de dois anos antes.

    Ele pode ter evitado que o “Senna bateu forte” viesse com quase 10 anos de antecedência.

  • Marco Borges

    “1989
    Grid: 1º
    Final: abandono na 66ª volta (batida)”

    Não querendo ser chato, mas aqui seria 1988 :)

    • Ops, verdade! Foi um pequeno erro de digitação que já corrigimos. Obrigado pelo toque! Abraços