As teorias sobre a morte de Senna nas quais você não deve acreditar

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A trágica morte de Ayrton Senna, em 1º de maio de 1994, representou um dos maiores momentos de comoção popular da história recente do Brasil. Afinal, tratou-se da morte de um dos principais esportistas do planeta, transmitida ao vivo, quando este ainda estava em seu auge e gozava de plena saúde.

O público custou a acreditar na partida repentina de seu compatriota ilustre, e o funeral de Senna teve as devidas honras, semelhante ao que acontece com a perda de um Chefe de Estado.

Todos os acontecimentos daquele fim de semana em Ímola mexem até hoje com o imaginário do público. Como que o principal piloto do mundo, a bordo da equipe que vinha dominando a F1, perde sua vida assim, de maneira tão trágica?

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Senna perdeu o controle de sua Williams pouco antes da curva Tamburello, feita de pé embaixo. A causa do acidente mais aceita, inclusive pela justiça italiana, é de que houve uma quebra na barra de direção, o que impediu o brasileiro de esterçar o carro. A Williams, em contrapartida, defendeu que o problema foi na parte traseira, possivelmente com um pneu. O impacto contra o muro arremessou a suspensão à cabeça do piloto e causou múltiplas e irreversíveis lesões.

Senna 2

Porém, como acontece em todo evento de enormes proporções, muitas teorias da conspiração surgiram por aí. O ser humano possui um inocente fascínio pela sensação de que detém as informações que o “mundo não quer que ele saiba”. A impressão de que todos são manipulados, exceto ele, o torna especial.

Mas não estamos falando de um assunto corriqueiro, como a possibilidade de a Seleção Brasileira ter vendido o jogo para a França na final da Copa de 98. Estamos falando da trágica morte de um ser humano, que devastou sua família e amigos próximos e foi alvo de extensas investigações da justiça. É algo bastante sério, em que qualquer especulação maldosa ou irresponsável se torna um ato de desrespeito aos envolvidos.

Por isso, o Projeto Motor vai listar abaixo algumas das teorias mais esdrúxulas sobre a morte de Senna que rolam pela internet, para contrapor qualquer possível conspiracionista de plantão. Além disso, vai auxiliar a você, amigo leitor, a já se preparar para lidar com aquele amigo ou parente que possa te abordar sobre o assunto neste 1º de maio. Confira abaixo:

TEORIA 1: Senna foi vítima de sabotagem

Senna 6

Quando Senna anunciou sua mudança para a Williams, criou-se a expectativa de um verdadeiro massacre em 1994. Afinal, tratava-se de do melhor piloto do mundo, a bordo da melhor equipe do mundo, tendo como principal concorrente um jovem Michael Schumacher em uma Benetton ainda em ascensão.

A teoria 1 diz, então, que FIA ordenou a Williams a sabotar o carro de Senna para deixar o campeonato de 94 mais imprevisível. A intenção era que o FW16 do brasileiro quebrasse no miolo do circuito de Ímola, mas o safety car das primeiras voltas teria atrapalhado os cálculos, de modo que o carro falhou na Tamburello.

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Teorias assim ignoram o fato de que uma conspiração desta grandeza exige uma mentira muito bem arquitetada entre inúmeras pessoas, já que todas precisam ter o discurso alinhado e nunca colocarem a boca no trombone. Isso sem contar que todas as minúcias técnicas precisariam passar incólumes na investigação da justiça italiana. Mesmo assim, esta teoria frequentemente é citada em redes sociais.

TEORIA 2: Senna foi assassinado com um tiro

Esta teoria se propagou com tanta força nas redes sociais no ano passado que desmenti-la virou caso de utilidade pública. Um vídeo recebeu milhares de compartilhamentos e cerca de 300 mil visualizações no YouTube com o mote de que Senna, na verdade, foi vítima de um “crime perfeito”.

Senna 3

Resumindo o vídeo em poucas linhas: Senna não tentou frear antes do acidente e sua cabeça pendia para a esquerda, o que era claramente um sinal de que e o piloto estava inconsciente já antes do impacto. Além disso, o vídeo aponta para uma suposta fumaça branca por trás da barreira de pneus do circuito, o que, aliado ao buraco presente no capacete de Senna, indicava que o tricampeão recebeu um tiro certeiro na cabeça. Quem o matou e por quê? Não é mencionado.

Para começar, o vídeo parte de uma permissa falsa: de acordo com a telemetria, Senna freou, sim, antes do impacto, o que fez com que sua velocidade baixasse de 306 para 216 km/h. Porém, alguns outros apontamentos básicos desmentem essa teoria absurda:

1: Se Senna estivesse inconsciente antes da batida, sua cabeça cairia para o lado oposto da curva, no caso, o direito. Jogar a cabeça para a esquerda na Tamburello mostrava que Senna fazia um esforço tremendo. Pura questão de física; 2: Os fiscais de pista provavelmente veriam um cidadão entrar armado e posicionar seu rifle na área de escape; 3: Nem mesmo um sniper do mais alto escalão acertaria um piloto, justamente no ponto mais frágil do capacete, a 300 e tantos km/h; 4: Dezenas de médicos, enfermeiros e legistas precisariam adulterar documentos oficiais e ignorar um ferimento à bala. Como dissemos acima, uma mentira que envolve tanta gente uma hora ou outra é desvendada.

TEORIA 3: Senna sofreu um mal súbito antes do acidente

A terceira tese se apoia nas mesmas “evidências” (e comete os mesmos erros) da teoria acima: Senna deitou a cabeça na curva e não freou porque já estava inconsciente, possivelmente por ter sofrido um desmaio ou um colapso como um infarto.

Já listamos as evidências que mostram que Senna estava consciente antes do impacto, como, por exemplo, o movimento de sua cabeça. Já a telemetria mostrou que o piloto, após perceber que perdeu o controle do carro, tirou o pé do acelerador e pisou no freio bruscamente. Caso o competidor tivesse perdido seus sentidos, suas duas pernas estariam “relaxadas”, e tanto o acelerador quanto o freio seriam pressionados de maneira leve. Foi o que aconteceu com Felipe Massa no episódio da “molada”:

Além disso, a autópsia do piloto descartou qualquer tipo de falha em algum órgão vital além do cérebro. Ou seja, não houve evidência alguma que apontasse para um problema cardíaco.

TEORIA 4: Senna cometeu suicídio

Ayrton Senna

Esta teoria diz que Senna estava totalmente desmotivado na F1, e, após viver problemas pessoais na manhã da corrida em Ímola, decidiu tirar sua própria vida em plena pista. Tudo porque o brasileiro queria sair de cena em alta, como a verdadeira lenda que tanto almejou ser.

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Não vamos nem entrar no mérito das polêmicas pessoais supostamente vividas por Senna, que teriam relação com seu relacionamento amoroso com Adriane Galisteu. A questão que fica é: como que seria possível premeditar um acidente fatal? Afinal, os relatos da perícia indicam que Senna morreu por uma infelicidade imensa, já que a suspensão atingiu justamente o ponto mais frágil do capacete. Se a peça atingisse milímetros acima de onde realmente atingiu, Senna deixaria o carro grogue, mas vivo. Ou seja, na teoria, a chance de Senna sobreviver ao acidente era muito maior do que a possibilidade de haver algo grave.

Além de todos os “poréns” já citados, a teoria comete o mesmo pecado daquela que mencionamos logo acima: ignora que Senna tentou evitar desesperadamente o acidente com uma freada forte antes de chegar à Tamburello.

TEORIA 5: Senna não morreu

Senna 5

Como mencionamos acima, a morte de Senna é um assunto trágico e que deve ser levado com muita seriedade. Porém, é inevitável que essa teoria específica provoque risos, pois se trata de algo especialmente absurdo.

Ela diz: Senna ficou transtornado com a morte de Roland Ratzenberger no sábado, na sessão classificatória em Ímola. Assim, o brasileiro se recusou largar na prova do domingo, mas a Williams, pressionada por patrocinadores, não poderia dizer que não contaria com a participação de Senna.

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A equipe, então, providenciou um sósia (!) do tricampeão, que deveria encostar o carro logo depois da largada alegando problemas mecânicos. O dublê, contudo, não deu conta do recado, perdeu o controle do carro e sofreu um acidente fatal.

Diante de sua “morte”, Senna foi obrigado a sumir do mapa: mudou-se para a Oceania, fez cirurgias plásticas e alterou seu nome. Ainda apaixonado por automobilismo, ele ainda teria disputado provas locais até os anos 2000, obviamente sem revelar sua verdadeira identidade. É rir para não chorar.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.