Alberto Ascari, o ás dos anos 50 marcado pela superstição

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Na F1 moderna, Alberto Ascari, o último campeão da Itália no esporte até hoje, seria uma piada. De queixo duplo e alguns quilos sobressalentes, o suficiente para receber o apelido de Ciccio (“gordinho”), sua aparência lembrava mais a de um pizzaiolo de Gênova que um piloto de monopostos – claro, comparando com os parâmetros de hoje, em que a maioria dos volantes bravateia um físico de triatleta. Nos anos 50, entretanto, o mundo e a F1 eram diferentes e Ascari foi ídolo não apenas na modalidade como na Itália inteira.

Filho de Antonio Ascari, um dos primeiros ases na história do automobilismo, Ciccio venceu o Mundial duas vezes e sustenta até hoje o recorde de vitórias consecutivas na F1: nove, entre os GPs da Bélgica de 1952 e 1953. Um feito que seria igualado apenas por Sebastian Vettel, 60 anos depois.

Em 1952, o primeiro dos dois títulos mundiais que assegurou a bordo da Ferrari, Ascari venceu todas as corridas, à exceção da primeira. No ano seguinte, contra Nino Farina – único piloto a bater Juan Manuel Fangio na história –, triunfou em cinco das oito provas que participou. No total, foram 32 provas disputadas e 13 vitórias entre 1950 e 1955, um assombroso aproveitamento de 40% na competição, o segundo melhor da história.

Enzo Ferrari definiu assim o estilo de pilotagem do ex-empregado.

“Ascari tinha uma condução distinta e precisa, mas ele também era um homem que precisava liderar desde o início. Nessa posição, era muito difícil de ultrapassá-lo, quase impossível.”

Ascari com a Ferrari 500 em Nürburgring, 1952 (Foto: Divulgação)
Ascari com a Ferrari 500 em Nürburgring, 1952 (Foto: Divulgação)

Ascari nasceu em 13 de julho de 1918, em Milão. Ainda na infância, seu pai se estabeleceu como um dos principais volantes no circuito europeu, constantemente um vencedor pela Alfa Romeo. No GP da França de 1925, contudo, Antonio sofreu um acidente fatal, deixando Alberto sem muitas perspectivas para o futuro. Talvez por conta disso, Ascari, o filho, primeiramente optou pelo motociclismo antes de migrar para os monopostos.

A bordo de um Auto Avio Construzioni – carro construído por Enzo Ferrari, amigo de Antonio –, Ascari estreou no circuito de GPs em Brescia, em 1940. Veio o início da 2ª Guerra Mundial e o italiano teve que se ausentar das pistas, trabalhando na manutenção e reparação de veículos militares na garagem da família em Milão.

Com o fim da guerra, já casado, com mais de 30 anos, Ascari estava mais inclinado a cuidar da esposa Mietta e dos filhos Patrizia e Antonio. Mas um convite para conduzir uma Maserati independente no GP de San Remo em 1948 o tocou. E já no ano seguinte, o jovem italiano se colocou como um dos principais ases no embrionário grid da F1, guiando pela emergente Scuderia Ferrari.

No primeiro ano da modalidade, Ascari terminou o ano sem vitórias, mas marcou presença no pódio por duas vezes, em Monte Carlo e Monza. Na temporada seguinte, foi vice-campeão, travando uma equilibrada batalha contra Juan Manuel Fangio, da Alfa Romeo, até a última rodada. Vieram então os campeonatos de 1952 e 1953, em que o milanês solidificou sua posição na história da F1.

Junto com o sucesso, porém, vieram os desentendimentos com Ferrari. Duro negociador, o Comendador se negou a aumentar o salário de Ascari para a temporada de 1954. Com isso, Ciccio se mandou para a Lancia, uma fabricante que contratara um projetista histórico, Vittorio Jano, para estabelecer um equipamento de ponta na F1.

Ascari testando o Lancia D50 em fevereiro de 1954 (Foto: Divulgação)
Ascari testando o Lancia D50 em fevereiro de 1954 (Foto: Divulgação)

O primeiro ano foi desastroso. O projeto do carro demorou para se concretizar e a dupla da escuderia, formada por Ascari e o amigo Luigi Villoresi, só pôde estrear na última rodada de 1954, em Pedralbes, na Espanha. Na pista, o modelo D50 se mostrou rápido, porém desequilibrado: o bicampeão fez a pole, mas abandonou na 11ª volta com uma falha na embreagem.

Ainda assim, o ano de 1955 começou promissor. Ascari abandonou na Argentina, mas venceu dois GPs não-válidos para o campeonato, no Parco del Valentino e em Posillipo. A segunda etapa do campeonato, Mônaco, parecia então o ponto de virada para o italiano. Ele se classificou em segundo no grid e tinha a liderança do páreo quando perdeu o controle do carro numa chicane ao sair do túnel. O acidente foi assustador: o D50 virou em 90 graus, escalou a barreira de proteção e afundou nas águas do porto. Surpreendentemente, Ascari emergiu da marina apenas com um nariz quebrado e alguns hematomas.

Ascari e sua icônica camisa azul (Foto: Divulgação)
Ascari e sua icônica camisa azul (Foto: Divulgação)

A mesma sorte, porém, não o acompanhou alguns dias depois. Exatamente 60 anos atrás, no dia 26 de maio de 1955, o italiano foi liberado pela Lancia para testar uma Ferrari 750 como preparação para os 1000 km de Monza. Vestido com calça comprida, casaco esporte e gravata, Ascari emprestou um capacete do colega Eugenio Castellotti e efetuou algumas voltas no carro. Saindo da Curva del Vialone, uma rápida convergência à esquerda, perdeu o controle do automóvel, que rolou duas vezes e o espeliu à pista. O impacto foi suficiente para matar Ascari antes da chegada de qualquer ajuda.

O falecimento do italiano guarda uma semelhança macabra com a do pai: ambos morreram no 26º dia do mês (Antonio em 26 de julho, Alberto em 26 de maio), após uma curva à esquerda. Ambos conquistaram 13 GPs e ambos deixaram uma mulher e dois filhos.

Ascari, curiosamente, também tinha uma superstição: nunca guiava um carro sem sua icônica camisa azul claro e um capacete da mesma tonalidade. No dia em que se acidentou, nenhum destes apetrechos foi encontrado com ele.

Ficam, entretanto, as lembranças de uma máquina implacável de vitórias. Na verdade, Mike Hawthorn, campeão de 1958, foi quem melhor destacou o estilo do rechonchudo milanês.

“Ascari foi o piloto mais rápido que eu vi. Isso inclui Fangio.”

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.