Ataque a Wallace reforça necessidade de atos antirracismo no esporte [Atualizado]

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Com o maior engajamento de Lewis Hamilton nas últimas semanas a atos antirracismo após o assassinato de George Floyd por um policial branco nos Estados Unidos, a reação contrária de fãs que acham que o assunto não deve ser misturado com esporte também foi considerável. No último domingo (21), o único piloto negro da Nascar, Bubba Wallace, sofreu um ataque dentro do circuito de Talladega, mostrando que sim, ainda existe muito a se mudar no automobilismo e na socidade, e que a transformação precisa de líderes. [verificar atualização sobre o caso mais abaixo no texto]

Um nó de forca, símbolo racista pela história que remete a um período em que negros eram publicamente enforcados e arrastados pelo pescoço pelas ruas das cidades, foi deixado na garagem de Wallace durante a etapa de Talladega no último domingo. O piloto de 26 anos também tem sido bastante enfático no apoio ao movimento Vidas Negras Importam.

O caso aconteceu em momento em que a categoria ainda realiza eventos com regras de isolamento social, mesmo que cada vez mais flexibilizadas, por conta da pandemia do novo coronavírus. Isso significa muito menos gente no autódromo tanto nas arquibancadas quanto nos boxes. Por isso, o ataque racista a Wallace, além de já ser grave por si só, ainda fica pior, pois ou vem de alguém de dentro da comunidade da Nascar ou representa uma quebra séria de segurança.

Investigação do FBI e postura da Nascar

Assim que foi informada pela descoberta do nó de forca na garagem de Wallace, no domingo, a Nascar afirma ter acionado seus seguranças e reunido “líderes da categoria” para discutir os próximos passos. Em seguida, dirigentes da categoria acionaram o FBI (Departamento Federal de Investigações dos EUA) que enviaram representantes ao local no mesmo dia para iniciar uma investigação. Ainda não se tem novas informações sobre quem pode ter deixado o artefato no local.

“Estamos, como eu disse, nos primeiros estágios da investigação. Vamos continuar informando a imprensa assim que tivermos mais informações. Obviamente isso é um ato muito, muito sério. Damos conta como tal. Vamos fazer tudo em nosso poder para quem cometeu este ato seja levado à justiça e seja descoberto e possamos nos livrar deste tipo de comportamento no nosso esporte”, afirmou o presidente da Nascar, Steve Phelps, em uma teleconferência com a imprensa ainda no domingo.

É importante lembrar que o clima que envolve a Nascar sempre foi questionável quanto ao comportamento racial, principalmente de seus fãs. A categoria parece que finalmente (antes tarde do que nunca) caiu em si e começou a tomar medidas, mesmo que absurdamente atrasadas.

Bandeira dos Confederados em corrida da Nascar

Apenas agora em 2020, em meio aos atos antirracismo pós-assassinato de George Floyd que ecoam principalmente pelos Estados Unidos e Europa, a Nascar resolveu banir de seu ambiente a bandeira dos Confederados, que ainda apareciam com certa frequência nas arquibancadas de seus circuitos. Ela simbolizava os Estados Confederados da América, uma união política dos estados do sul dos EUA que lutaram contra o governo central abolicionista de Abraham Lincoln na Guerra de Secessão, entre 1861 a 1865.

Eles defendiam a manutenção do sistema escravocrata no país. Ou seja, por mais que algumas pessoas digam que ela representa apenas a cultura do sul dos Estados Unidos, a bandeira simboliza o sistema racista e segregador que perdura ainda muitos anos após o fim da escravidão.

“Existirão muitas pessoas bravas que carregam aquelas bandeiras com orgulho, mas é hora de mudar”, declarou Bubba Wallace após a decisão da Nascar, no último dia 11 de junho. “Temos que mudar isso”, seguiu.

Isso tudo acontece após algumas semanas da Nascar ter sido obrigada a lidar com outro caso ligado a racismo, durante um de seus eventos de automobilismo virtual da pandemia. O piloto Kyle Larson utilizou uma palavra considerada absurdamente ofensiva e racista na língua inglesa durante a transmissão ao vivo da corrida e a categoria decidiu suspendê-lo.

Seria apenas o começo. Uma série de patrocinadores retiraram seu apoio a Larson nos dias subsequentes e sua equipe, a Chip Ganassi, o acabou demitindo por conta do caso.

ATUALIZAÇÃO: No final da terça-feira (23), a Nascar emitiu um comunicado afirmando a investigação do FBI chegou à conclusão de que o objeto encontrado no box de Bubba Wallace, na verdade, seria uma corda utilizada para fechar o portão da garagem e estava no local desde o ano passado [outono passado, segundo o texto, que nos Estados Unidos termina em outubro].

No dia 25/06, a Nascar divulgou essa imagem da corda da garagem de Talladega que teria sido confundida por integrantes da equipe de Bubba Wallace com um nó de forca (Foto: Nascar)

Apoio a Wallace

A corrida de Talladega precisou ser adiada por conta da forte chuva no domingo e aconteceu apenas na segunda-feira. Antes da realização da prova, diversos pilotos e integrantes de equipes empurraram o carro de Wallace pelo pit lane para demonstrar apoio ao piloto, que ficou bastante emocionado.

Proprietário da equipe de Wallace, Richard Petty, que aos 82 anos não estava acompanhando as provas da Nascar nos circuitos por ser do grupo de risco do Covid-19, fez questão de ir a Talladega para estar presente à cerimônia e mostrar apoio ao piloto. A Nascar ainda pintou no gramado central do circuito a hastag #IStandWithBubba (#EuapoioBubba, em tradução livre).

“Tem sido difícil. Tem sido um inferno. Eu não diria um inferno. Foi apenas turbulento, você sabe, carregando esse peso, carregando esse fardo”, disse Wallace em entrevista à Fox Sports americana, após a corrida na segunda-feira. “O esporte está mudando”, continuou, ao apontar para alguns fãs que puderam estar nas arquibancadas do circuito e lhe mostraram apoio. A flexibilização da Nascar para Talladega permitiu cinco mil pessoas no autódromo.

Lewis Hamilton em manifestação

No mesmo domingo em que Bubba Wallace sofria o terrível ataque racista na Nascar, Lewis Hamilton, único negro a competir na F1 e hexacampeão mundial, esteve em uma manifestação nas ruas de Londres em apoio ao Vidas Negras Importas.

Para variar, críticas surgiram nas redes sociais pelo fato do piloto estar se expondo no caso e de ter ido a uma aglomeração menos de 15 dias antes da retomada das atividades da F1, no GP da Áustria, no dia 03/08. Claro que os críticos não conseguem entender a importância da liderança e publicidade que um nome do esporte como Hamilton dá ao movimento. Além, claro, do fato do momento ser muito mais importante do que uma corrida de carros.

“Fui ao Hyde Park hoje para o protesto pacífico e estou orgulhoso de ver pessoalmente tantas pessoas de todas as raças e origens apoiando o movimento. Estava orgulhoso de estar lá reconhecendo e apoiando o movimento Vidas Negras Importam, e minha herança negra. Estou contente de ver pessoas de todas as idades, carregando cartazes do Vidas Negras Importam e dizendo de forma tão apaixonada como eu estava. Estava contente em ver muitos apoiadores brancos lá hoje em nome da igualdade para todos. Estava realmente acontecendo. Estou me sentindo extremamente positivo de que a mudança virá, mas não podemos parar agora. Continue em frente.”


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.