Até quando ficaremos sem notícias sobre a real condição de Schumacher?

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No dia 29 de dezembro de 2013, Michael Schumacher sofreu um grave acidente durante um passeio de esqui nos Alpes Franceses. O heptacampeão praticava fora da pista quando deslizou numa pedra oculta pela neve e bateu em outra. O resultado do incidente foi um grave traumatismo craniano, que obrigou os médicos a manterem o alemão em coma induzido por quase seis meses.

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Schumacher deixou o Centro Hospitalar Universitário de Grenoble em 16 de junho de 2014. E sua condição ainda é um mistério. Sabemos que o alemão se recupera numa mansão em frente ao lago Léman, que ainda não pode falar e andar e que suas chances de recuperação são ínfimas. Mas estas são informações imprecisas, divulgadas aqui e acolá por um ou outro veículo europeu ou uma fonte que teve acesso a alguém próximo ao piloto. Essa ausência de referências é resultado de um blecaute midiático solicitado pela esposa do heptacampeão, Corinna. De qualquer forma, seria esse esforço salutar?

Totalmente, de acordo com a porta-voz do ex-piloto, Sabine Kehm. Ela falou sobre a questão em uma entrevista ao semanário germânico, “Der Spiegel”:

“Michael sempre pôs regras rigorosas quando trabalhamos juntos. Ele manteve seu trabalho estritamente separado de sua vida privada e nunca desviou disso. Nunca houve uma ‘história caseira’ e nenhum jornalista teve acesso ao seu número de telefone.”

Tudo bem, é compreensível que, num momento instável como esse, o alemão quisesse que as coisas não extrapolassem o âmbito privado. Toda pessoa, mesmo sendo “pública”, necessita de resguardo em sua vida particular, um mandamento que, diga-se de passagem, é defendido de forma inexorável pelo comitê do Projeto Motor – você nunca vai nos ver falando sobre o que os pilotos fazem em suas casas e no âmbito pessoal.

Sabine Kehm, porta-voz do piloto alemão (Divulgação)
Sabine Kehm, porta-voz do piloto alemão (Divulgação)

No que se refere ao acidente de Schumacher, contudo, há uma névoa em torno do incidente inteiro: não há uma mísera informação segura do que aconteceu com o ex-piloto. Não há depoimentos da família, não há dados de laudo médico, e o que mais intriga, não há fotos. Por conta disso, cabe questionar se não seria melhor a família abrir o jogo. Sim, contar o que realmente aconteceu, informar as reais condições do heptacampeão. Se o desejo dos parentes é evitar que os tabloides – em especial os ingleses – produzam histórias sensacionalistas acerca do heptacampeão, que se engajasse numa transparência com a imprensa dita “séria”. Afinal, estamos falando sobre um volante lendário, que possui o maior número de títulos, vitórias, enfim, recordes imagináveis na F1.

Um exemplo de ruído de informação ocorreu quando a revista italiana “Autosprint” divulgou que Schumacher não pode falar, mas está consciente e se comunica com os olhos. De acordo com a publicação, o heptacampeão também chora ao identificar as vozes de parentes. A informação não foi negada nem confirmada pela família ou por Kehm.

Em 2015, também surgiram rumores na imprensa britânica de que Corinna pretende vender bens da família para pagar as faturas médicas do heptacampeão. De acordo com o “Daily Mirror”, a esposa de Schumacher já negociou o jato do casal, avaliado em 34 milhões de euros (R$ 119 milhões), e uma propriedade na Noruega. De novo, nenhuma confirmação ou negação vinda da porta-voz ou da família sobre tal referência. Ou seja, estamos no escuro.

Talvez a informação mais precisa acerca da situação tenha vindo em 2016, por parte da equipe de Schumacher. Em processo contra uma revista que havia publicado que o alemão conseguia caminhar sozinho, o advogado do ex-piloto, Felix Damm, desmentiu a informação, detalhando que, àquela altura, ele não podia se locomover, nem se sustentar de pé sem auxílio.

O processo foi motivado, segundo a porta-voz de Schumacher, para “proteger a privacidade da família” e “evitar dar falsas esperanças” aos envolvidos.

Corinna, mulher de Schumacher (Divulgação)
Corinna, mulher de Schumacher (Divulgação)

Kehm informou que a recuperação de Schumacher “vai ser um processo demorado”. Nada mais do que todos nós já sabemos. E é isso que preocupa: quanto maior a couraça sobre o episódio do heptacampeão, maior a abertura para especulações, cada vez mais apocalípticas.

Uma opinião veraz, vinda do ex-médico da F1, Gary Harstein, indica que a família esteja escondendo o jogo por medo da opinião pública. Segundo Harstein, os traços são de que a saúde de Schumacher não melhore (ele vai além disso, você pode ler esse artigo em inglês aqui), o que abriria espaço para mais polêmicas sobre o germânico. O resguardo excessivo, portanto, seria justificável.

Ainda assim, dada a gravidade da situação, o caso poderia ser abordado de forma mais transparente. Afinal, queira Corinna ou não, muita gente na estrada do automobilismo deve suas razões de viver a Schumacher. É simples: um press release consciente e tudo estaria esclarecido.

* Artigo originalmente publicado em junho de 2015 e atualizado em 2017

Debate Motor analisa o legado de Michael Schumacher na F1:

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.