Automobilismo já fez parte das Olimpíadas. E com direito a corrida de táxi

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Quando começaram a brotar as primeiras competições com quatro rodas, no fim do século 19, a França era o país que melhor abraçava a ideia do “esporte a motor”. Embora o projeto do motor de combustão tenha sido concebido por um nativo do Alto Reno, Nikolas August Otto, a Alemanha ainda era hostil em relação aos carros, assim como a Grã-Bretanha, hoje dois baluartes do automobilismo no planeta.

Em 1900, portanto, quando Paris sediou a segunda edição dos Jogos Olímpicos, não se estranhou a presença do embrionário esporte no programa, embora boa parte dos pilotos na competição fosse oriunda de cidades francesas – e, consequentemente, os eventos não pudessem ser exatamente chamados de “mundiais”, como nos dias de hoje ou mesmo no regulamento olímpico. Pela única vez na história, o automobilismo fez parte dos Jogos, ainda que como uma modalidade de demonstração e sob certa controvérsia.

Alfred Levegh venceu a prova para voiturettes
Alfred Levegh venceu a prova para voiturettes

À época, como os vencedores da Paris-Toulouse-Paris – principal competição automobilística na Olimpíada de 1900 – receberam prêmios em dinheiro, alguns discutiram o status da modalidade como “olímpica”, já que os pilotos seriam teoricamente profissionais. Além disso, o quarto parágrafo do critério para a aceitação de um evento olímpico aponta que “as provas não podem ser fundamentadas em transporte a motor”, o que por regra proíbe a inclusão do esporte e provavelmente levou os organizadores a considerar o automobilismo como apenas uma modalidade de demonstração.

De qualquer forma, foram organizadas 16 provas para carros e motocicletas, divididas em duas modalidades: baterias disputadas em estradas públicas e segmentadas em estágios, como o moderno rali, com premiação em dinheiro; e corridas de resistência, com medalhas de ouro, prata e bronze como honraria. Entre as categorias, a presença de excentricidades nunca imaginadas em competições atuais como corridas de táxi (em duas classes: movidos a petróleo ou eletricidade), camionetas, vãs e voiturettes (pequenos carros de turismo com dois assentos).

Fundador da Renault venceu principal categoria

Georges Teste: vencedor nas motocicletas
Georges Teste: vencedor nas motocicletas

Como um esporte de demonstração, as competições de automobilismo nos Jogos de 1900 foram organizadas pela ACF (Automobile Clube de France), com pouca intervenção do COI (Comitê Olímpico Internacional). A principal corrida se tratou de um trajeto de ida e volta entre Paris e Toulouse, dividido em três categorias (motocicletas, carros pequenos – voitures – e grandes – voiturettes).

A corrida, disputada entre os dias 25 e 27 de julho, teve a vitória do pioneiro francês Louis Renault – um dos fundadores da montadora homônima – na categoria voitures e do conterrâneo Alfred Velghe – tio de Pierre Levegh, morto nas trágicas 24 Horas de Le Mans de 1955 – na voiturettes. O percurso totalizou 1.347 km, divididos em três estágios: Montgeron-Toulouse, Toulouse-Limoges e Limoges-Montgeron. Setenta e oito pilotos participaram da empreitada, mas 55 largaram e apenas 21 fecharam a prova.

Entre as motocicletas, a vitória ficou com Georges Teste, com uma De Dion. O único não-francês presente no pódio foi o alemão Carl Voight, terceiro colocado na categoria voitures, a bordo de um carro local, o Panhard-Levassor.

Vitórias de Peugeot e Delahaye nas categorias de turismo e de táxis e vãs

As provas para carros de turismo foram disputadas entre 14 e 19 de maio em um circuito de 50 km próximo a Vincennes e divididas em quatro classes – dois, quatro, seis e sete lugares. O regulamento dizia que os automóveis teriam de completar uma volta no circuito pela manhã e duas à tarde, sempre com uma velocidade abaixo de 30 km/h. Os automóveis não poderiam pesar mais do que 400 quilos.

A prova para carros de dois lugares teve o maior número de competidores – 46 –, mas apenas 33 terminaram o percurso. A Peugeot venceu nesta categoria, enquanto a Delahaye (outra grande marca da era pré-F1) ficou com o troféu mais valioso – uma obra de arte e não uma medalha de ouro – na quatro lugares e a Panhard-Levassor na seis lugares. Apenas um veículo participou da competição para carros de sete lugares e nenhuma medalha foi concedida.

Voigt: terceiro lugar na categoria voitures
Voigt: terceiro lugar na categoria voitures

O excêntrico campeonato de táxis e vãs foi disputado entre 6 e 9 de agosto em uma pista de 30 quilômetros próxima a Vincennes, com as provas divididas pelo tipo do automóvel e pela propulsão. Nas provas disputadas por automóveis movidos a gasolina, a Peugeot ficou com a vitória entre os táxis, enquanto a Brohout foi vencedora entre as vãs. Já na competição limitada a veículos elétricos, o parisiense Louis Krieger – o inventor do primeiro carro movido a eletricidade – levou a melhor tanto entre os táxis quanto as vãs. Ao todo, 14 veículos participaram da competição.

O campeonato de resistência para caminhões foi o último a ser disputado, entre 17 e 22 de setembro (para camionetas com capacidade mínima de 100 kg) e 8 e 13 de outubro (para veículos com capacidade mínima de 1.250 kg). Em ambas as baterias, a vitória ficou com a marca De Dion-Bouton.

Houve ainda competições de resistência para motocicletas e voiturettes – na primeira, a vitória ficou com os irmãos franco-russos Werner e, na outra, com um carro da marca Gladiator.

O cancelamento das provas em Roma e a inclusão da motonáutica

Evento de motonáutica nos Jogos de 1908, na ria de Southampton, foi um fracasso
Evento de motonáutica nos Jogos de 1908, na ria de Southampton, foi um fracasso

O automobilismo esteve próximo de ser incluído no programa dos Jogos Olímpicos de 1908 em Roma, mas a erupção do vulcão Vesúvio, dois anos antes, devastou Nápoles, o que forçou os italianos a desviarem as verbas para a reconstrução da cidade. Com isso, em dezembro de 1906, o COI confirmou a transferência da competição para Londres, na Inglaterra.

Após a mudança de local, havia planos de uma corrida em Weybridge, mas em vez disso, organizou-se uma competição, desta forma em caráter oficial, de motonáutica (corridas de barco a motor). A despeito de ter sido a única vez em que um esporte a motor foi oficializado como modalidade olímpica, o evento em geral foi um grande desastre.

A França venceu a classe A após seus únicos rivais, a Grã-Bretanha, encalharem em uma poça de lama e, na B, um dos inscritos afundou e o barco inglês, semi-submerso, reivindicou o ouro. Na classe C, o Sea Dog, um dos participantes teve uma quebra de motor e teve de ser rebocado.

Desta forma, não com surpresa foi a última ocasião em que as Olimpíadas viram um esporte a motor em sua programação.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.