Bernie, o homem que tirou a F1 do amadorismo para torná-la insustentável

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Comumente, há duas formas de se analisar Bernie Ecclestone no comando da F1. Por um lado, a representação de um visionário, um “empreendedor” que saiu do nada e transformou um campeonato antes quase amador em um dos esportes mais lucrativos no globo. Por outro, o tirano que vem alienando as equipes das decisões comerciais e, consequentemente, arremessando a categoria em uma grande espiral autofágica.

Talvez haja um pouco dos dois. De qualquer modo, não há como negar que Bernie, completando 85 anos nesta quarta-feira (28), foi instrumental para o desenvolvimento da F1 como um negócio. Especialmente nos anos 70, em que o domínio na categoria era mais diluído, foi ele que tomou o partido dos times (ironicamente, veja só, dada a realidade de hoje) no confronto contra os organizadores de GPs e a CSI, braço esportivo da FIA. Como proprietário da Brabham, Bernie foi o primeiro a conseguir unificar os interesses das equipes e exigir melhores condições de trabalho na pista, negociando pacotes de premiação e largada e custos de logística.

Ecclestone, na época em que era líder da F1CA (Divulgação)
Ecclestone, na época em que era líder da F1CA (Divulgação)

Um exemplo interessante se deu no GP de Mônaco de 1972, quando Ecclestone & Cia. se revoltaram contra o influente ACM (Automobile Club de Monaco). Na época, a associação permitira, em consenso com as equipes, o aumento de vagas no grid de Monte Carlo para 25. Quando os times chegaram ao Principado, contudo, o presidente da ACM, Michel Boeri, anunciou uma mudança de planos e retomou a ideia de largar apenas com 20 carros. Nos bastidores, a CSI já tentava bloquear a influência de Bernie e a F1CA (Formula One Constructors Association) – leia-se: os construtores da Grã-Bretanha – na organização do esporte por meio de sua histórica ligação com a máxima entidade do automobilismo monegasco.

Ecclestone então se rebelou. E avisou que, se o grid não fosse expandido novamente, as equipes britânicas iriam boicotar o evento – à época realizado ininterruptamente desde 1955. Foi então que entrou em cena o advogado e dono da March, Max Mosley, que aproveitou a proficiência na língua francesa para negociar com a ACM. Seguindo instruções de Bernie, Mosley conseguiu decidir a controvérsia a favor das escuderias. Após o episódio, a CSI se deu conta de que o pequeno homem de Bungay era uma oposição a ser considerada.

Como sabemos hoje, Ecclestone venceu. Na virada dos anos 70 para os anos 80, após uma longa batalha contra a Fisa (descendente da antiga CSI), ele foi o responsável por vender os direitos televisivos da F1, o que transformou uma categoria quase amadora – não foi a única razão, fato, mas entre as principais – em uma das séries mais lucrativas no globo. Ao mesmo tempo, a comissão conferida nas negociações com as emissoras mundo afora garantiu a Bernie uma enorme fortuna – uma das maiores no planeta.

O problema – não para ele, talvez para a categoria – é que Ecclestone confiou no mito do Rei Sol. Lembra do monarca francês, que aclamou a execrável frase, “O Estado sou eu”? Então: Bernie, ao molde dos reis absolutistas, supõe que a história da F1 se confunda com a sua própria trajetória. E nos últimos dias, tem se autoproclamado como uma espécie de “salvador” do esporte.

Ecclestone e Mosley, seu braço-direito durante vários anos na FIA (XPB)
Ecclestone e Mosley, seu braço-direito durante vários anos na FIA (XPB)

O discurso ficou explícito numa entrevista conjunta com Mosley à emissora alemã ZDF, na semana passada. Durante a conversa, Bernie, na ânsia de readmitir os motores V8 na categoria e voltar 80 mil anos atrás na tecnologia do esporte, disse estar disposto a “rasgar o regulamento, reunir pessoas competentes e reescrever o livro de leis da F1”. É uma postura que demonstra bem a personalidade do mandatário: como todo tirano, ele é suficientemente cínico para crer que engana a população. Ou ao menos pensar que uma boa declaração na imprensa é interessante para se autopromover – na cabeça de Ecclestone, provavelmente “é uma questão de promover a F1”.

Aí que entra o ponto negativo de sua administração. Se sobreviver a este século, a F1 precisa de manobras inteligentes e decisivas que sejam impostas por pessoas unicamente motivadas pela preocupação com o futuro do esporte. Não é o caso de Bernie.

Não que o velhote seja um idiota e péssimo administrador. Sua fortuna está aí para provar o contrário. Mas, se, à primeira vista, a categoria chegou ao topo por causa dele, também não se manteve lá primariamente por culpa dele. Isto é: ao mesmo tempo em que alçou o esporte ao estrelato, Ecclestone foi o responsável, por exemplo, por vender os direitos comerciais do campeonato à CVC Capital Partners, uma empresa de capital privado cuja única intenção é tirar altas somas da categoria sem fazer qualquer tipo de investimento significativo em seu futuro. Essa matéria do diário britânico “The Guardian” ilustra bem o cenário distópico em que Bernie meteu o esporte.

Em suma, Ecclestone não é nem salvador, nem opressor. Dos seus impulsos paradoxais, a F1, é verdade, se tornou uma das modalidades mais populares do mundo. Mas talvez seja a hora dele ter mais cuidado com seu espólio. Se não, melhor se retirar – para o bem do esporte.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Junior Burgman

    Realmente falta ao Bernie um pouco de maleabilidade, talvez uma melhoria na distribuição de verbas, “ouvir” os participantes sobre suas demandas, mas essa de ceder o poder, ai não, o grupo de estratégia está aí para provar que esporte não é lugar para democracia, os participantes jamais devem decidir regulamentos, regras, ou os rumos em geral, na F1 cada um só pensa em si, em suas necessidades, e o esporte que se exploda, como já disse, ser um pouco mais maleável, mas deixar Mercedes, Ferrari e companhia decidir as coisas vai levar a F1 pro buraco.