Há 20 anos, bicampeonato comprovava: Schumacher era ‘o cara’ dos anos 90

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No dia 22 de outubro de 1995, Michael Schumacher vencia o GP do Pacífico, no circuito japonês de Aida, e se sagrava, aos 26 anos, nove meses e 19 dias, o bicampeão mais jovem até então de toda a história da F1.

Mais do que coroar uma bela campanha, a conquista deixava claro que o alemão passava a ocupar, de forma isolada e incontestável, a posição de grande referência da categoria, posto que estava vago desde a morte de Ayrton Senna, no ano anterior.

Tal situação não era exatamente uma grande surpresa, já que desde sua estreia na F1, em 1991, Schumacher dava mostras de que se tornaria grande em questão de tempo. Logo em suas primeiras temporadas, o futuro heptacampeão disputava posições de igual para igual com os “figurões” da época, Senna, Alain Prost, Nelson Piquet e Nigel Mansell, mesmo sendo mais jovem e inexperiente.

Ultrapassagem sobre Alesi pela vitória em Nurburgring foi um dos pontos altos da temporada de Schumacher
Ultrapassagem sobre Alesi pela vitória em Nurburgring foi um dos pontos altos da temporada de Schumacher

Teoricamente, 94 seria o ano a alçar Schumacher ao estrelato definitivo. Contudo, a trágica morte de Senna em Ímola mudou os rumos da disputa, o que acabou proporcionando um campeonato turbulento, repleto de mudanças de regulamento, desclassificações e punições. E Schumacher, apesar de apresentar desempenho altamente competitivo durante todo o ano de 94, ainda mostrava lacunas em sua pilotagem, escancaradas em momentos importantes como em Silverstone, Spa e Adelaide.

Em 95, porém, Schumacher teve campanha praticamente impecável, quando soube dosar com maestria a agressividade, inteligência e consistência na pista. Para facilitar a análise, vamos separar alguns aspectos da campanha de 20 anos atrás em tópicos:

O CONJUNTO EM MÃOS

Schumacher permaneceu na Benetton na temporada de defesa do título, com uma mudança importante: ele passava a contar com os potentes motores Renault, iguais aos da rival Williams. Apesar da forte cavalaria, o B195 apresentava um comportamento peculiar, sendo excessivamente arisco, o que o colocava em desvantagem em relação aos estáveis FW17 de Hill e Coulthard.

A difícil dirigibilidade dos carros da Benetton intrigava, mas enaltecia ainda mais o potencial de Schumacher. Gerhard Berger, que teve a oportunidade de guiar o B195 ao fim daquele ano, viveu dias de pesadelo a bordo do carro campeão, com três acidentes em seus três primeiros testes. O modelo, para ele, era quase que inguiável. Em seu livro, o excelente Na Reta de Chegada, o austríaco deu de forma simples e clara suas impressões:

Quando passava em alta velocidade sobre alguma deformação da pista, o carro entrava em “estol”, como um avião que perde subitamente a sustentação aerodinâmica. Se ele pegasse uma ondulação em uma curva de alta velocidade, “chicoteava” subitamente com a traseira. […] E Michael Schumacher possuía um certo sexto sentido que criou um reflexo para a situação: ele contra-esterçava automaticamente pouco antes de pegar uma ondulação – o processo de correção estava programado em seu cérebro. Foi assim que eliminei minhas últimas reservas contra o talento de Schumacher. Qualquer um que conseguisse atingir um controle tão magistral de seu carro, mesmo em situações-limite, era de absoluta primeira classe.

Sendo assim, a Williams largou na frente em 95, com vitórias de Hill na Argentina e San Marino, além de um abandono na abertura do campeonato, no Brasil, quando liderava até sofrer uma falha mecânica. Mas a reação da Benetton veio pouco depois, e Schumacher teve papel fundamental neste processo.

A PILOTAGEM

É importante destacar que Schumacher dominava como poucos o regulamento da época, que permitia reabastecimentos. Assim, o piloto conseguia extrair o máximo de seu conjunto entre as paradas, dividindo o GP em várias “minicorridas” em que poderia acelerar fundo.

Nessas horas, e velocidade e pilotagem refinada de Schumacher faziam a diferença. No vídeo abaixo, a emissora BBC mostra como que Schumacher impunha superioridade avassaladora sobre seu companheiro Johnny Herbert na arisca Benetton. Chega a assustar.

Mas não era só da velocidade que Schumacher dependia em 95. O piloto e a Benetton conseguiam arquitetar e executar as mais diversas estratégias, o que confundia a Williams. Por exemplo, na Espanha e em Mônaco, venceu depois de fazer uma parada a menos no box que Hill. Em outras corridas, fez mais pitstops do que a concorrência imaginava.

CONFIRA TAMBÉM SOBRE A TEMPORADA 1995:
– O dia em que Johnny Herbert exorcizou seus demônios em Silverstone
– Coulthard, o piloto que vencia quando ninguém esperava

No duelo “mano a mano”, Schumacher também sabia se impor sobre Hill, utilizando a agressividade no limite sem forçar a barra, ao contrário do que aconteceu na decisão de 94. Simplificando, a vitória em duelos diretos basicamente colocaram pá de cal nas chances de título do inglês.

Há algumas atuações em especial que são dignas de nota. A começar pelo GP da Bélgica, em que Schumacher largou em 16º e ainda assim conseguiu vencer. Durante a prova, o alemão impressionou o público ao segurar Hill com pneus slick na pista molhada, enquanto que o inglês contava com os compostos apropriados.

Outra prova de gala foi em Nurburgring. Também em condições climáticas traiçoeiras, Schumacher  teve pilotagem impecável, levando a melhor em disputa direta contra o rival na luta pelo título e conquistando a vitória na base do arrojo, com uma bela ultrapassagem por fora sobre Alesi a três voltas para o fim. Estas provas permaneceram como duas de suas mais impressionantes atuações.

NÍVEL DA CONCORRÊNCIA

Se Schumacher havia alcançado status de estrela na F1, é verdade que o mesmo não se aplicava aos seus oponentes. Entre os demais pilotos da grelha, ou havia limitação de talento, ou de equipamento, ou de promessas que ainda estavam “verdes” para mostrar potencial.

Hill, por exemplo, é sabidamente de um nível inferior ao alemão. Em 95, o inglês cometeu vários erros importantes, como nas batidas em Silverstone, Hockenheim, Monza e Nurburgring; além disso, ele ainda foi superado no duelo interno contra Coulthard na reta final da campanha, quando precisava reagir no campeonato para ter chances de título contra Schumacher.

A comparação é mais frequente com Hill pelo equipamento que o inglês tinha à sua disposição, mas a realidade é que o grid como um todo não contava com um nome tão pronto quanto Schumacher. Coulthard reagiu nas provas finais, mas a inexperiência ainda lhe fazia cometer erros medonhos, como a rodada na volta de apresentação na Itália, ou o acidente na entrada dos boxes em Adelaide.

Acidente em Ímola foi um dos poucos erros de Schumacher em 95
Acidente em Ímola foi um dos poucos erros de Schumacher em 95

Jean Alesi fez corridas fortes com a Ferrari, mas consistência ainda era seu calcanhar de aquiles. Berger, já na reta final de sua carreira, também não era o mesmo de antigamente.

O pelotão de 95 ainda contava com outros jovens com certo potencial. Heinz-Harald Frentzen teve boas atuações com a Sauber, mas a falta de referencial interno em um companheiro de equipe ainda gerava dúvidas. Rubens Barrichello viveu ano para esquecer com a Jordan, apesar de algumas corridas fortes e um pódio. O nome emergente mais expressivo era Mika Hakkinen, que extraía o que podia de sua limitada McLaren MP4-10 Mercedes e se apresentava como um nome a se observar para o futuro.

Mas, naquele momento, não tinha para ninguém. A temporada de 95, uma das melhores de toda a carreira de Schumacher, deixava claro que o alemão comandava as ações na F1 no início da segunda metade da década. Depois, como todos sabem, Schumi se mudou para a Ferrari e ficou quatro anos sem título, antes de dar início ao domínio mais acachapante da história da categoria. O jejum entre 96 e 99 não enganou: depois de 95, todos sabiam quem realmente era “o cara” da categoria.

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Frank Rock

    ah, schummy, se tivesse sido mais leal na pista e, segundo alguns, nos bastidores, muito mais gente lembraria de você como o monstro que foi, e não como o “campeão com asterisco” ou o “campeão porque a ferrari era foda”, como a gente vê por aí

    detalhe: não gosto dele neeeem, mas ele é top 5 historico, fazer o que, uai