Bianchi: a estrela que não teve tempo de brilhar na F1

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É normal, em qualquer atividade, que a morte transforme muitas pessoas gênios do dia para a noite, talentos que ninguém tinha notado ou que eram subvalorizados. Este texto, porém, tem a intenção de mostrar que Jules Bianchi, morto na última sexta-feira após nove meses em coma, realmente tinha tudo para se tornar um dos principais nomes da F1 nos próximos anos.

Bianchi era um cara calmo, tranquilo nas entrevistas, e, ao mesmo tempo que jovem, já mostrava certa maturidade tanto fora da pista, como dentro. Em uma geração em que tinha ainda Daniel Ricciardo, Valtteri Bottas e Nico Hulkenberg, provavelmente era um dos mais talentosos, senão o mais promissor deles.

Jules Biamchi, no cockpit de sua Marussia
Jules Biamchi, no cockpit de sua Marussia

Em contrapartida, tinha um lado de não se importar tanto com trabalho físico e não tinha a intenção de se tornar um atleta, como muitos pilotos fazem hoje em dia. No começo de 2014, sofreu um assalto enquanto fumava, o que chamou a atenção da imprensa internacional, desacostumada com pilotos que mantém este hábito.

Isso também mostrava a sua autoconfiança. Era um piloto que acreditava que não precisava do trabalho extra, mas que seu talento natural bastaria para levá-lo ao topo da F1.

Neto de Mauro Bianchi, vitorioso piloto nos GTs, e sobrinho-neto de Lucien Bianchi, piloto que venceu as 24 Horas de Le Mans e teve uma passagem pela F1 no final dos anos 60, o francês fez uma carreira de categorias de base bastante sólida, o que chamou a atenção de pessoas importantes da F1 logo em seu início.

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Em 2007, em seu primeiro ano no automobilismo, já foi campeão da Fórmula Renault Francesa. No ano seguinte, ficou em terceiro na F3 Europeia e levou o Masters na categoria, batendo Nico Hulkenberg. Tudo isso já correndo pela equipe ART, que tem como um dos seus proprietários Nicolas Todt. O francês, assim como fez com Felipe Massa, passou a gerenciar a carreira da jovem promessa.

Jules Bianchi, na F3 Europeia, em 2008
Jules Bianchi, na F3 Europeia, em 2008

A temporada de 2008 foi provavelmente a mais impressionante de sua curta carreira. Bianchi dominou a F3 Europeia, se tornando campeão da série com nove vitórias e 12 pódios em 20 corridas. Seu desempenho chama ainda mais atenção quando vemos que ele teve como companheiro de equipe Valtteri Bottas, hoje candidato à estrela da F1, e que marcou pouco mais da metade dos pontos do francês.

A passagem pela GP2 foi um pouco comprometida pela queda de desempenho da ART na categoria. Mesmo assim, em dois anos de participação, ele terminou com a terceira posição. O mais importante deste período, no entanto, foi sua experiência em testes de pista pela Ferrari, que lhe rendeu um contrato com o time de Maranello como integrante da Academia de Jovens Pilotos.

Bianchi ainda teve uma temporada muito boa em 2012, em que ficou com o vice-campeonato da World Series. Ele perdeu o título para Robin Frijns por apenas quatro pontos, apesar de ter corrido uma rodada dupla a menos. Paralelamente, participou dos treinos de sexta-feira da F1 pela Force India, acumulando mais quilometragem. A Ferrari então o colocou para correr em 2013 e 2014 na pequena Marussia, esperando que ele adquirisse mais experiência.

Jules Bianchi, durante sessão de testes com a Ferrari em Silverstone, em 2014
Jules Bianchi, durante sessão de testes com a Ferrari em Silverstone, em 2014

Ao final de 2014, quando sofreu o acidente que acabou resultando em sua morte, Bianchi já mostrava que estava pronto para o próximo salto. O piloto já era considerado para uma vaga na Ferrari. Se hoje Bottas é o nome mais comentado para um lugar na escuderia em 2016, não há dúvida que o caminho natural levaria Bianchi ao cockpit do time vermelho.

E o que ele poderia fazer? Levar a Marussia a marcar dois pontos na F1 com o nono lugar no GP de Mônaco de 2014 dá o tom da medida. Infelizmente, o acidente em Suzuka não nos deixará saber.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.