Bird Clemente: “Interlagos conta a história do automóvel e automobilismo no Brasil”

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Bird Clemente é um dos nomes mais importantes do automobilismo brasileiro. Competiu e venceu nas mais importantes provas nacionais e se tornou um ícone de nossa história, por suas conquistas, parcerias com grandes nomes e estilo arrojado que encantou várias gerações.

Paulistano, ele começou a pilotar aos 21 anos, em 1958, no começo da fase de ouro do esporte a motor no país. Clemente competiu pela equipe oficial da Vemag e depois, nos anos 60, se transferiu para a Willys, se tornando o primeiro piloto profissional do país, abrindo um novo momento para que outros nomes pudessem seguir uma carreira nas corridas.

Sua pilotagem era agressiva, derrapando com as quatro rodas e fazendo mudanças de marcha no meio da curva, segurando o carro com apenas uma das mãos. Para muitos que o viram correr, ele foi o grande piloto da história do país. Clemente ganhou diversas provas brasileiras, mas claro que Interlagos, por ter sido o primeiro autódromo brasileiro e o palco das corridas mais importantes.

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Com tantas credenciais e história, o Projeto Motor conversou com Clemente sobre os 80 anos de Interlagos, principal palco de sua carreira.

Projeto Motor – O que lhe vem à mente quando falamos de Interlagos?

Bird Clemente – Eu sou a geração que pegou a indústria do automóvel no Brasil, quando começaram as fábricas como Vemag. E as fábricas começaram a participar do automobilismo. Então, eu vivi esse tempo lá. Talvez fui o piloto que mais andou em Interlagos, pois na época tinha as corridas longas e eu fazia todas… 24 horas, 25 Horas, Mil Milhas… Além disso, fizemos o recorde do Gordini, que andou 22 dias.  

Bird Clemente, em Interlagos
Bird Clemente, em Interlagos (Foto: Christian Castanho/Quatro Rodas)

E a para história do automobilismo também é importantíssimo. Todos os pilotos que aqui estiveram, os mais famosos do mundo, manifestaram que Interlagos era um dos melhores circuitos do mundo. E até hoje isso está vivo. E Interlagos contou história também a partir de Chico Landi e tantos outros da turma dele. Para mim isso foi muito forte, pois eu era garoto naquela época.

Interlagos contou a história do automóvel e do automobilismo brasileiro. Assim como a Serra Velha de Santos, o caminho do mar, é o caminho da época imperial que ligava São Paulo a Santos, aquela estrada se tornou um patrimônio histórico. E hoje ela está preservada e é um lugar importante para nossa história. E assim como o caminho para nossa história, Interlagos também deve ser preservado. Deveria ser tombado.

PMotor – Você se lembra da primeira vez que esteve em Interlagos?

Clemente – Eu era criança, com meu pai e meu irmão. Meu pai me levava sempre que tinha alguma coisa importante. Eu via aqueles carrões do Chico Landi e companhia. Eu ficava deslumbrado e nunca poderia imaginar que um dia faria parte daquele elenco, daquela história. É uma coisa muito forte.

PMotor – Qual o momento que você guarda com mais carinho de Interlagos, dentro da pista?

Ah, acho que foi o recorde mundial com o Gordini. Eu, o Moco [José Carlos Pace], Chico Lameirão, Danilo de Lemos, Carol Figueiredo, Wladimir Costa, Luiz Pereira Bueno… Nós ficamos morando em Interlagos por 22 dias. A Willys asfaltou o circuito externo. Tínhamos refeitório, dormitório, sala de lazer… Andamos 51 mil km e batemos o recorde mundial [de resistência]com o Gordini. Foi um período muito importante porque ficamos morando lá 22 dias. É muito importante.

E foi algo importante para nós. Já pensou ficar lá todo este tempo? E eu capotei aquele carro. No meio do recorde eu entrei em um colchão de pedra. Mas conseguimos seguir em frente e cumprimos nossa meta. Esse foi um marco muito importante

PMotor – O evento das Mil Milhas impulsionou bastante o automobilismo brasileiro e o Autódromo de Interlagos a partir dos anos 50. Como era participar daquele momento do automobilismo nacional?

Clemente – Foi um capítulo à parte e muito importante. O Wilson Fittipaldi queria fazer no Brasil uma prova longa. Na época uma das provas mais importantes do mundo era Mille Miglia na Itália. Ele bolou de fazer aqui, mas em circuito fechado. E foi uma loucura colocar 50 carros à noite em Interlagos. Não tinha a estrutura de hoje e não tinha cronometragem eletrônica de hoje. Era tudo no olho, no papel. Tinham dezenas de cronometristas e eles passavam a noite lá.

Chegada em Interlagos de DKW (Foto: Acervo Quatro Rodas)

E o Wilsão [Wilson Fittipaldi, pai de Emerson e Wilson Jr] conseguiu fazer naquela época um evento magnânimo. E custava caro. Ele buscou recursos na indústria de autopeças. No mesmo ano, foi lançado o primeiro carro brasileiro. Então essa indústria financiava todo aquele evento. E eles usavam o automobilismo como uma vitrine para expor, desenvolver e promover os produtos. E aquilo era uma loucura. Interlagos era rústico. Um público de 50 mil pessoas. Virava uma loucura. Era um evento de proporção muito grande.

E para nós, aquilo foi uma maravilha. Eu comecei minha vida nas corridas com as Mil Milhas. Ela promoveu que começasse a correr dinheiro no espaço e aí começaram a surgir os pilotos de carreira. Eu fui o primeiro piloto brasileiro a receber salário. Na Vemag eu não tinha salário, mas tinha carro de frota. Foi o início de tudo. Quando o Christian Heins morreu, a Wyllis para me tirar da Vemag teve que me dar um salário. O Heins era o grande piloto, o ídolo de todos nós. Foi um privilégio muito grande participar disso tudo ativamente.

PMotor – Qual a importância de Interlagos para a cidade de São Paulo?

São Paulo sempre foi o grande centro produtivo do Brasil. E quando a indústria começou, o início foi em São Paulo, com o parque industrial no ABCD. E era o único autódromo que tinha no Brasil. Antes de Interlagos, as corridas eram em estradas, circuitos de rua como o Circuito da Gávea, no Rio. Interlagos se tornou o palco onde se desdobrou a história do automobilismo e do automóvel brasileiro.

Uma pena que com o tempo e os interesses, eles andaram mudando Interlagos, acabaram desvalorizando muito aquele circuito natural. Cortaram a reta longa, a curva 2, criaram o S do Senna, que não tem nem pé nem cabeça. Mas ainda é um grande palco.


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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.