Quatro Rodas

Brasil completa seis anos sem vencer na F1, e jejum deve demorar a acabar

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Seis anos se passaram desde que um piloto brasileiro venceu pela última vez na F1. O incômodo jejum dura desde o GP da Itália de 2009, há 112 corridas, quando Rubens Barrichello superou Jenson Button e Lewis Hamilton para triunfar pela terceira vez em Monza. Já faz tempo, não? Pois se prepare: a expectativa realista é que ainda demore muito para um brasileiro subir novamente no topo do pódio na categoria.

Hoje em dia, o país vive situação um tanto quanto delicada neste sentido. Em curto prazo, as chances basicamente dependem de Felipe Massa. Apesar de fazer temporada bastante competitiva na Williams, o vice-campeão de 2008 não possui em condições normais muitas chances de fazer frente às Mercedes de Lewis Hamilton e Nico Rosberg, nem mesmo à Ferrari de Sebastian Vettel.

Massa ficou perto de vencer em Abu Dhabi-2014 (Glenn Dunbar/LAT Photographic)
Massa ficou perto de vencer em Abu Dhabi-2014 (Glenn Dunbar/LAT Photographic)

Mas mesmo que Massa surpreenda os favoritos e consiga vencer (como quase aconteceu em Abu Dhabi, no ano passado), seria apenas um mero consolo. Aos 34 anos e em uma equipe que ainda luta para se posicionar entre as ponteiras, o brasileiro muito dificilmente conseguiria ir além de conquistar um pódio aqui e acolá, com uma vitória ou outra.

Já o outro brasileiro na F1, Felipe Nasr, ainda tem um longo caminho pela frente antes de pensar em vencer. Apesar de ter causado boa impressão na primeira metade do campeonato, o competidor da Sauber teve uma preocupante queda de rendimento nas provas mais recentes, então, antes de tudo, ele deve ficar atento para não deixar isso manchar sua reputação.

NÃO É A PRIMEIRA VEZ

“Mas um jejum grande não é novidade para os brasileiros na F1”, pode lembrar alguém. Verdade. Entre 1994 e 2000, o Hino Nacional ficou sem ser tocado por 108 GPs, até que Rubens Barrichello venceu uma improvável corrida em Hockenheim.

Vamos comparar, então, o cenário daquela época com o de agora, a começar pela situação do principal piloto brasileiro. Em 2000, Barrichello era relativamente jovem, com 28 anos, e tinha acabado de chegar a uma das equipes mais poderosas da época, a Ferrari. Mesmo que nunca tenha passado perto de ser campeão, Rubinho se manteve por anos como candidato a vitórias, o que resultou em 11 canecos até 2009. Hoje, Massa se encontra mais próximo de seu fim de carreira, apesar de ainda estar fazendo seu papel na pista com bastante eficiência.

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Mas, mais que isso, havia uma diferença grande no cenário das categorias de base. No início da década passada, ainda sob o “Efeito Senna”, havia uma legião brasileira nas principais portas de acesso à F1, como F3000 Internacional, F3000 Europeia e F3 Inglesa. E foi justamente desta geração que saiu Massa, o último brasileiro a se estabilizar na F1.

Único brasileiro na GP2 é o discreto Negrão (GP2/MF2)
Único brasileiro na GP2 é o discreto Negrão (GP2/MF2)

E hoje, como está? Bem, dá quase para contar nos dedos das mãos os pilotos que estão na Europa fazendo carreira. Nas principais categorias formadoras de pilotos, ou seja, que possuem probabilidade maior de revelarem nomes à F1 nos próximos dois ou três anos, há apenas três brasileiros: André Negrão na GP2, Bruno Bonifácio e Pietro Fantin na F-Renault 3.5, sendo que todos eles andam longe das primeiras posições. O mesmo se aplica às categorias inferiores, como F3 Europeia, F-Renault 2.0 ou F4, nas quais os representantes tupiniquins ocupam papéis de coadjuvantes.

MAS ONDE ESTÁ O PROBLEMA?

Esta análise não tem como objetivo criticar o trabalho feito pelos pilotos, pois o problema vai muito além daquilo que os jovens garotos fazem ao volante. O grande xis da questão é a estrutura atual como um todo.

Hoje em dia não há opção eficaz e viável financeiramente para aqueles que acabam de deixar o kart, como era a extinta F-Renault Brasil na década passada, ou a F-Ford em tempos ainda mais distantes. A Fórmula Futuro, concebida de forma louvável por Felipe Massa, acabou não vingando, muito pela falta de apoio da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). Então, os pilotos que deixam o kart e sonham com a F1 ficam com poucas opções.

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Uma delas é permanecer no país, correndo na deprimente F3 Brasil – cuja rodada mais recente, em Campo Grande, registrou um grid de apenas 11 carros. O problema é que o papel da categoria enquanto formadora é altamente questionável, de forma que, assim que o jovem chega à Europa, corre um sério risco de ter um duro choque de realidade em um certame competitivo.

F-Futuro não vingou no Brasil
F-Futuro não vingou no Brasil

A outra opção é iniciar a carreira nos monopostos diretamente na Europa. Mas aí a questão é outra: este passo exige um tempo de adaptação, e são poucos os pilotos com condições financeiras de bancar a carreira e agradar patrocinadores enquanto os resultados ainda não vêm.

Por isso, o que se vê com grande frequência nos últimos anos são pilotos voltando da Europa depois de pouco tempo fora, já que, no Brasil, com uma Stock Car forte e competitiva, existe a possibilidade de manter viva a esperança de seguir carreira profissional no esporte. Este foi o caso de Felipe Fraga, um dos últimos brasileiros realmente promissores que voltaram para casa e, agora, começa a se destacar na Stock.

A falta de categorias de base fortes e acessíveis e uma entidade omissa são alguns dos problemas debatidos há tempos, mas nada foi feito a respeito. Agora, este preço vai começar a ser cobrado na F1, e não há previsão para isso mudar.

Você vê alguma possibilidade de um brasileiro protagonizar a F1 nos próximos anos? Deixe sua opinião no espaço de comentários abaixo!

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.