Buenos Aires: a cidade perfeita para viajar pela história do automobilismo

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Nem mesmo duas décadas de crise econômica foram capazes de tirar de Buenos Aires a aura de cidade mais charmosa da América Latina. Destino certo para quem quer sentir um pouco do gosto de estar na Europa sem precisar passar 10 horas num avião ou calcular as despesas em euros. O relevo plano e as construções antigas convidam a explorar incansavelmente novos cantos.

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Para os fãs de automobilismo, acredite, há um atrativo extra. Em suas entranhas a cidade banhada pelo Río de la Plata guarda pequenos tesouros capazes de encantar os amantes do esporte a motor. Não se podia esperar menos de um povo que ama tanto as corridas a ponto de ter criado sua própria Fórmula 1. Este escriba esteve lá há não muito tempo e cita abaixo alguns passeios relacionados às corridas de automóveis que você não pode deixar de fazer caso vá para o mesmo destino. Confira:

Autódromo Juan y Oscar Gálvez

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Palco de edições espaçadas de GPs da Argentina de F1 entre os anos 50, 60, 70, 80 e 90, o circuito Juan y Oscar Gálvez ainda está ativo, embora um bocado judiado. Todavia, é possível ir até o local num fim de semana para assistir a uma das várias categorias automobilísticas argentinas, como o Super TC 2000 e Turismo Carretera. Não tem corrida? Sem problemas: é possível participar de festivais, exposições, cursos de direção ou até mesmo feirões de vendas de automóveis…

Outro ponto importante é que o autódromo – que, por sinal, passa em volta de um lago -, fica situado numa região repleta de grandes áreas de lazer, como os parques De la Ciudad, Indoamericano e complexo poliesportivo Presidente Julio A. Roca. Apesar de ser uma zona mais afastada do centro, conhecida como Villa Riachuelo, o acesso via metrô ou ônibus é tranquilo. No site oficial constam mais informações sobre a pista. Se quiser detalhes sobre o calendário de eventos, contate a administração pelo e-mail info@autodromoba.com.

Ah, e um aviso: aproveite enquanto a praça ainda existe, pois a verdade é que está sucateada e existe uma forte pressão do setor imobiliária para que seja desativada e se transforme em lotes de condomínios…

Estátuas de Juan Manuel Fangio

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Os argentinos veneram Juan Manuel Fangio de uma maneira talvez até mais reverenciosa do que os brasileiros em relação a Ayrton Senna. Em vários estabelecimentos da cidade é possível encontrar quadros, cartazes e recortes de revistas e jornais mencionando el Maestro. Mas o legal mesmo é conhecer os dois monumentos em memória ao pentacampeão, falecido em 1995.

A segunda estátua
A segunda estátua

O primeiro está sito em uma praça da alameda Azucena Villaflor, logo após cruzar o canal do Río Darsena Sur, na região de Puerto Madero. Trata-se de uma estátua em escala real de Fangio posando ao lado do também icônico Mercedes-Benz W196, carro que o portenho conduziu em dois de seus cinco títulos mundiais: 1954 e 55. Foi inaugurada em 2005, como homenagem aos 10 anos de sua morte, em localização escolhida a dedo: defronte ao prédio da filial argentina da Mercedes, fabricante da qual Fangio se tornou representante de vendas após se aposentar das pistas e que, por sinal, doou a escultura.

Vale lembrar que outros cinco monumentos idênticos a esse foram construídos em Monza, Montmeló, Nürburgring, Stuttgart (a cidade sede da Mercedes) e Monte Carlo. Pena que, no caso de Buenos Aires, a peça tenha sido alvo de pequenos atos de vandalismo.

Já a segunda, também em tamanho natural, mostra o ás sem carro, embora com o traje das corridas da época, acenando  com um tépido sorriso na avenida Intendente Hernán M. Giralt, às margens da Laguna de los Coipos. Ali Fangio não está sozinho: há estátuas de diversos outros esportistas espalhados pela margem oeste do lago, como os tenistas Guillermo Vilas e Gabriela Sabatini (esta sem a raquete, aparentemente roubada…), o jogador de basquete Emanuel Ginóbili e, claro, os craques do futebol Lionel Messi e Diego Maradona.

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Passeio pelo circuito citadino de Palermo

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Caso vá conhecer os bosques de Palermo, uma das áreas mais bonitas e valorizadas da capital portenha, é provável que o douto leitor encontre em algum momento um totem indicando que aquela via faz parte do “Paseo Juan M. Fangio”. Trata-se do traçado original do Circuito de Palermo, pista urbana utilizada para a disputa do GP de Buenos Aires entre os anos de 1948 e 50, além de diversas outras provas automobilísticas locais e continentais.

Como o autódromo Oscar Gálvez ainda não fora inaugurado, era praxe realizar páreos desse calibre em meio às ruas da cidade. Além de Palermo houve edições do GP de Buenos Aires em vias públicas de Costanera Sur (1932 a 36), Retiro (41 a 47) e Costanera Norte (51). Só a partir de 1952 a pista permanente ficou pronta para sediar esse tipo de evento.

Voltando a falar do “Paseo” Fangio, os totens convidam o turista/transeunte a percorrer o traçado de 4.865 metros. As placas exibem fotografias de Fangio acompanhadas de frases históricas, anúncios da época sobre as corridas ou ainda uma lista de volantes que participaram do GP de Buenos Aires, incluindo lendas como Achille Varzi, Alberto Ascari, Jean-Pierre Wimille, Louis Chiron, Luigi Villoresi, Reg Parnell, Prince Bira, Piero Taruffi, Oscar Gálvez, José-Froilán González e até o brasileiro Chico Landi.

Eis o trajeto no mapa do Google
Eis o trajeto no mapa do Google

Nós preparamos um roteiro para que você conheça o percurso no sentido correto (anti-horário**): comece na avenida Presidente Figueroa Alcorta, a reta de chegada, e siga sentido oeste; vire à esquerda na rua Intendente Bunge e depois à direita na Andrés Bello; então à esquerda na avenida Ernesto Tornquist, à esquerda na avenida de los Ombúes e à direita de novo na calle Andrés Bello; cruze a avenida Presidente Figueroa Alcorta e logo tome à esquerda na avenida Dorrego; vá reto até o último retorno e atravesse para a outra pista da avenida, retornando em 180 graus; continue até retornar à Presidente Figueroa Alcorta, pegue à direita e rume de volta ao ponto de partida.

O mais recomendável é fazer o trajeto de bicicleta. Perto da rua Andrés Bello há uma pequena construção envidraçada denominada “boxes”, onde há uma grande pintura feita pelo artista local Don Alfredo de la María, letreiros informativos e pequenas esculturas em homenagem à época. É, sem dúvidas, uma experiência diferente e muito interessante. Fora a incrível paisagem dos bosques e do Lago de Regatas. Quer saber mais? Visite a página oficial do Paseo Fangio no Facebook.

**O pobre escriba escreveu originalmente sentido “horário”, mas só porque é um parlapatão. O sentido correto do traçado é anti-horário.

Encontro com o Bugatti mais vencedor da história

Caminhando pelas vias do recuperado bairro de San Telmo – outrora uma das áreas mais feias e obscuras de Buenos Aires, mas que agora está revitalizada e representa uma das zonas vivas e boêmias da metrópole -, é bem provável que você dê de cara, na avenida Caseros, com um quase impecável Bugatti Type 35C estacionado em frente a um bar chamado Nápoles.

Trata-se “só” do Bugatti de competição mais vencedor da história da marca francesa (e provavelmente da história do automobilismo em geral). Entre 1925 e 31 o Type 35 e suas respectivas derivações foram responsáveis pela conquista de mais de 1.000 triunfos pela Europa, incluindo cinco Targa Florio consecutivas (de 25 a 29) e o campeonato europeu de Grand Épreuves de 1926. Com ele diversos puderam, ainda, conseguiram bater o recorde de diferentes pistas num curtíssimo período de tempo. Impressionante, não?

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Parte de seu segredo estava na utilização de um eficiente motor 2-litros dotado de cabeçote com três válvulas por cilindro, sendo capaz de alcançar até 6 mil rpm. A versão C, especificamente, é uma evolução nascida em 1927 que usava compressor mecânico para alcançar  130 cv de potência (contrariando o desprezo de Ettore Bugatti por propulsores sobrealimentados). Com ele diferentes pilotos venceram encontros como os GPs de França, Pau, Alemanha e Marrocos, e ainda duas Targa Florio.

Ver esta relíquia de perto é algo quase indescritível. Dá para observar com mais esmero detalhes como as bizarras suspensões formadas por feixe de molas, amortecedores de fricção e eixo dianteiro côncavo, ou ainda os freios com cabos expostos, a manivela de ignição e as rodonas de ferro fundido que devem pesar uma tonelada cada. Pena que o habitáculo esteja um pouco sujo e os pneus traseiros, um tanto murchos, mas ainda assim impressiona o estado da carroceria, dos cintos em couro responsáveis por “prender” a tampa do capô e dos revestimentos dos bancos (também em couro).

O Projeto Motor tentou entrar em contato com a administração do Bar Nápoles para conhecer a origem do Type 35C ali exposto (seria uma réplica ou um dos 50 exemplares construídos originalmente?), mas infelizmente não recebeu resposta. Ainda assim, o bólido merece muito ser visto de pertinho, pois proporciona uma agradável viagem no tempo que nos fará, invariavelmente, indagar: “como alguém aceitava arriscar a vida andando no limite com um troço desses?”. São os encantos inexplicáveis deste esporte tão fascinante, que os cidadãos de Buenos Aires sabem explorar como poucos.

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 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Luigi G. Peceguini

    O engraçado é que esse circuito de rua usado em 1948 tem um traçado melhor que as pistas projetadas pelo Tilke.

  • Antonio Manoel

    Excelente artigo, um tanto diferente do que habitualmente vemos por aqui… Seria interessante, se possível ver isso se transformar em uma série, com outros locais com história no automobilismo.
    Sobre o legado automobilístico argentino, é uma pena ver que o autódromo Ruan y Oscar Galvéz seja um exemplo de que na Argentina o valor imobiliário também fale mais alto do que o valor histórico (e turístico) local e também é uma pena ver vandalismo nas estátuas… pelo visto não é só Carlos Drummond que tem um objeto seu roubado com frequência, mas escapando dos apesares, é legal ver o quanto que o automobilismo ainda tenha valor histórico por lá à ponto de serem mantidos e construídos tantos espaços dedicados à isso que preservem a memória e a história dos locais e dos ilustres personagens locais.

  • MPeters

    Ótima matéria. Sobre o Bugatti, não sei se é original ou réplica, mas na Argentina são produzidas as melhores réplicas do Type 35, feitas de maneira fiel ao original.