Calor, praia e testes de pneus: pré-temporadas da F1 no Brasil

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Há algum tempo que a Espanha tem sido a principal sede da pré-temporada da F1. No formato de hoje, organizados, com praticamente todas as equipes participando juntas, cronometragem aberta e restrição em quilometragem, o país ibérico é um dos que mais recebeu a categoria para testes nos últimos 20 anos.

Dá uma inveja em poder acompanhar isso de perto? Na equipe do Projeto Motor, eu (Lucas Santochi) e Bruno Ferreira fomos os que tiveram a oportunidade de cobrir alguma pré-temporada, ambos pelo extinto site Tazio. No meu caso, em 2011, estive durante o mês de fevereiro em Valência, Jerez e Barcelona. E com Fernando Alonso tendo disputado o título do ano anterior até a última etapa, era contagiante ver a animação do público nas arquibancadas, especialmente nas sessões de final de semana. Realmente parecia programação de um GP.

A escolha pela Espanha, como também já aconteceu com Portugal e Bahrein, se dá principalmente pela temperatura. Neste começo de ano, a Europa ainda está enfrentando o inverno. A maioria das equipes com certeza gostaria de testar na Inglaterra, à beira de suas fábricas, mas a neve e o frio normalmente são complicadores. Já tive a oportunidade de estar em Maranello durante o mês de fevereiro também, e a pista de Fiorano estava rodeada de gelo.

Pilotos da Lotus em 1983 e 84, Elio de Angelis e Nigel Mansell conversam com garis de Jacarepaguá
Pilotos da Lotus em 1983 e 84, Elio de Angelis e Nigel Mansell conversam com garis de Jacarepaguá

Em outros tempos, no entanto, nós brasileiros já tivemos a oportunidade de vermos algo parecido graças ao calendário e nosso verão. Entre o final dos anos 70 e começo dos 80, as sessões não eram tão limitadas, e com o Brasil sendo sempre uma das primeiras provas do ano, as fornecedoras de pneus aproveitavam para juntar seus times clientes a realizarem testes focados nos compostos em Interlagos e, depois, Jacarepaguá. Claro que as equipes aproveitavam para verificar algumas novidades, ainda mais em um tempo em que túnel de vento e programas de simulação ainda não estavam ao alcance da maioria.

A ideia era que como a categoria já vinha para América do Sul de qualquer maneira no início do ano, a logística era facilitada e os custos da viagem, minimizados, aproveitando ainda o intenso calor brasileiro para levar pneus e equipamento ao extremo das condições de desgaste.

Na época, os times ainda não tinham a velocidade e eficiência em suas fábricas para receberem informações destas sessões e já produzirem novas peças, como é feito hoje, no período de poucas semanas. O próprio envio de equipamentos não era a coisa mais fácil do mundo. Mesmo assim, era uma forma de iniciar um desenvolvimento para que novidades pudessem começar a ser pensadas para algumas etapas à frente.

Muitas vezes, os carros novos ainda nem estavam prontos. Era normal as equipes começarem o ano com seus equipamentos de uma ou até duas temporadas anteriores, enquanto ainda seguiam em fase de produção na Europa dos modelos. Claro que muitos times faziam algumas sessões privadas ou em pequenos grupos ainda no velho continente para uma primeira checagem de seus equipamentos e contato com os pilotos.

Os treinos fora da programação do GP local aconteciam durante vários dias, com público. Aliás, em uma época em que a profissionalização estava apenas começando na categoria, imprensa e fãs conseguiam um acesso muito maior a carros, pilotos gente em geral do “circo”.

Senna, de Toleman, e Fittipaldi, de Spirit, na pré temporada de 84, no Rio
Senna, de Toleman, e Fittipaldi, de Spirit, na pré temporada de 84, no Rio

Assim, nos anos 80, Jacarepaguá já podia dizer que recebia o clima da F1 de forma antecipada. Em 84, por exemplo, o circuito, hoje extinto, iria abrir a temporada e recebeu 17 pilotos. Em um dos dias, contou com um encontro de um já aposentado Emerson Fittipaldi, avaliando o carro da Spirit, e do novato Ayrton Senna, que fazia sua estreia na Toleman. Nelson Piquet, o outro brasileiro campeão mundial, não participou da sessão. Mais um piloto do país, Roberto Pupo Moreno, que faria sua estreia apenas em 87, também participou, pela Lotus.

Dois anos antes, o autódromo era a segunda etapa do campeonato, após a África do Sul, e, apesar de não receber os testes de pré-temporada, teve quatro pilotos andando por lá antes da prova: Gilles Villeneuve, da Ferrari, Keke Rosberg e Carlos Reutemann, da Williams, e Nelson Piquet, da Brabham. A preocupação, no entanto, mais que os carros, era com o clima de guerra política, com notícias de até um possível cancelamento, após uma greve de pilotos em Kyalami, em que os franceses não participaram da prova.

Na temporada de 86, o Brabham BT55, projetado por Gordon Murray, era o principal assunto, com seu desenho revolucionário, e que deixou todo o paddock em expectativa durante os testes, até se provar um fracasso no começo do Mundial.

Em 1988, o clima no paddock era de guerra entre os brasileiros Nelson Piquet e Ayrton Senna, com declarações fortes dos dois lados na imprensa. O brasileiro mais experiente recebeu, inclusive, uma oficial de justiça no box, sendo intimado a se explicar após questionar a sexualidade do ainda futuro campeão.

Na temporada seguinte, o assunto era a Ferrari chamando a atenção com o rendimento de seu novo carro, que trazia a grande inovação do câmbio semiautomático, nas mãos de Nigel Mansell e Gerhard Berger. O clima, porém, ficou pesado por conta do forte acidente de Philippe Streiff, que o deixou tetraplégico.

Piquet, Gordon Murray e Ricardo Patrese conversam no paddock de Jacarepaguá
Piquet, Gordon Murray e Ricardo Patrese conversam no paddock de Jacarepaguá

E assim, tanto a imprensa brasileira quanto a F1 se acostumaram durante toda a década de 80 com os testes de pré-temporada por aqui. O clima também era muito diferente do que temos hoje. As imagens mostram mecânicos de shorts, engenheiros sem camisa, pilotos mais acessíveis e relaxados nos boxes.

Os volantes, por sinal, aproveitavam bem sua estadia. Com alguns dias de folga antes ou entre os testes e o GP, era comum vê-los nas praias pegando um sol, passeando nas ruas e até nos bares do Rio de Janeiro, se divertindo. Mesmo nos anos 70, quando São Paulo recebia a abertura do campeonato, e, em algumas oportunidades, Interlagos acaba sediando testes também, os pilotos faziam a ponte aérea.

Com o passar do tempo, as restrições de testes e orçamento e o calendário se voltando para a Oceania e Ásia logo de cara, os testes acabaram se tornaram apenas uma fase de preparação no sul da Europa.

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Filipe W

    Essa época era boa demais !!!
    Tudo era muito mais relax e sem “mimimi”.
    Desde que você não enchesse o saco e ficasse futucando em tudo, os mecânicos deixavam você de boa, zanzar pelo box e dar uma boa olhada nos carros.

  • Andre Luis Coli

    Legal a matéria, o Fabio Seixas tinha uma série no antigo blog dele chamada “Fórmula 1 sem mimimi” com fotos inacreditáveis para os padrões de hoje.

  • mateus eliaquim

    Quanta simplicidade, é até estranho quando se compara o ontem e o hoje da F1.