Os campeões da F1 que viveram momentos de fundo do poço

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“Na F1, os altos são muito altos, mas os baixos são muito baixos.” A já clássica frase, dita pelo chefe da Haas, Gunther Steiner, na popular série “Dirigir Para Viver”, se aplica aos mais distintos aspectos da categoria, mas também se encaixa de forma certeira à situação dos pilotos campeões mundiais.

Poucos nomes – apenas 33 – chegaram à conquista máxima do esporte a motor, o que já os coloca em um seletíssimo grupo. Porém, o rótulo de campeão mundial também traz consigo uma carga de expectativas e de responsabilidades, já que a performance apresentada na pista tem de fazer jus ao currículo recheado. Assim, situações que envolvem erros e desempenhos apagados tendem a repercutir em proporções maiores quando envolvem os campeões.

Sebastian Vettel que o diga. Dono de quatro títulos mundiais, o alemão está com as costas contra a parede após a fase complicada que vive recentemente, o que cria um cenário de enorme pressão. Isso se estende desde 2018, quando dificultou suas possibilidades de luta pelo título ao cometer erros, seja sozinho, seja em disputas por posição, em GPs como França, Alemanha, Itália, Japão e Estados Unidos. Já em 2019, voltou a apresentar tal tendência no GP do Bahrein, com o agravante de que, desta vez, tem ao seu lado um companheiro de equipe veloz, menos experiente e faminto por seu espaço na F1. Para Vettel, não é apenas o sonho do pentacampeonato que está em jogo, mas o patamar de seu legado como um todo.

Claro, ninguém jamais poderá retirar as conquistas que ele já obteve, sendo que o alemão é jovem e habilidoso o bastante para se recuperar e obter os resultados condizentes com seu currículo. No entanto, o insistente prosseguimento da má fase faz com que, inevitavelmente, a posição de Vettel como um dos grandes da F1 seja revista de tempos em tempos.

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Não é raridade ver campeões mundiais em posição de tal vulnerabilidade após uma fase ruim. Então, citamos alguns exemplos de nomes consagrados que atingiram o “fundo do poço” devido ao resultado de si próprio, e não apenas devido a um equipamento que não era condizente com seu status. Acha que faltou algum nome, ou que os exemplos citados não são merecidos? Não tem problema: deixe seu comentário no espaço ao fim do post e registre sua análise!

Villeneuve e as demissões em dose dupla

Jacques Villeneuve despontou como um fenômeno em meados dos anos 90. Filho de um nome cultuado no mundo da F1 e com conquistas na Indy/500 Milhas de Indianápolis, o canadense desembarcou na Williams, em 1996, com pompa de futuro astro. E ele fez jus às expectativas: cravou a pole logo em seu primeiro GP, venceu corridas e se sagrou campeão mundial em sua segunda temporada após batalha histórica com Michael Schumacher.

No entanto, pouquíssimos iriam imaginar que Villeneuve jamais flertaria novamente com o protagonismo após o desfecho da campanha de 1997. Depois daquilo, embarcou na jornada da BAR, time no qual teria status privilegiado, mas as coisas simplesmente não vingaram.

O problema para Jacques, porém, não foi apenas o equipamento limitado, e sim suas possibilidades pessoais dentro do projeto. Em 2003, incomodado com a ascensão do novo chefe, David Richards, foi subjugado pelo seu colega, o jovem Jenson Button, e sequer viu o fim da temporada de dentro do grid – o piloto foi substituído por Takuma Sato na etapa final, em Suzuka.

Villeneuve ficou a pé por boa parte da temporada de 2004, retornando apenas para completar a campanha pela Renault. Emendou sua carreira ao assinar com a Sauber para 2005, inclusive permanecendo no time durante a transição para a fase BMW, em 2006. Mas, ainda assim, o velho Villeneuve jamais apareceu de novo.

O canadense, antes conhecido por sua pilotagem agressiva, veloz e destemida, se mostrou em seus últimos anos na F1 um piloto indefeso diante de nomes muito mais jovens, como Fernando Alonso, Felipe Massa e até Nick Heidfeld. Em 2006, o desempenho foi tão apagado que Villeneuve novamente foi demitido no meio da temporada – sua última corrida na categoria foi em Hockenheim, quando abandonou ao sofrer um forte acidente. Uma das grandes sensações de seu tempo simplesmente deixou a F1 pela porta dos fundos e ninguém percebeu.

Mansell e o bizarro fim de carreira na F1

Nigel Mansell havia cumprido sua missão na F1 ao dominar a temporada de 1992 e consagrar sua longa e tempestuosa carreira. Mas sua trajetória não acabaria ali: havia mais alguns capítulos a serem vividos, que novamente seriam marcados por altos e baixos.

Quando já estava comprometido com a Indy (e se dando muito bem, obrigado) o “Leão” foi reconvocado pela Williams para tapar buraco após a trágica morte de Ayrton Senna. Nas corridas que fez, ofereceu pouca resistência ao parceiro Damon Hill, mas ainda assim mostrou velocidade suficiente para fazer suas últimas pole e vitória, ambas em Adelaide.

LEIA TAMBÉM: Qual o real nível de grandeza de Mansell para a F1?

Em 1995, aos 41 anos de idade (faria 42 naquele ano), Mansell se comprometeu com seu último projeto pela F1, na McLaren, que também buscava um nome de grande porte. Mas a parceria foi um desastre: Mansell ficou de fora das primeiras provas da temporada porque sequer cabia no carro. Não que a McLaren fora extremamente exigente com seu projeto, e sim que Mansell estava de fato bastante fora de forma.

Quando pôde competir, na terceira e quarta corridas do ano, não viu a cor da bola contra Mika Hakkinen, o que resultou em sua saída abrupta do time. Sim, Nigel Mansell, o bravo piloto que cravou seu nome na era que marcou uma geração, deixou a F1 com uma justificativa digna de filmes de comédia pastelão.

Os finais meses constrangedores de Schumacher

Schumacher e o acidente com “Jean-Marc” Vergne em Singapura

No fim de 2009, quando Michael Schumacher anunciou que voltaria à F1 pela nova equipe Mercedes, o mundo do automobilismo ficou em êxtase: o maior vitorioso da história retornaria à ativa pelo time que seria a continuação dos campeões mundiais reinantes. A expectativa, portanto, não poderia ser diferente: algo especial estava por vir.

Como todos já sabem, não foi o que aconteceu. Schumacher jamais conseguiu dar mostras do piloto que fora anteriormente, já que não conseguiu se adaptar às novas tendências da F1. A situação ia muito além da falta de competitividade imediata da Mercedes, uma vez que o consagrado alemão era subjugado por seu mais jovem compatriota Nico Rosberg.

Schumacher até teve momentos de destaque – conseguia fazer frente constantemente a Rosberg em classificações e teve algumas corridas mais fortes, como no Canadá, em 2011 (quando foi um sério postulante ao pódio), ou em Monza, no mesmo ano, quando foi uma pedra no sapato a Lewis Hamilton. A “pole que não levou”, em Mônaco-2012, também marcou um ponto alto. Até aí, eram rendimentos condizentes com um piloto habilidoso, mas que apresentava o cansaço da idade avançada. Porém, na reta final de sua passagem pela F1, alguns acontecimentos mostraram que chegava a hora de pendurar as sapatilhas.

O GP da Hungria foi marcado por gafes: bateu no treino livre pelo segundo evento seguido e provocou a suspensão da largada ao estacionar na posição errada do grid ao fim da volta de apresentação. Além disso, ele acidentalmente desligou seu motor em pleno grid, o fez largar do pitlane – sendo que ele desacionou o limitador de velocidade para a largada, rendendo um drive-through.

No GP de Singapura, menos de dois meses depois, provocou um acidente atabalhoado ao cravar a traseira de Jean-Eric Vergne – a quem, ainda por cima, chamou de “Jean-Marc” após o ocorrido. Membros da Mercedes classificavam a participação do heptacampeão como “medíocre”. Era a prova definitiva de que Schumacher não pertencia mais à F1.

Goste do alemão ou não, era um tanto triste ver uma figura tão vitoriosa sujeita a situações tão constrangedoras.

Cadê o velho Raikkonen que todos esperavam?

A narrativa estava construída ao fim de 2013. Kimi Raikkonen, último campeão pela Ferrari e que havia feito duas temporadas competitivas pela Lotus, retornaria a Maranello a partir de 2014.

Parecia que a F1 teria mais uma rivalidade interna daquelas. Fernando Alonso, que dominava a Ferrari desde 2010, se indispôs com a chefia após declarações controversas, sendo que Raikkonen foi contratado novamente para o time no lugar de Felipe Massa em 2014.

O momento forte de Raikkonen em 2012/2013, mais a situação instável de Alonso com o time, desenhava uma possível troca de guarda na Ferrari. Além disso, seria a oportunidade rara de ver os rivais da temporada de 2005 mano a mano, com o mesmo equipamento.

Foi um banho de água fria. Raikkonen não se encontrou com o carro da Ferrari e foi amplamente subjugado por Alonso, que terminou o campeonato 106 pontos (e seis posições) à frente. Começava-se a questionar se Raikkonen havia perdido novamente o tesão pela coisa e se ainda teria vida útil no grid.

O finlandês, ao menos, se recuperou em 2015 com seus três pódios, mas voltava a ser batido internamente pelo mesmo Sebastian Vettel que motivou a produção este artigo. A vitória de vermelho só veio no GP dos Estados Unidos de 2018, encerrando mais de cinco anos de jejum. Raikkonen não mais encheu os olhos como antigamente, mas reencontrou sua forma a ponto de ser competitivo, e, agora na Alfa Romeo, gera expectativas interessantes para o meio do pelotão.

Prost, despejado pela Ferrari após as críticas

Quando chegou à Ferrari, antes de 1990, Alain Prost era tido como a figura que poderia encerrar o jejum de títulos de Maranello, que durava desde a solitária conquista de Jody Schecker. O francês teve uma chance legítima em sua primeira temporada, mas perdeu para Ayrton Senna; porém, havia novas possibilidades de 1991 em diante.

Acontece que a Ferrari se perdeu no duelo contra a McLaren, sendo que a Williams (que passaria a desbravar os recursos eletrônicos dali em diante) tomou de assalto o posto de principal rival na luta pelos títulos. A Prost, então, restou apenas lutar por migalhas, o que era muito pouco para o ambicioso francês

As críticas passaram a surgir com força. Prost se queixava constantemente da competitividade de seu carro, com o destaque para quando comparou o carro italiano a um caminhão. Situações constrangedoras dentro da pista também não ajudavam em nada – especialmente quando rodou na volta de apresentação em pleno GP de San Marino, no molhado (seu calcanhar de aquiles)  e abandonou as ações na Itália antes mesmo de tudo começar.

Prost foi demitido antes mesmo do fim da temporada de 1991, sendo que parecia que o francês poderia ter um desfecho melancólico de carreira. Porém, o caso do francês ao menos serve para mostrar que nem tudo esteve perdido. Apesar do fim catastrófico de passagem pela Ferrari, Prost se reencontrou ao assinar com a Williams e retornar em 1993, quando conquistou seu último título mundial.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.