Carreira de Alonso mostra que não adianta ser bom só dentro da pista

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Como todo grande piloto que se aposenta ou que anuncia um ano sabático, a despedida de Fernando Alonso da F1, nesta última terça-feira (14/08), também causa uma grande corrida por análises esportiva, psicológica e de legado da carreira do espanhol. E existe muita coisa a ser analisada.

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Alonso apareceu para a F1 no começo dos anos 2000 como um talento promissor que poderia se tornar muito grande. Cria de seu empresário polêmico, Flavio Briatore, ficou acostumado em ter uma bolha de proteção. Foi colocado na Minardi para ganhar experiência de corrida na F1, depois foi promovido à Renault, onde seu padrinho também era chefe de equipe.

Desde muito cedo, o espanhol recebeu de Briatore toda o favorecimento necessário para ser o piloto principal da equipe, mesmo quando era superado pelos companheiros, como aconteceu com Jarno Trulli em 2004. O italiano, que realmente não estava ao nível do jovem espanhol, depois de tanto brigar com seu superior sobre a questão, acabou dispensado do time francês durante a temporada.

Alonso teve Marques como primeiro companheiro de equipe
Alonso teve Marques como primeiro companheiro de equipe

Nos dois anos seguintes, apesar de algumas boas apresentações de Giancarlo Fisichella, Alonso se impôs com tranquilidade na pista e conquistou o bicampeonato com méritos em brigas muito interessantes com a McLaren de Kimi Raikkonen em 2005 e a Ferrari de Michael Schumacher em 2006.

Nesse momento, ainda mais com a [primeira]aposentadoria de Schumacher, tudo indicava que Alonso se tornaria a grande estrela da F1. Ele então resolveu apostar em um projeto da McLaren para 2007 em que seria o líder de uma possível volta da equipe ao topo, e teria ao seu lado um novato chamado Lewis Hamilton como companheiro.

O time de Woking realmente entregou uma grande evolução para aquele campeonato e o asturiano tinha tudo para concretizar seu domínio na categoria aos moldes do que Schumacher tinha feito nos anos anteriores. Só que, de forma imprevisível, o jovem Hamilton começou não só a incomodá-lo como a superá-lo de forma constante.

Hamilton na frente de Alonso na temporada de 2007
Hamilton na frente de Alonso na temporada de 2007

Na metade do campeonato, após 8 das 17 etapas, o inglês era o líder da classificação geral com 14 pontos de vantagem para o espanhol (lembrando que na época o vencedor recebia 10 tentos). Alonso não aceitou bem a situação por achar que deveria ter preferência e tratamento especial da equipe. Assim, ele iniciou uma briga interna que pode ter lhe custado não apenas o título de 2007 como uma carreira com muito mais triunfos e taças.

A grande burrada do espanhol foi querer bater de frente com a equipe em um ambiente que, diferente do que acontecia na Renault, ele não era o mais querido. E dois momentos fizeram esse problema eclodir a olhos vistos.

A McLaren estava sendo investigada pela FIA por espionagem industrial contra Ferrari. O processo estava correndo em paralelo à temporada, porém, sem provas concretas, a própria entidade já estava descartando qualquer punição.

No final de semana do GP da Hungria, Alonso ficou irritado com uma desobediência por parte de Lewis Hamilton durante o Q2 da classificação sobre a ordem dos dois carros na pista no momento de suas voltas rápidas. Como vingança, no Q3, na hora em que os carros foram aos boxes para troca de pneus antes da última tentativa, o espanhol, à frente, ficou estacionado no lugar do pit e saiu no limite para conseguir fazer a volta de aquecimento e abrir o giro cronometrado, não deixando tempo para seu parceiro fazer o mesmo.

Ron Dennis, chefe da equipe, ficou louco da vida e os dois tiveram uma dura briga no motorhome do time. Segundo o presidente da FIA na época, Max Mosley, o próprio dirigente da McLaren admitiu que neste bate-boca, Alonso teria ameaçado enviar à entidade trocas de e-mails entre ele, o piloto de testes Pedro de la Rosa e o engenheiro Mike Coughlan, que depois descobriu-se que era quem recebia as informações de dentro da Ferrari, o que comprovariam o esquema de espionagem.

Alonso, com Ron Dennis atrás, após a polêmica classificação do GP da Hungria de 2007
Alonso, com Ron Dennis atrás, após a polêmica classificação do GP da Hungria de 2007

Algumas semanas depois, estes e-mails foram enviados a Bernie Ecclestone, chefe da empresa que detinha os direitos comerciais da F1, que os repassou à FIA. O resultado foi que a McLaren foi desclassificada do campeonato de construtores e ainda recebeu uma multa de U$ 100 milhões.

Obviamente que o caso acabou com qualquer chance de Alonso seguir na equipe. Ele terminou o ano empatado em pontos com Hamilton enquanto Kimi Raikkonen conquistou pela Ferrari um título que parecia bastante improvável, após chegar na última etapa, em Interlagos, atrás dos dois pilotos da McLaren.

Sem espaço, a única alternativa de Alonso foi retornar para a Renault, que ainda tinha Flavio Briatore no comando, mas que já não conseguia mais brigar por vitórias como em anos anteriores. Na primeira temporada do novo acordo, até vieram dois novos triunfos (um no escandaloso GP da Singapura), enquanto Hamilton sagrava-se campeão pela McLaren.

Em 2010, Alonso seguiu para um novo projeto: Ferrari. Foram anos de grandes vitórias, polêmicas também (GP da Alemanha de 2010), mas o título, por diversas razões (não só carro) não veio. Com um contrato longo, em 2014 o espanhol, claramente cansado do time italiano, iniciou uma série de críticas públicas ao carro e à escuderia, apesar de sempre pontuar que gostaria de encerrar sua carreira em Maranello.

Alonso venceu na estreia na Ferrari, em 2010 (Divulgação)
Alonso venceu na estreia na Ferrari, em 2010 (Divulgação)

Mais uma vez, Alonso saiu pela porta dos fundos, substituído por Sebastian Vettel, que hoje briga por títulos pela equipe italiana. O que mais chamou a atenção, porém, foi o destino do piloto: a McLaren. Pois é. Até foto com Ron Dennis ele tirou.

O bicampeão foi contratado de volta com o salário pago pela Honda, que estava retornando à categoria e queria ele ao lado de Jenson Button para liderar o trabalho de desenvolvimento do motor.

Foram então três anos de péssimos resultados e muitas críticas aos propulsores da marca japonesa, que mesmo reconhecendo que precisava melhorar, obviamente não gostava de ver seu grande líder dentro das pistas ser ao mesmo tempo seu maior detrator. O casamento entre Honda e McLaren terminou ao final de 2017, mas mesmo com os motores Renault, o time não evoluiu como se esperava e Alonso seguiu brigando por apenas alguns pontos, muito longe da luta por pódios e vitórias.

Dennis com Fernando Alonso, seu piloto nº 1 mais recente
Dennis com Fernando Alonso, seu piloto nº 1 mais recente

Com Mercedes e Red Bull desinteressadas em arriscar trazer um piloto que, apesar de um imenso talento, nem sempre sabe jogar em equipe, as portas na Ferrari fechadas, e uma McLaren sem condições de lhe dar o carro que gostaria, Alonso se viu sem muita escolha. Assim, ele resolveu agora em 2018, mais de cinco anos após sua última vitória na F1, anunciar sua despedida da categoria.

Alonso, realmente, não esteve na maioria das vezes no lugar certo na hora certa. Mas não fez muita força para que isso acontecesse. Portando-se sempre como vítima da falta de um grande carro, não observou movimentos importantes que o deixaram para trás. Se Hamilton e Vettel venceram na McLaren e Red Bull, souberam se manter em grande forma e arriscaram certo em suas trocas para Mercedes e Ferrari, respectivamente.

Alonso deixa a F1 com dois títulos mundiais, assim como Jim Clark, Graham Hill, Emerson Fittipaldi, Alberto Ascari e Mika Hakkinen. São 32 vitórias, o que lhe coloca na sexta posição do ranking histórico atrás apenas de Schumacher, Hamilton, Alain Prost, Vettel e Ayrton Senna. Nada mal, não?

Ele poderia mais? Poderia. Se tivesse a calma e o foco fora da pista como tiveram todos os grandes pilotos para desenvolverem seus carros e seus relacionamentos com engenheiros, fatalmente chegaria mais longe. E isso mostra que os maiores pilotos não são só aqueles que aceleram mais ou têm mais habilidade ao volante, mas aqueles que conseguem ver o automobilismo como um esporte de equipe e que entendem tudo o que os cerca e o que precisam para receber a bandeira quadriculada à frente dos outros.

 

Alonso não correrá na F1 em 2019 | Plantão Motor:

 

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.