Chegou a hora da F1 dar uma chance para Romain Grosjean

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Quando Romain Grosjean despontou na F3 Euroseries, no fim da década de 2000, a impressão à primeira vista era de um jovem campeão mundial em formação. O franco-suíço venceu o título da F3 contra uma forte oposição (Sébastien Buemi e Nico Hulkenberg) e, nos anos seguintes, confirmou seu talento na GP2, chegando até a liderança do campeonato antes de aceitar um convite para substituir Nelsinho Piquet na equipe de F1 da Renault.

Veio então o primeiro baque na carreira. Nas sete provas que disputou em 2009, perdeu todas as batalhas de classificação contra Fernando Alonso e não marcou pontos, tendo obtido um 13º lugar como melhor resultado. O desempenho pífio não deu muitas razões para Enstone manter sua vaga e, em janeiro de 2010, Robert Kubica e Vitaly Petrov – seu ex-companheiro nos tempos de GP2 – foram anunciados como titulares. O francês estava fora.

Grosjean: estreia frustrante com a Renault no GP da Europa de 2009 (Divulgação/Wikicommons)
Grosjean: estreia frustrante com a Renault no GP da Europa de 2009 (Divulgação/Wikicommons)

Sem perspectivas na F1, Grosjean passou a peregrinar por categorias. Disputou as 24 Horas de Le Mans e o Mundial de GT1 no mesmo ano e descolou um título na AutoGP – a antiga F3000 Europeia –, o que lhe garantiu uma nova chance na GP2 pela Dams. Uma campanha irrepreensível em 2011 na antessala da F1, coletando quase o dobro de pontos do vice-campeão Luca Filippi, e a associação com a Gravity Sport Management – uma agência de pilotos chefiada por Gerard Lopez e Éric Boullier, à época diretor executivo da Lotus – lhe renderam bons contatos na categoria-mãe.

Assim, no ano seguinte, lá estava Grosjean de volta ao time que, curiosamente, o demitiu: a Renault, agora denominada Lotus. Ele seria companheiro do campeão mundial Kimi Raikkonen, de volta à F1 após hiato de três anos.

Mas novamente parecia que Grosjean não tinha entendido a dinâmica da categoria. Embora tenha sido mais rápido que Raikkonen em classificações e conquistado três pódios, o francês frequentemente se envolvia em colisões durante os metros iniciais do percurso.  Chamado de “o louco da primeira volta” por Mark Webber, ele sentiu o auge da hostilidade no GP da Bélgica, em Spa. Neste páreo, o francês provocou o abandono de três carros ao atingir o McLaren de Lewis Hamilton na entrada da Source, coletando também Fernando Alonso, da Ferrari, e Sergio Pérez, da Sauber (veja abaixo uma filmagem do acidente por um cinegrafista amador).

Como resultado, foi suspenso pela FIA (Federação Internacional de Automobilismo) por uma corrida – o primeiro piloto a tomar um banimento temporário desde Michael Schumacher, em 1994 – e multado em 50 mil euros por “provocar uma séria violação no regulamento, com o potencial de causar ferimentos aos outros”. Pesou contra o francês o fato de ter eliminado dois candidatos ao título: Alonso e Hamilton.

O episódio nas Ardenas se tornou um marco teórico na carreira de Grosjean. Após procurar ajuda psicológica, o francês controlou o ímpeto no acelerador e logo na temporada seguinte passou a mostrar serviço.

Neste período, tornou-se, sem exageros, o piloto com a maior curva de aprendizado na F1. Sem perder o estilo agressivo – basta lembrar da genial ultrapassagem sobre Felipe Massa na saída da curva 4 em Hungaroring, por exemplo –, amealhou seis pódios, 132 pontos (uma média de 6,9 por corrida) e um bom momento no GP do Japão, em que chegou a liderar as primeiras voltas após uma péssima largada das Red Bulls.

Romain Grosjean no GP da Malásia de 2013 (Wikicommons)
Romain Grosjean no GP da Malásia de 2013 (Wikicommons)

A transição ruim da Renault para os motores V6 turbo em 2014, porém, afetou a Lotus e Grosjean amargou uma péssima temporada, encerrando a época em 14º lugar, com menos de um ponto de média por corrida. Um episódio bizarro na Hungria também não contribuiu para manter a imagem do francês em alta e, no início da temporada, as expectativas em relação a ele já eram baixas – principalmente por causa da ascensão dos também jovens Daniel Ricciardo e Valtteri Bottas.

Mas novamente Grosjean mostrou uma enorme capacidade de resiliência. Após um discreto início de campeonato, o francês amealhou um surpreendente terceiro lugar justamente no GP da Bélgica, o mesmo lugar em que havia sido testilhado três anos atrás.

É claro que, de certa forma, ele se valeu de dois problemas de pneu com dois de seus adversários mais próximos – Valtteri Bottas, da Williams, e Sebastian Vettel, da Ferrari –, mas ainda assim foi um pódio condigno.

No sábado, ele já surpreendeu a todos ao se classificar em quarto, um posto que infelizmente perdeu após trocar a caixa de velocidades para a corrida. Relegado à nona colocação, não se desesperou e superou Bottas (duas vezes), Pérez e Ricciardo na primeira metade do percurso. Após a relargada, já se encontrava na cola da Ferrari de Vettel, passando o restante da corrida a azucrinar a vida do germânico.

Grosjean comemora pódio em Spa (Studio Colombo/Pirelli)
Grosjean comemora pódio em Spa (Studio Colombo/Pirelli)

Quando o exaurido pneu da SF15-T estourou na saída da Raidillon, Grosjean deu o bote e confirmou o terceiro lugar. Se o francês passaria Vettel caso o último permanecesse na pista é irrelevante. Extrair um desempenho do carro além do esperado é uma das habilidades que fazem um piloto de F1 se tornar grande. A Lotus provavelmente tem o quinto ou sexto carro mais rápido do grid e pôr o E23 Hybrid naquela posição não deixou de ser uma grande conquista.

A questão, no entanto, é: Grosjean tem potencial para mostrar mais? Na opinião do colunista da Sky Sports, Mark Hughes, bem mais do que isso.

“A grandeza de Grosjean não é nenhuma fantasia. Este é um campeão do mundo em potencial vociferando contra a possibilidade de que sua carreira se perca e exigindo que seja notado.”

O comitê do Projeto Motor adota um maior nível de cautela na avaliação. Grosjean já mostrou que tem velocidade e leitura de jogo para vencer GPs, mas talvez cravar que o francês tenha potencial para se tornar um campeão do mundo seja além da conta. Mais correto seja implicar que Romain, por tudo que já passou, mereça um carro muito mais competitivo que a Lotus. Quem sabe após 2016, quando o francês cumprir seu último ano de contrato em Enstone? Sinceramente torço por isso.

De qualquer forma, o desempenho em Spa relembrou ao mundo o talento de Grosjean. Passo a passo, o francês vai apagando a imagem do fã preguiçoso que o conecta ao “louco da primeira volta” e construindo uma carreira que pode se tornar um belo exemplo de plot twist positivo no futuro.

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Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Gustavo Segamarchi

    “O comitê do Projeto Motor adota um maior nível de cautela na avaliação!”

    Concordo com vocês, tem que haver um pouco de cautela, mesmo.

    É um bom piloto, evoluiu com o passar do tempo, mas, acho que nunca será campeão, pois não teve a chance de ter um carro galático nas mãos.