A jornada chega ao fim: o adeus de Christian Fittipaldi das pistas

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Depois de uma longa trajetória de 38 anos dedicados ao automobilismo, chegou a hora de Christian Fittipaldi pendurar as sapatilhas. O brasileiro, que passou por categorias como F1, Indy, Nascar, Stock Car e IMSA, deixará as competições após a edição de 2019 das 24 Horas de Daytona.

Em todos estes anos, Fittipaldi (filho de Wilsinho e sobrinho de Emerson) experimentou lados distintos da moeda nas pistas. Brilhou na base, foi campeão da F3000 e alcançou o sonho da F1. Na principal categoria do mundo, teve momentos de dificuldades, de brilho e enfrentou verdadeiros sustos. Mudou totalmente de rumo ao virar o seu foco aos Estados Unidos, onde também passou por altos e baixos. Depois, migrou por várias outras categorias, seja no Brasil ou na América do Norte, e se destacou ao vencer por três vezes a famosa corrida de Daytona.

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Christian, envolvido intensamente com o esporte a motor desde que se entende por gente, tem uma visão que mistura paixão e objetividade sobre as corridas. Sua história por si só exemplifica a primeira parte, especialmente com a forma com que lidou com os graves acidentes que marcaram sua trajetória. Por outro lado, ele apresenta uma grande capacidade analítica (e até autocrítica) de rever sua história.

Prestes a encerrar este capítulo de sua vida, Christian Fittipaldi esteve no escritório do Projeto Motor, em São Paulo, para fazer um balanço geral de sua carreira e relembrar episódios/personagens marcantes em sua trajetória. O principal conteúdo da entrevista está no vídeo posicionado no topo desta nota, mas, abaixo, você confere o papo na íntegra.

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O significado do automobilismo para sua vida

“Muito. Acho que não vou dizer tudo, porque também tive experiências muito fortes, algumas até mais fortes do que automobilismo, do que as próprias competições em si. Mas, com certeza, acho que representa bastante. Acho que o automobilismo me ensinou muito: fiz muitas amizades, tive muito sucesso, tive derrotas, e acho que cresci muito como pessoa por causa do automobilismo. Então, sem dúvida nenhuma, devo muito a ele de uma maneira geral – sou muito grato. E ainda sou apaixonado pelas corridas. Estou parando de guiar por uma série de motivos, uma bola de neve que só foi aumentando, aumentando cada vez mais.”

“Mas ainda sou fã de corridas. Domingo de manhã estou em casa e estou assistindo Indy, F1, Nascar, às vezes até mesmo a própria Stock Car lá dos Estados Unidos. Não é que cheguei a uma situação em que quero me desligar completamente do automobilismo. Eu não quero olhar para trás e provavelmente cuspir no prato que comi. É exatamente o contrário. É só uma situação diferenciada na minha vida. Guiei durante 38 anos e cheguei num ponto em que, enfim, a bola de neve foi crescendo e chegou o dia para fechar este capítulo e abrir o próximo.”

O quão natural foi seu envolvimento com o esporte

“Eu diria que não foi anormal. Não sei se foi normal, mas anormal seria se eu fosse jogar golfe, por exemplo, ou se eu partisse para uma carreira totalmente diferente – fosse político, advogado. Aí a gente poderia categorizar como anormal. Em casa a gente sempre conversou sobre automobilismo, ainda mais na época em que eu tinha entre de 4 a 8 anos. Meu pai e meu tio passavam muito tempo juntos, as duas famílias saíam de férias juntos o tempo todo. Teve um período da minha vida em que as duas famílias moravam na mesma casa, uma casa enorme lá no Morumbi. É claro que o assunto predominante na mesa era as corrida. Geralmente a gente comia uma asa dianteira de café da manhã, almoçava um motor e jantava um câmbio.”

“Então, eu diria que estes motivos me deram as diretrizes corretas do automobilismo. A partir do momento em que eu cheguei numa fase mais elevada, é óbvio que uma série destes fatores que me alavancaram durante tanto tempo foi eu mesmo tentar o meu melhor. Mas acho que estes motivos me ajudaram, me facilitaram muito principalmente no começo. Eu entrei no automobilismo com um certo know-how que alguns outros pilotos que vieram em uma família que não tinha absolutamente nada a ver com automobilismo, com certeza eles tiveram uma dificuldade maior do que eu tive.”

As maiores influências dentro e fora das pistas

“Com certeza, minha maior influência acabou sendo meu pai, mesmo porque eu tive um contato muito grande com ele no começo da minha carreira. Eu diria que até praticamente o meu segundo ano de F1.”

“Ele dentro das pistas e a minha mãe fora. A minha mãe com certeza teve uma vida difícil comigo, [com]o fato de eu só querer correr de kart no começo em vez de estudar, por exemplo. E é claro que a preocupação da minha mãe era ‘bom, e se a carreira do Christian não decolar no automobilismo, o que ele vai fazer? Principalmente agora que ele não está estudando?’ Eu nunca fiz faculdade. Eu terminei o segundo grau e foi praticamente isso. Então, eu imagino que ela tinha uma preocupação muito grande, mas até esse ponto da minha vida, da minha carreira, com certeza ela esteve por trás, me ajudou bastante.”

O melhor momento de sua carreira

“Não quero categorizar um instante como o melhor momento. Acho que tiveram vários, e, inclusive,  a gente pode ficar uma hora conversando. Acho que não teve um melhor momento. Acho que tiveram situações diferentes, que eu valorizo bastante. É fácil a gente fazer uma análise agora, depois que vivi tudo. De repente, houve instantes em que ‘nossa, se eu tivesse terminado aquela corrida, teria mudado a minha história inteira’. Sem dúvidas, mas, ao mesmo tempo, eu poderia falar isso de uma série de outros pilotos.”

Sucesso em forma de proteção

“Ao longo da minha carreira não tive vários acidentes. Só tive alguns acidentes, mas foram acidentes graves. E, de repente, algumas formas de sucesso da minha carreira vieram em forma de “muito obrigado, papai do céu, esse acidente podia ser muito pior. Podia ter me machucado muito mais”. Uma delas, sem dúvida nenhuma, foi no meu acidente em Monza. Graças a deus não aconteceu nada. O carro parou, soltei o cinto, desci do carro como se absolutamente nada tivesse acontecido. Só que a mesma situação, se o carro não tivesse completado a volta inteira e tivesse caído no santantonio, a 315 km/h, eu tenho certeza que eu não estaria conversando com vocês hoje em dia. Então, eu acho que houve momentos… Foram poucos momentos, mas momentos delicados da minha carreira, em que teve um moço lá em cima que me ajudou bastante.”

O “filme na cabeça” no acidente em Monza

“Na hora já tinha dado para ter uma ideia. Eu lembro que, na hora que o carro começou a decolar – lembro que estava uma tarde ensolarada em Monza, céu azul, mas um pouco de nebulosidade. Então estava um azul meio esbranquiçado. Eu olhei para o céu e passou um filminho dos momentos mais importantes da minha vida. Meu primeiro dia de aula, alguma festa que fui com os meus pais quando eu era criança, a primeira corrida minha de kart. Momentos pontuais importantes da minha vida.”

“E, ao mesmo tempo, eu pensava: ‘Nossa, se o carro não virar e não cair nas quatro rodas, eu provavelmente não vou estar aqui daqui 1s5.’ Então, apesar de ter sido o processo todo entre 0s5 e 1s no máximo, ou seja, o ciclo todo do carro ter durado isso, para mim parecia que foi uma eternidade. A outra coisa que me chamou muito a atenção foi que, no momento em que eu estava dentro do carro, eu estava olhando para cima e falei ‘nossa, que coisa louca. Estou dentro do carro, estou 100% bem fisicamente, mas não posso fazer absolutamente nada. Está tudo completamente fora do meu controle. Não posso soltar o cinto, soltar o carro, não posso fazer absolutamente nada.’ Ou seja, a partir daquele momento, eu era apenas um passageiro sem controle nenhum. Não foi nem me dada a chance de poder tentar fazer alguma coisa. Não podia fazer nada. Óbvio, para completar esse pensamento, passou muito pela minha cabeça ‘nossa, se o carro não der a volta inteira e não cair nas quatro rodas, vou estar em uma situação muito difícil.'”

Momentos de dificuldades na F1

Christian Fittipaldi competiu na F1 por três temporadas. Nas duas primeiras, em 92 e 93, esteve na Minardi. Já em 94 mudou-se para a Footwork. 

“Se a gente voltar para trás, o primeiro ano realmente difícil que tive na minha vida foi 92, na minha primeira temporada de F1. Até então, desde que comecei a correr, de 81 até 92, nunca tinha passado por um momento difícil. E esse momento difícil começou quando quebrei a terceira vértebra e trinquei a quarta em um acidente que tive em Magny Cours, no GP da França. Aí tive pouco tempo de preparo, de treino. Voltei a guiar o carro e a minha primeira corrida foi em Spa. Não consegui me classificar. Daí logo depois de Spa, fui para Monza, e não consegui classificar de novo em Monza, sendo que o outro carro da Minardi, o Gianni [Morbidelli], tinha classificado acho que 15º, 16º, 14º, ou seja, ele estava tranquilamente dentro da corrida.”

“O Giancarlo [Minardi] me chamou no motorhome e falou: ‘ó, infelizmente, a gente não sabe se vai poder continuar com você nessa situação, porque está uma situação difícil e não posso ter um carro entrando dentro da corrida e outro fora.’ Aquilo eu diria que me pesou bastante. Eu acho que ele colocou uma pressão em cima de mim, mas, no fundo, nunca fui um cara que tive problema com pressão, e acho que encarei aquilo de uma maneira positiva. Tanto que fui para o Japão e não só fiz minha melhor classificação do ano como também marquei o único ponto da Minardi, que acabou salvando a Minardi. Acabei devolvendo para o Giancarlo, só neste ponto, 5, 6 milhões de dólares, que era o dinheiro que ele ganhava por estar entre os 10 primeiros [no Mundial de Construtores].”

“Então, foi estranho, porque foram momentos de altos e baixos enormes. Saí de uma prova horrível, de não ter classificado em Monza, consegui entrar na corrida em Portugal e fiz o GP inteiro. Terminei em 11º, 10º, e tivemos dois dias de testes depois. Fiz o teste, estava bem, o Giancarlo tinha conversado comigo logo depois da classificação de Monza de que seria difícil continuar comigo naquela situação. Quando terminou Portugal, quando terminei a corrida inteira, e mais os dois dias de testes, parece que tinha virado uma chavinha na minha cabeça e eu tinha voltado a ser a pessoa normal de novo. Isso de repente me facilitou um pouco, e quando fui para o Japão, até então eu fiz a minha melhor corrida na F1.”

” Aqueles meses que vivi foram bem intensos para mim, e minha alegria de quando desci do carro no Japão… Não pelo fato de ter marcado meu primeiro ponto na F1, mas pelo fato de eu ter me superado. Ou seja, de eu saber que eu tinha saído de uma situação crítica, para voltar a ser aquilo que eu sempre fui. Lembro que, quando desci do carro, eu estava muito contente. Se você pedir para eu descrever as cenas, as imagens, as pessoas que estavam junto com você, eu consigo relatar perfeitamente, como se tivesse acontecido ontem.”

F1, um ambiente hostil?

“É difícil, é hostil, muita pressão, muita sacanagem, muita mentira. Ao mesmo tempo, tem o outro lado: a F1 é maravilhosa, é o que tem de mais avançado tecnicamente falando. Os carros são praticamente uma perfeição, então a F1 é mais ou menos dois pesos e duas medidas. Acho que sempre foi assim, sempre vai ser assim. É claro que, quando a gente voltar para trás, na década de 80, 70, 60, vai ter pessoas que vão alegar naquela época, os pilotos eram bem mais amigos, todo mundo ficava no mesmo hotel, passavam as férias juntos, e hoje em dia cada um faz seu programa, tem sua agenda. Eu posso concordar com isso, mas acho que não foi a F1 que gerou isso, mas o próprio mundo em que a gente vive. A dinâmica hoje em dia do mundo é completamente diferente da década 80, por exemplo, e cada vez mais fica mais competitivo, tem mais pessoas de uma maneira geral com mais acesso a informação. Então, acho que é o próprio mundo em que vivemos que acabou criando esse mito maior da F1.”

O medo dentro das pistas

Acho que medo você tem sempre. Qualquer piloto tem medo. Um piloto que sentar nessa cadeira e dizer que não tem medo vai estar mentindo. É através do medo, dessa zona de desconforto – de repente a gente não chama de medo, mas chama de zona de desconforto, que você encontra o seu limite. Se você não entrar nessa zona, aí seria um problema, porque você chegaria no final da reta, em sexta, a 330 km/h e pensa ‘tudo bem, não tenho medo. Vou só virar para a direita ou para esquerda, o carro vai virar. Se não virar, ele vai rodar e vai bater. Eu saio do carro e tudo bem.’ Não, não é bem assim, porque o piloto sabe as consequências se ele bater naquela velocidade. Então, é óbvio que ele entra – vamos esquecer a palavra medo – na zona de desconforto, e através dessa zona de desconforto que ele encontra o limite do carro, ou pelo menos o limite dele em relação àquilo que o carro pode oferecer.”

“E é claro que, se a gente comparar com alguns pilotos, tem alguns que entram nessa zona de desconforto em formas diferentes. Então daí a gente tem o diferencial entre cada um. Tem alguns que se sentem mais à vontade na chuva, outros que se sentem menos. Alguns se sentem mais à vontade numa situação de corrida, outros menos. Tem alguns que se sentem mais à vontade numa situação de classificação, oval… Mas essa zona é uma janela que vai mudando bastante de acordo com a situação da pista, a condição do carro.”

A relação entre os pilotos

“Eu, pelo menos, nunca encarei um esporte que pratiquei durante 38 anos da minha vida como uma zona de guerra, e sim um esporte. Então é óbvio que dentro daquele ambiente que a gente vivia, às vezes acontecia alguns arranca-rabos entre pilotos, mas nunca ao ponto de você desejar ao outro piloto um acidente grave, ou seja, uma situação onde o outro piloto pudesse se machucar e até acabar sendo uma fatalidade. Pelo menos isso passou longe de passar pela minha cabeça. Mas se você perguntar: existia uma raiva entre um piloto e outro? Sem dúvida nenhuma. Existia, e não vou mentir. Mas a gente tem sempre que lembrar que a gente estava praticando um esporte, a gente não estava indo para a guerra. E claro, quando acontecia uma fatalidade, pesava. Muito, e não pouco.

Qual episódio mais traumatizou

“Vários incidentes me chocaram bastante. Mas um deles que nunca vou me esquecer, que coincidentemente não foi uma fatalidade, mas foi algo que me marcou muito, foi o acidente do [Alessandro] Zanardi na Alemanha. Quem era o meu spotter naquela corrida era um inglês que não demonstrava muita emoção. Ele sempre foi bem calmo no rádio comigo, e justamente naquele momento ele entrou no rádio: ‘Pelo amor de Deus, Christian, tira o pé, tira o pé, tira o pé. Acidente horrível na Curva 1’. Ele deve ter visto tudo.”

“Na hora a gente tirou o pé, bandeira amarela, todo mundo começou a andar mais devagar, e no momento em que eu passei pelo incidente do Zanardi, tinha duas poças de sangue, ou uma poça de sangue… Não lembro direito se eram duas ou uma, mas era uma poça de sangue enorme, meio que da linha do volante do carro para frente, que é onde não tinha absolutamente mais nada do carro. Na hora que vi aquilo lá, a primeira coisa que passou pela minha cabeça era ‘ele perdeu a perna’. A segunda coisa que passou é que, com a quantidade de sangue que eu vi no chão, falei que ele provavelmente não vai conseguir sobreviver.”

“Aquela imagem ficou muito forte na minha cabeça, e graças a Deus ele acabou conseguindo sobreviver. O Zanardi é uma pessoa que tem uma força de vontade extremamente forte, ele é um lutador, sempre foi. E ele está demonstrando que até hoje ele consegue ter sucesso, tanto que vai estar correndo no GT em Daytona. Mas acho que, de tudo o que eu senti e consegui ver, do pouco que eu vi, aquela cena foi a mais impressionante, porque passei do lado do carro dele, devagar, virei a cabeça para o lado e falei ‘meu Deus do céu’.”

“E outra coisa que me chocou naquele acidente foi que o impacto do carro do Tag [Alex Tagliani] foi tão grande, tão grande, e teve tanta destruição no carro dele, que o Tagliani estava parado uns 300 metros para frente e não tinha nenhum carro de socorro no carro dele. E tinha uns cinco em volta do Zanardi, porque a situação do Zanardi era extremamente crítica. E quando eu passei pelo carro do Tag e olhei para o lado, a cabeça dele estava inclinada dentro do carro, e a primeira coisa que eu pensei foi ‘nossa, ele deve ter se machucado, mas é tão grave a situação do Zanardi que eles esqueceram do carro dele’. E realmente: levou muito mais tempo para chegarem no carro dele do que para chegarem ao carro do Zanardi. O Zanardi, por um milagre, conseguiu sobreviver, e o Tag está bem até hoje.”

Como definir Christian Fittipaldi como piloto

“Eu sempre me preocupei no aspecto bola na rede. Nunca me preocupei em como eu chegaria até a frente do gol, ou como que eu iria chutar a bola dentro do gol. Ou seja, nunca passou pela minha cabeça em ser aquele piloto show, aquele piloto que anda com o carro de lado o tempo todo, e sim passou pela minha cabeça como eu ia fazer para ganhar a corrida.”

Pessoas que mais admira

“Já me perguntaram quem era o meu ídolo… Eu sinceramente nunca tive nenhum ídolo. Até quando eu falo isso, às pessoas falam ‘uau, chocante’. Nunca tive. Sempre admirei as pessoas de sucesso, principalmente no automobilismo mas também em outras áreas. Eu olhava para a pessoa e falava ‘eu com certeza posso aprender com essa pessoa’. Mesmo quando ela não acerta ou quando está em uma situação mais difícil e acaba tomando uma decisão errada, eu posso aprender com aqueles erros. Então sempre admirei bastante as pessoas de sucesso de uma maneira geral.”

Personagens importantes na sua trajetória

“O Rubinho [Barrichello] é um deles, com certeza. Acho que, de todo mundo, ele foi o mais importante, porque ele foi o pontapé inicial. Eu acho que, na época em que a gente estava se digladiando no kart, a gente conseguiu elevar o nosso nível de competição a um patamar mais alto do que todos os outros – tanto que, naquela época, ficou muito claro: ou eu, ou ele. Ou ele, ou eu. Então, era uma briga muito intensa, e eu com certeza devo muito a ele.”

“Não sei se é muito ‘aprender’, mas o fato de ele ter sido a pedra no meu sapato acabou me transformando em um piloto melhor. Então, é nesse aspecto que eu com certeza devo a ele. Eu sou muito grato. Acho que, se a gente não tivesse tido essa batalha tão feroz no começo, de repente o outcome dele na F1 poderia ter sido diferente, do mesmo jeito que o meu em várias outras categorias poderia ter sido bem diferente. Nós exigíamos bastante de nós mesmos, e a gente acabou cobrando bem mais daquilo que a gente poderia fazer. E ele, principalmente, porque foi no começo da minha carreira. Foram os primeiros, sei lá, cinco, seis anos. A gente acabou correndo junto de novo na F1, mas aí a gente infelizmente se separou, porque a minha carreira tomou um rumo nos Estados Unidos e a dele continuou na F1, na Europa, um rumo completamente diferente.”

Como será a vida daqui para frente

“Sinceramente, do fundo do coração, na segunda-feira depois de Daytona não estou pensando qual é o próximo carro que vou guiar, qual minha próxima aventura. Zero. Juro que é absolutamente zero. Tendo dito isto, neste primeiro instante, até para fazer uma transição para mim, vou estar trabalhando na minha equipe nos Estados Unidos, vou continuar indo a todas as corridas [da IMSA]para continuar no papel de consultor técnico para eles, com um dos meus patrocinadores lá nos Estados Unidos e com a própria Cadillac como embaixador.”

“Então, por incrível que pareça, vou estar quase que mais ocupado de quando eu estava guiando. E eu quero sentir mais ou menos as águas agora que não estou mais competindo, que não estou mais dentro da pista, como é que é estar envolvido com as pistas, mas só do lado de fora. E aí eu acho que isso vai me dar o norte para ver se realmente vou fazer isso de 2020 em diante. Sei o que vou fazer em 2019, e acho que, me conhecendo, sei mais ou menos para onde isso vai me levar de 2020 em diante. Mas hoje não posso, sinceramente, te garantir que em 2020 estarei fazendo isso, que em 2021 estarei fazendo aquilo. Estou levando uma coisa de cada vez, então quero terminar Daytona, sair de Daytona como piloto e passar para este próximo passo na minha vida, e aí, ao longo do ano, vou ver tudo o que está acontecendo para ver o que vai ser o meu próximo passo.

Qual legado que deixa para o automobilismo

Eu acho que foi do jeito que foi. E aí as pessoas que entendem mais de automobilismo vão lembrar de algumas características minhas, dentro das pistas, algumas situações positivas, algumas situações negativas. E outros que entendem menos vão lembrar dos resultados. Eu acho que o passado ninguém consegue mudar. Então, foi do jeito que foi. E é óbvio que, enquanto estamos vivendo este passado, a gente está tentando o melhor. Essa é a única recomendação que eu posso dar para todo mundo. Uma das melhores lições que eu aprendi no automobilismo é que nunca um dia é igual ao outro. E, por pior que seja hoje, amanhã a situação pode reverter de uma maneira que você não está nem sonhando. Então, eu gostaria que, se é que eu posso dizer como ‘ser lembrado’, só pelo fato de eu nunca desisti. Em nenhum momento da minha vida eu falei ‘nossa, eu não vou fazer isso’. ‘Nossa, não consigo’. Eu simplesmente cheguei um dia e falei ‘não vou mais guiar’, pronto. Aquilo que eu fiz, já deu.


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