Cinco chegadas da F1 tão incríveis quanto a de Senna e Mansell em Jerez-86

2

Mesmo os ateus concordam: mais vale um clímax memorável do que um desenvolvimento cheio de alternativas. É por isso que, muitas vezes, o que fica na retina do fã médio de automobilismo são os finais. Em especial, aqueles que, diriam os mais antigos, foram definidos pelo photo chart.

Exatos 30 anos atrás, o mais invulgar destes desfechos aconteceu em Jerez de la Frontera, na Espanha. Nesta corrida, três pilotos, Nigel Mansell (Williams), Ayrton Senna (Lotus) e Alain Prost (McLaren), tinham chances de vencer.

Com dez voltas para o fim, Senna ameaçou Mansell na briga pela ponta. O brasileiro concretizou a ultrapassagem no hairpin e o piloto da Williams teve que recuar, permitindo que Prost se esgueirasse até a segunda colocação.

Mansell e Senna no pódio em Jerez
Mansell, Senna e Prost no pódio em Jerez (Divulgação)

Mansell então partiu para uma aposta alucinada. Parou nos boxes para colocar pneus frescos e mergulhar sobre os rivais nos giros decisivos. Foram voltas extasiantes em que o inglês tirou cerca de 4s por volta em relação a Senna.

Depois de passar Prost, Mansell entrou no último giro com uma desvantagem de 1s5 para o líder. No hairpin, o inglês estava roda a roda com o brasileiro, mas aí já era uma questão de saber só quem desaceleraria mais rápido na última curva. De fato, a Williams-Honda foi mais rápida, só que Senna cruzou primeiro, apenas 0s014 à frente do rival.

Esta foi a chegada mais alucinante da história da F1? Sim, talvez pelo conteúdo dramático que se retira do roteiro. Os três pontos “perdidos” por Mansell fizeram diferença no final do campeonato, já que, se o inglês tivesse vencido, teria conseguido a diferença suficiente para desbancar Prost pelo título. Também o resultado estimulou a idolatria em cima de Senna no Brasil –verdade seja dita, o paulistano, à esta altura, era mais popular que Nelson Piquet no país.

Mas houve momentos que chegaram próximo na carga dramática. Alguns com chegadas até mais apertadas, como o Projeto Motor elaborou nesta breve lista. Confira abaixo.

CANADÁ-2000

Os ortodoxos pró-Rubens Barrichello sustentariam que este GP foi o prenúncio da grande conspiração da Ferrari a favor de Michael Schumacher.

Cerca de dez voltas para o final, Schumacher, líder do páreo, começou a sofrer problemas mecânicos em seu carro, diminuindo bastante o ritmo. Poucos segundos atrás do alemão, Barrichello tinha a chance de atacar até a Ferrari o orientar a proteger o companheiro.

“O Michael é o presente, eu sou o futuro da Ferrari. Não vou desrespeitar o time que um dia vai me dar a possibilidade de vencer uma corrida”, resignou-se.

De qualquer forma, a distância entre Schumi e Barrichello no fim da corrida foi a sexta menor da história: 0s174. Aquela foi a terceira dobradinha da Ferrari na temporada 2000.

FRANÇA-1961

Uma vitória surpreendente para Giancarlo Baghetti em seu primeiro GP. Nas últimas dez voltas do percurso, o italiano lutou roda a roda com a Porsche de Dan Gurney, levando a melhor com uma ultrapassagem já na linha de chegada. A diferença entre os dois foi de apenas os100.

À época, o GP da França era disputado no velocíssimo circuito de Reims. O circuito, que saiu da F1 em 1966, possuía duas longas retas de aproximadamente 2 km, o que permitia às equipes explorarem bastante o potencial de velocidade de reta nos carros.

ITÁLIA-1969

Uma das corridas mais apertadas na história da F1, Monza-69 encerrou com quatro ases distintos por uma lacuna de 0s19: Jackie Stewart (Matra), Jochen Rindt (Lotus), Jean-Pierre Beltoise (Matra) e Bruce McLaren (McLaren).

Vale falar que este diferencial microscópico só era possível por conta do mínimo downforce nos carros e porque na época não havia chicanes na pista italiana.

De qualquer forma, foi um final eletrizante: Stewart teve a manha para acomodar uma quarta marcha mais longa no MS80, desferindo energia suficiente para ganhar vantagem no trecho entre a Parabolica e a linha de chegada. Superou a Lotus de Rindt por 80 centésimos no fim e, de quebra, assegurou seu primeiro título mundial na carreira.

ÁUSTRIA-1982

Elio de Angelis e Keke Rosberg nunca haviam vencido na F1 antes do GP da Áustria de 82. Mas naquele 15 de agosto, os dois se viram disputando a liderança da prova após a maioria dos carros turbo se retirar do páreo.

Nos primeiros metros da volta final, Elio estava 1s6 à frente. Logo essa diferença virou nada quando os dois cruzaram juntos a chicane Texaco. Ao surgirem na Rindtkurve, Rosberg estava pronto para dar o bote. Mas o finlandês perdeu o ímpeto na hora H e teve que frear antes da Lotus.

Na reta de chegada, Keke ainda tentou uma última enganchada para espichar à frente de De Angelis, mas a vitória era do italiano. Por apenas 50 centésimos.

ITÁLIA-1971

O Leonardo Felix falou sobre essa corrida aqui. O campeonato já estava decidido a favor de Jackie Stewart, o que felizmente não deixou de potencializar as tradicionais brigas mano-a-mano em Monza.

Foram 26 trocas de liderança até o pelotão ficar reduzido a cinco nomes nas voltas finais: Ronnie Peterson (March), François Cevert (Tyrrell), Mike Hailwood (Surtees), Howden Ganley (BRM) e Peter Gethin (BRM). Parecia que a vitória ficaria com Peterson, que ponteara 23 das 55 voltas. Mas nos últimos metros Gethin conseguiu reduzir uma porção de milésimos para ultrapassar o sueco e vencer pela incrível marca de 0s010 (!).

Até 2003, este tinha sido o GP com a velocidade média mais rápida na história da F1 – 242,615 km/h. Foi a última prova a ser disputada na velha Monza, uma vez que, para 1972, duas chicanes – a Variante del Rettifilo e a Variante Ascari – foram instaladas para reduzir a velocidade dos carros.

DEBATE MOTOR #22 RESPONDE: qual o pior campeão da história da F1?

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.

  • Dox

    Apesar de ser uma chegada desportivamente falsa, teve a do Barrichello e Schumacher em Indianapolis 2002, por 0.011s, valendo como estatística.

  • MarcioD

    No texto sobre Monza 69 fala-se que tal chegada disputada por 4 carros só foi possível devido ao baixo downforce e ausência de chicanes. Monza 71 foi mais apertado ainda, agora envolvendo 5 carros na chegada. Naquela época havia a chamada “guerra do vácuo”, com muita disputa portanto. A disputa por posições é uma das essências do automobilismo.

    Pois bem, pegando este “gancho” e trazendo para os anos mais recentes, vemos o quanto o aumento excessivo do “downforce”, juntamente com o aumento da turbulência traseira prejudicou o “ESPORTE” Formula 1. O aumento substancial do downforce, ao grudar bem mais o carro na pista, facilitando a execução das curvas, acaba nivelando os pilotos por baixo. Fez com que as velocidades em curva se tornassem cada vez mais altas, o que ao diminuir a segurança, se começassem a eliminar as curvas de alta dos autódromos, mutilando-os e propiciando o aparecimento dos “Tilkódromos” cheios de esquinas e cotovelos.

    O aumento da turbulência traseira, em grande parte devida àquele difusor traseiro, acaba prejudicando em muito a aproximação do concorrente e por consequência as ultrapassagens, outra das essências do automobilismo. Para tentar contrabalançar introduziram aquela asa dianteira gigantesca e toda “trabalhada”, que quebra à toa e fura pneus adoidado, bem como o artificio da asa traseira móvel.

    Quanto ás chicanes tenho uma visão pessoal: ao promoverem uma mudança muito brusca de direção e de velocidade, juntamente com o estreitamento de pista, são fonte de muitos acidentes, além de irem contra outra essência do automobilismo que é a velocidade. Acho que seria muito mais inteligente substitui-las por sequencias de esses ou curvas de baixa.