Cinco GPs espetaculares que a F1 produziu mesmo no “fim da feira”

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O douto leitor já deve ter ouvido/lido a expressão “fim de feira”. É aquele momento melancólico em que o feirante começa a desmontar barraca, porque já deu o horário e os itens que ele vende acabaram ou estão prestes a ficar em falta. Quem se arrisca a fazer compras nesse momento está fadado a encontrar só frutas podres, verduras queimadas pelo sol e legumes pouco vistosos esteticamente. O pastel está frio e borrachudo, e da garapa só sobrou o bagaço da cana.

Jornalistas e escribas sardônicos costumam empregar a expressão para identificar eventos esportivos realizados com um vencedor já definido. Geralmente, são etapas de competições longas e computadas por acúmulo de pontos, como o Campeonato Brasileiro e… a F1. Neles, as chances de uma equipe alcançar matematicamente o título antes da última rodada são grandes, porque é difícil garantir, seguindo tal formato, que os certames terão um equilíbrio homogêneo todos os anos, durante toda a competição. Se um time se destaca do resto do grid por um mero detalhe, certamente vai selar a conquista por antecipação.

Nem sempre o GP do Brasil, desde que foi jogado para o fim do calendário, serviu para definir campeonatos. Em anos como 2013, o campeão (Vettel, no caso) já estava coroado

No automobilismo isso é rotina: dos 66 Mundiais de F1 realizados até hoje (contando 2015), em apenas 29 (44%) a decisão ficou para a prova de encerramento. Nas outras 37, o campeão foi coroado restando pelo menos uma corrida a ser realizada. No caso de Lewis Hamilton em 2015, o tricampeonato veio no GP dos Estados Unidos, com três páreos de antecedência. Restavam ainda México, Brasil e Abu Dhabi para fechar o calendário. Nem mesmo o Mundial de Construtores se encontra mais em aberto, já que a Mercedes liquidou a fatura duas semanas antes, na Rússia.

Usar a sentença “fim de feira” para designar as corridas que fecham um campeonato já definido é, pois, uma forma de sintetizar o clima não contencioso dos eventos: sem nada de importante (pelo menos ao público) em disputa, escuderias e pilotos já não trabalham com tanto afinco. Enquanto os chefões estão concentrados nas mudanças de estafe que farão para a estação seguinte e os engenheiros se preocupam com novas soluções para os carros, os mecânicos já pensam nas férias.

Num clima assim, é natural que o nível caia e os GPs sejam mais chatos do que a média, certo? Nem sempre. Às vezes, o ambiente “solto” também pode proporcionar eventos memoráveis, algo que já aconteceu várias vezes na F1 e pode prenunciar um GP do Brasil movimentado no próximo domingo (15). O Projeto Motor relembra abaixo cinco casos. Confira e ajude a aumentar a lista, usando a caixa de comentários, caso lembre de exemplos que não estejam no texto.

Itália/1971 – A chegada mais apertada da história

Com média de 240 km/h, Peter Gethin faturou a corrida de F1 mais parelha já vista
Com média de 240 km/h, Peter Gethin faturou a corrida de F1 mais parelha já vista

Um ano após a morte de Jochen Rindt, a F1 voltava a Monza com o Mundial de Pilotos já definido em favor de Jackie Stewart, recém-coroado bicampeão na Áustria. No velocíssimo traçado italiano (que à época era basicamente o mesmo de hoje, porém sem as chicanes e com a segunda perna da Di Lesmo bem mais aberta), a ausência de curvas fechadas nivelava as forças, o que potencializou uma briga eletrizante entre dez ases pela vitória.

Durante 55 voltas,  Clay Regazzoni (Ferrari), Ronnie Peterson (March), Jackie Stewart (Tyrrell), Chris Amon (Matra), François Cévert (Tyrrell), Mike Hailwood (Surtees), Jo Siffert (BRM), Jacky Ickx (Ferrari), Pether Gethin (BRM) e Howden Ganley (BRM) promoveram 26 trocas de líder. Conforme problemas mecânicos acometiam alguns deles, o pelotão foi sendo gradativamente reduzido até ficar com cinco nomes: Gethin, Peterson, Cévert, Hailwood e Ganley. Eles cruzaram a linha de chegada, nesta ordem, separados por 61 centésimos. O bretão da BRM celebrou assim, no sufoco, sua única vitória na categoria. Assista na íntegra (em alemão):

África do Sul/1985 – A última corrida realizada no sábado

Naquele que foi o último fim de semana da história com um GP oficial realizado no sábado, Williams, Lotus, Brabham e McLaren protagonizaram uma disputa de força de motor e resistência frente ao calor e à altitude do antigo (e bastante rápido) traçado de Kyalami. Alain Prost já rompera a incômoda de ser vice por dois anos consecutivos, tendo confirmado, na rodada anterior, em Brands Hatch, o primeiro de seus quatro títulos na série.

Futuros inimigos, Nigel Mansell e Nelson Piquet formaram a ala de abertura do grid, mas o brasileiro sequer pôde cogitar uma luta pelo topo: logo no quinto giro, deixou o páreo por quebra do BMW 4-cilindros. Ayrton Senna também abandonou cedo, pelo mesmo problema, assim como Niki Lauda, perto de sua despedida das pistas. Com isso, a briga ficou nas mãos de Mansell, Prost e Keke Rosberg, este em tarde endiabrada. O finês chegou a assumir a dianteira na oitava passagem, mas rodou logo depois e teve de antecipar sua troca de pneus. Após nova escapada, foi obrigado a realizar uma segunda troca, partindo para sensacional corrida de recuperação que o levou ao segundo posto, em dobradinha com Mansell. Veja a primeira de sete partes da corrida na íntegra (em português):

Austrália/1990 – Piquet e Mansell revivem duelo no GP 500

Ayrton Senna já se vingara de Prost duas semanas antes, em Suzuka, para conquistar o segundo de seus três títulos. Ainda assim, o brasileiro queria encerrar o ano por cima e partiu da pole no GP da Austrália de 90, ao lado do parceiro de McLaren, Gehard Berger. Aquele seria o 500º evento realizado com o selo oficial da principal categoria do automobilismo mundial. Entretanto, o brasileiro abusou dos freios no exigente circuito citadino de Adelaide e pagou o preço na volta 61, ao bater sozinho na saída da curva 12.

Alçado à ponta foi o desafeto Nelson Piquet, que fizera as pazes com a vitória na etapa anterior e mostrava ânimo àquela altura da carreira. Após partir de sétimo, o veterano superou Jean Alesi e Riccardo Patrese na largada, e depois ultrapassou Alain Prost, Gerhard Berger e Nigel Mansell na pista, em desempenho surpreendente a bordo do B190-Ford Cosworth. A vitória parecia certa e tranquila, mas Mansell, que fez um pit no meio do páreo por desgaste excessivo dos arcos, voltou babando para a metade final da prova e conseguiu encostar no arquirrival a poucos giros do encerramento. Piquet não estava a fim de ceder e, atacado nos metros finais, aplicou uma fechada de porta que entrou para os anais da F1, ratificando o 22º triunfo da carreira. Abaixo, confira a primeira de oito partes do GP na íntegra (em português):

Japão/1993 – Senna brilha em dia embaralhado pela chuva

O circo chegou a Suzuka em 93 com duas novidades, ambas um tanto previsíveis: Alain Prost se tornara o segundo piloto a alcançar quatro Mundiais de F1 no GP de Portugal e, além disso, anunciara que estava se aposentando, em movimento que enfim representava caminho livre para o casamento entre Ayrton Senna e Williams. Algo não mudou, contudo: apesar da evolução da McLaren e do foco da escuderia de Grove em 94, ano de profundas mudanças de regulamento, o francês obteve sua 13ª pole da temporada no circuito japonês, e iniciaria o páreo como favorito (novamente) a ocupar o degrau mais alto do pódio.

Entretanto, a chuva chegou na 18ª volta e favoreceu Ayrton Senna, mestre nessas condições. Sob pista molhada, o brasileiro superou Prost sem dificuldades e controlou um GP repleto de incidentes curiosos (como a audácia do debutante Eddie Irvine, que, a bordo da Jordan, ultrapassou o ponteiro por fora na chicane para descontar a volta de desvantagem que tinha; como recompensa, tomou um sopapo do brasileiro após a corrida), para chegar à quarta vitória no ano e 40ª no geral. Assista à primeira de oito partes da prova na íntegra (em português):

Japão/2005 – Raikkonen faz melhor apresentação da vida

A busca desesperada de Kimi Raikkonen por quebrar o domínio de Fernando Alonso na temporada 2005 acabou em Interlagos: com um terceiro lugar, o ás da Renault encerrou o reinado de Michael Schumacher e se tornou o primeiro espanhol campeão de F1. O finlandês estava vencido, mas ainda tinha algo a provar: queria mostrar que, à parte os problemas de confiabilidade do arrojado McLaren MP4-20, era ele o volante mais veloz daquele ano (pelo menos em número de triunfos).

O desafio no GP do Japão, no entanto, foi hercúleo: após sofrer sua enésima punição por troca de motor no ano, o nórdico foi posicionado em 17º na grelha e partiu para uma combativa recuperação. Superou nomes como Alonso e Schumacher na fase intermediária do GP e, na abertura da última passagem, promoveu épica ultrapassagem em cima do cambaleante Giancarlo Fisichella, por fora na curva 1. Assim, confirmou aquela que provavelmente é a mais brilhante vitória de sua vida e uma das maiores exibições individuais da história do esporte a motor.

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Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.

  • Leandro Farias

    “Se um time se destaca da ror por por um mero detalhe…”

    Essa parte não ficou compreensível.

    • Erro de edição. Corrigimos. Obrigado pelo toque.

      • Leandro Farias

        Valeu!

        Quais foram as outras corridas sabáticas?