Circuitos Mutantes #3: Hermanos Rodríguez e as adequações de modernização

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Única sede do GP do México de F1, o Autódromo Hermanos Rodríguez soube, à sua maneira, se adaptar às exigências modernas do automobilismo e ainda assim se manter uma pista apropriada para as maiores competições do planeta.

Muita coisa melhorou com o passar dos anos. As incômodas ondulações, tão visíveis nas câmeras onboard de décadas atrás, estão muito mais reduzidas na versão atual. Em compensação, há quem reclame que o traçado não é tão desafiador como antigamente, sobretudo após o fim da temida Peraltada.

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Presente na F1 em três eras distintas, em três versões diferentes, o Hermanos Rodríguez é, definitivamente, um circuito apropriado para entrar na nossa seção “Circuitos Mutantes”. Conheça o tradicional palco do GP mexicano nesta viagem no tempo.

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Extensão: 5,000 km

O circuito Magdalena Mixiuhca (ainda sem o nome que leva atualmente) foi fundado em 1959, utilizando as vias de um antigo complexo esportivo no local. Desde cara, o autódromo já contava com diferentes traçados distintos, incluindo o oval – aproveitando os 15º de inclinação da Peraltada (característica que deu origem ao seu nome).

O principal deles tinha exatamente 5 km de extensão, com longas retas, curvas velozes e fluídas e um ponto de baixa velocidade. Foi com esta configuração que a F1 realizou suas primeiras provas no país, entre 1963 e 1970.

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Extensão: 4,421 km

Já com o nome de Hermanos Rodríguez após as fatalidades envolvendo os irmãos Pedro e Ricardo, a pista só voltaria a sediar a F1 em meados dos anos 1980. Para isso, ela teve de passar por amplas reformas, desde a estrutura interna como também barreiras de proteção a fim de impedir a aproximação excessiva do público (um problema recorrente da primeira passagem da categoria pelo local).

O traçado também teve adequações. A reta principal foi levemente encurtada para abrigar uma chicane que levaria à reta seguinte; o grampo foi removido por uma curva um pouco menos lenta, embora todo o restante tenha sido mantido.

A Peraltada teve sua inclinação diminuída, passando a ser em 9º. Porém, alguns problemas persistiram: a ondulação ainda incomodava, sendo que as áreas de escape eram reduzidas. O México deixou o calendário após a edição e 92, e parecia que o traçado teria sérias dificuldades para voltar à categoria.

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Longe da rota da F1, o Hermanos Rodríguez passou a se concentrar em outras competições. Contudo, após a construção do estádio de beisebol Foro Sol, em 1993, um dos pontos principais da pista foi desfigurado. A Peraltada teve seu perfil modificado, embora o traçado original tenha sido mantido para competições menores.

Foi com essa configuração que a Champ Car visitou o local, em 2002. Havia curvas de 90º que passavam por dentro do Foro Sol, em um presságio da reforma que viria por vir.

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Nas últimas visitas em que a Champ Car visitou o local, assim como nas provas de A1 GP, o Hermanos Rodríguez passou a contar com uma solução diferente que permitia o uso da Peraltada original. Uma chicane extremamente lenta foi instalada nos metros finais, o que fazia com que os carros chegassem à curva final em velocidade baixa.

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Determinado a voltar à F1, o autódromo encontrou uma solução criativa para se modernizar sem perder suas características como um todo. Defasado, o Hermanos Rodríguez precisava passar por uma intensa reformulação, tanto em suas dependências quando na pista em si.

Assim, à exceção das retas, o traçado foi inteiramente modificado – a chicane inicial, o trecho lento a seguir, o complexo em alta velocidade… Tudo foi alterado para permitir que áreas de escape mais espaçosas, como pede a F1, fossem criadas.

A novidade passou a ser o trecho dentro do estádio. Curvas de baixa velocidade foram instaladas no interior das arquibancadas, evitando que a Peraltada original fosse usada. Isso desagradou a muita gente, mas permitiu que a pista tivesse as características necessárias para voltar à F1.

Fórmula E

A fim de receber todas as principais categorias da atualidade, o Hermanos Rodríguez desenvolveu uma nova versão em seu traçado: usou trechos do oval, incluindo a Peraltada, além de chicanes provisórias dentro do Foro Sol para desenvolver um traçado da Fórmula E.

Outros textos da série “Circuitos Mutantes”:

– Como Silverstone perdeu essência da alta velocidade
– Spa, de terror do passado a monstro do presente

Debate Motor #98: Limites da pista e o espetáculo: onde é a fronteira?

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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.

  • Até a versão de 2006/2007 a pista manteve sua alma… Apesar dos crônicos problemas com ondulações no asfalto, o Hermanos Rodriguez era um desafio incrível. Uma espécie de mistura de Monza com Spa, sendo que a peraltada era uma curva muito mais legal que a Parabólica e tudo isso na altitude, influenciando muito o acerto do carro…

    Esconder a Peraltada e demolir a genial sequência de curvas que antecedia a reta oposta foi demais… pelo menos um dos trechos deveria ter sido mantido para que a pista pudesse usar o mesmo nome sem ser falsidade ideológica…

  • Ricardo Reys

    Na minha opinião, a melhor solução para a F1 seria acrescentar a Peraltada a lá FE – sem aquele excesso de chicanes -, junto ao restante do circuito. Daí teríamos uma pista que aproveitaria o Foro Sol, a Peraltada, se manteria segura e ainda aproveitaria todas as arquibancadas com um trajeto ligeiramente mais interessante.
    Mas seja como for, nessa e em outras configurações, tá aí um dos poucos crimes contra o automobilismo que não teve o dedo da FIA.

    • Cassio Maffessoni

      Pensei que só eu pensava dessa forma, acrescentando a Peraltada “a moda Fórmula E”, tornaria o trecho do estádio um ponto de ultrapassagens bem interessante e levantaria o povão em todas as passagens, a Peraltada nessa forma ganharia um desafio novo, pois seria uma curva mais técnica, de retomada e que além de ter que dosar bem o pé pra não ir pro muro, a visibilidade seria traiçoeira e bem suscetível a erros dos pilotos. Se fizessem isso, com certeza daria pra ignorar o crime que fizeram deixando os esses “quadrados”.