Cockpit fechado seria uma solução ou um problema para a F1?

4

Nos últimos dias, voltou-se a discutir a possibilidade de cobrir o cockpit de um carro de F1. O debate retornou à pauta do esporte por conta do estranho acidente entre Kimi Raikkonen e Fernando Alonso, no GP da Áustria. No episódio, o assoalho da McLaren passou muito perto de atingir a cabeça do finlandês, o que significou para muitos a urgência de implementar uma cobertura no habitáculo do bólido. A questão, porém, é: até que ponto vale cobrir os assentos tradicionais num F1? Uma modificação não iria desfigurar os carros?

Bom, talvez seja melhor começarmos pelo conceito de monoposto (ou carros-fórmula, como às vezes são chamados no Brasil). Desde o nascimento do automobilismo, os cockpits nos monopostos foram descobertos. À época, num período em que era muito difícil evitar um incêndio num fórmula – seja por explosão de motor ou falha no combustível –, presumia-se que seria mais rápido para um piloto abandonar um veículo em chamas se o assento estivesse descoberto.

Hoje em dia, o cockpit é bem mais protegido do que nas primeiras décadas da F1. Mas ele segue revelado por diversos motivos. Um deles é estético-sensorial: num esporte sem emoções manifestas como a F1, o capacete se tornou um componente considerável na identidade do corredor. Isso significa que, porque não vemos o rosto do piloto, o elmo se transformou numa identificação de sua personalidade. Quem não se lembra, no fim das contas, do capacete verde e amarelo de Ayrton Senna? Ou a psicodélica cimeira de Jacques Villeneuve? O branco e vermelho de Nelson Piquet? Queira ou não, os capacetes só podem ser vistos se o cockpit estiver aberto.

Stirling Moss com a Mercedes streamliner no GP da Itália de 55 (Divulgação)
Stirling Moss com a Mercedes streamliner no GP da Itália de 55 (Divulgação)

Em paralelo, também há a tradição na engenharia dos carros. Não há como negar que uma modificação no cockpit iria descaracterizar totalmente o desenho do monoposto. No padrão de hoje, pelo menos. Mas aí é necessário um pequeno parêntese: nos anos 50, houve várias tentativas de se construir um “fórmula” coberto. A mais notável delas, um modelo streamliner da Mercedes W196, chegou a disputar o GP da Itália de 1955. Esta versão alternativa da Flecha de Prata apresentava o habitáculo parcialmente fechado, quase na altura do nariz do piloto. Ferrari e Maserati se interessaram pela proposta, mas pouco depois a FIA (Federação Internacional de Automobilismo) proibiu a construção de monopostos fechados.

Feito o entreato, por que seria interessante cobrir os assentos de um F1? Primeiro, vamos aos detalhes a favor. Os defensores da proposta – a maioria deles pilotos – acreditam que os estudos sobre o cockpit fechado poderiam ser mais aprofundados em vista dos recentes acidentes nas categorias de fórmula.

Acidente entre Alonso e Grosjean em Spa (EFE/Valdrin Xhemaj)
Acidente entre Alonso e Grosjean em Spa (EFE/Valdrin Xhemaj)

Em 2009, duas colisões difíceis no automobilismo foram causadas por golpes na cabeça do piloto. A primeira, já bem conhecida do leitor, ocorreu com Felipe Massa no fim de semana do GP da Hungria. O brasileiro foi atingido na testa por uma mola arremessada do carro de Rubens Barrichello. A outra tirou a vida do jovem Henry Surtees, que teve sua cabeça atingida por um pneu durante uma prova de F2.

Nos anos seguintes, outras colisões reforçaram a importância do assunto. Em 2012, um choque entre Fernando Alonso e Romain Grosjean no GP da Bélgica fez com que o Lotus do francês por pouco não atingisse a cabeça do asturiano. Já no ano passado, um impacto com um trator em Suzuka deixou o francês Jules Bianchi, da Marussia, em estado vegetativo.

Diante disso, vários pilotos, entre eles Fernando Alonso, passaram a defender a ideia dos cockpits fechados. Na opinião do piloto espanhol:

“Deveríamos checar e tentar a ideia. Temos a tecnologia, os aviões, temos muitas amostras de que isto foi usado de uma forma bem-sucedida, então por que não pensar nisso? A maior parte dos acidentes no automobilismo nos últimos anos se deram por causa de lesões na cabeça.”

Quatro anos atrás, a FIA experimentou uma série de modelos de proteção para cockpit. Durante os testes, foram arremessados, a 225 km/h, uma roda e um pneu de F1, pesando juntos 20 quilos, em cada equipamento. Primeiro, provou-se um para-brisas de policarbonato, e depois, um canopy de caça fabricado com policarbonato aeroespacial – o primeiro sem muito sucesso (os testes podem ser vistos no vídeo abaixo).

Por último, a FIA testou uma gaiola de titânio fabricada pela Lotus. O equipamento seria montado a partir da seção frontal do habitáculo, onde o bico encontra o anteparo dianteiro do carro. Esta experiência foi relativamente bem-sucedida, embora pouco depois a FIA tenha desistido do projeto (veja no vídeo abaixo).

Estes conceitos poderiam ser aplicados? O líder do projeto da FIA, Andy Mellor, diz que sim. Mas implementar um dispositivo desses – qualquer um dos três – não apenas implica uma mudança radical na estética dos carros de F1, como uma mudança no padrão de pilotagem.

Uma limitação óbvia seria a visibilidade, já que, com uma larga estrutura à frente do piloto, sua visão periférica seria bastante afetada – aumentando assim o risco de acidentes. Esta preocupação, aliás, já acontece, em grande escala, com os protótipos de Le Mans, que não são tão distintos de um monocoque de F1, ao menos na engenharia.

Para suportar o teto de proteção e passar nos crash test da FIA, os engenheiros do Mundial de Resistência (WEC) precisam instalar um fino pilar de apoio à frente do corredor. Isso provoca uma redução significativa no plano sensorial do piloto, como aconteceu nesse acidente de Allan McNish nas 24 Horas de Le Mans em 2011.

Agora imagine instalar uma cabine de proteção num habitáculo de F1, que é mais estreito que um protótipo LMP1. Quanto mais afunilado, maior a chance de distorção na visão periférica.

É claro, obviamente, que um cockpit fechado teria salvado a vida de Henry Surtees. E teria atenuado bastante o choque de Felipe Massa. Mas apenas adicionar uma estrutura a um carro de F1 não tornará-lo mais seguro. Ou seja, respondendo à questão inicial, talvez um cockpit fechado, pelo menos no início, fosse mais um problema que uma solução para o esporte. De qualquer forma, todo tipo de experimento deve ser incentivado em nome da segurança. E o douto leitor, é a favor ou contra os cockpits fechados?

 Comunicar Erro

Lucas Berredo

Natural de Belém do Pará, tem uma relação de longa data com o automobilismo, uma vez que, diz sua família, torcia por Ayrton Senna quando sequer sabia ler e escrever. Já adolescente, perdeu o pachequismo e passou a se interessar pelo estudo histórico do esporte a motor, desenvolvendo um estranho passatempo de compilar matérias e dados estatísticos. Jornalista desde os 18 anos, passou por Diário do Pará e Amazônia Jornal/O Liberal, cobrindo primariamente as áreas cultural e esportiva como repórter e subeditor. Aos 22, mudou-se para São Paulo, trabalhando finalmente com automobilismo no site Tazio, onde ficou de 2011 até o fim de 2013. Em paralelo ao jornalismo, teve uma rápida passagem pelo mercado editorial. Também é músico.