Com título da Fórmula E, Nelsinho enfim espanta fantasma do Cingapuragate

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Ninguém do comitê editorial do Projeto Motor pode ser considerado “amigo” ou “chegado” de Nelsinho Piquet. Embora todos do site já o tenham entrevistado em algum momento da vida, nenhum de nós sabe como o primeiro campeão da história da Fórmula E se comporta na vida pessoal. Nem é nosso propósito. Quem faz parte da turma de gatos pingados que acompanha esta página com certa assiduidade sabe que nosso objetivo não será, jamais, meter o bedelho no que um piloto faz ou deixa de fazer fora das pistas.

A fatídica batida proposital de Nelsinho em Cingapura, que mudou para sempre sua carreira
A fatídica batida proposital de Nelsinho em Cingapura, que mudou para sempre sua carreira

O prolegômeno acima é uma espécie de defesa antecipada do que virá doravante. Porque você já leu, no título deste artigo, que vamos falar sobre um suposto “fantasma” do GP de Cingapura de 2008, aquele que aniquilou a passagem do brasileiro na F1 e motivou mudanças profundas nos rumos de sua carreira. Mas ora: quem somos nós para dizer que aquele acontecimento ainda “assombra” o filho do tricampeão mundial Nelson Piquet? Pode ser que ele nem pense mais naquilo – neste caso, faria muito bem.

Quando falamos em “fantasma”, portanto, é preciso compreender o uso do termo em uma circunscrição meramente jornalística. Vamos explicar melhor: se há algo que o mínimo de convivência com Nelsinho te faz perceber, é que ele sabe, em cada entrevista mais extensa que concede, que em algum momento o repórter irá fazer perguntas sobre aquele fatídico 28 de setembro de 2008, na noturna e soturna prova de Marina Bay.

Tanto sabe que, nos últimos anos, vem usando uma forma polida e um tanto inteligente de não ficar remoendo o tema: em vez de tentar podar o jornalista das perguntas, deixa o assunto vir à tona e oferece respostas bastante resumidas, quase sempre acompanhadas de um “não vou ficar entrando em detalhes porque todos conhecem a história e eu já disse tudo o que tinha a dizer”.

É uma atitude de alguém já calejado de tanto repisar no mesmo terreno pantanoso.

Nelsinho Piquet, em seu carro da Fórmula E (Divulgação)
Nelsinho Piquet em seu carro da Fórmula E (Divulgação)

Com o dramático título da Fórmula E, obtido na segunda bateria da rodada dupla de Londres, no último domingo (28), Piquet enfim voltou a firmar os pés em chão firme, 11 anos após conquistar seu último título – Lucas Santochi frisou esse jejum na sexta-feira (26), dois dias antes da decisão, após falar com o volante da China Racing em uma teleconferência. Perguntado sobre isso, o brasileiro minimizou a pressão:

É verdade, faz um tempo que eu não venço um campeonato. Mas ganhei muita experiência nos últimos anos. Elas me ensinaram muitas coisas.

De fato, Nelsinho parece não ter sentido pressão nenhuma ao fazer uma prova perfeita, subindo de 16º para sétimo em uma pista travada e estreita, e garantir o troféu de campeão. Um piloto vencedor não desaprende o caminho das pedras. Confira no vídeo abaixo um resumo (em inglês) da etapa:

Porém, o próprio Piquet há de admitir, nem que seja em seu próprio âmago, que essa conquista tirará um peso de suas costas. Ainda mais por se tratar duma categoria com selo FIA e potencial para ser uma das mais importantes do automobilismo mundial nos próximos anos. Estamos falando do fim de um estigma, do afugentar de um tal fantasma que, mesmo de forma esporádica, ainda aparecia para ele na forma de uma pergunta jornalística.

Tudo isso virou passado: até o último domingo, Nelsinho tinha certeza, em cada entrevista um pouco mais longa, que teria de falar sobre o “Cingapuragate”. Com a conquista da Fórmula E, o único tema “obrigatório” a tratar com repórteres daqui por diante será o troféu que lhe atesta o primeiro campeão de uma categoria formada por veículos 100% elétricos na história do automobilismo.

Esse feito, sem sombra de dúvidas, sobrepuja qualquer erro cometido antes.

 Comunicar Erro

Modesto Gonçalves

Começou a acompanhar automobilismo de forma assídua em 1994, curioso com a comoção gerada pela morte de Ayrton Senna. Naquela época, tomou a errada decisão de torcer por Damon Hill em vez de Michael Schumacher, por achar mais legal a combinação da pintura da Williams com o capacete do britânico. Até hoje tem que responder a indagações constrangedoras sobre a estranha preferência. Cursou jornalismo pensando em atuar especificamente com automóveis e corridas, e vem cumprindo o objetivo: formado em 2010, foi consultor do site especializado Tazio de meados de 2011 até o fim de 2013; desde maio de 2015 compõe o comitê editorial do Projeto Motor.