Como a indefinição da F1 abriu terreno para o crescimento comercial da Fórmula E

3

A Fórmula E chega a sua quinta temporada disposta a impulsionar ainda mais seu crescimento e se estabelecer como atração de grande relevância em escala global. Por mais que ainda haja trabalho pela frente até que todas as peças se encaixem, a adesão de empresas poderosas no mercado, seja do setor automotivo ou de outros segmentos, indica um terreno fértil e atrativo do ponto de vista comercial.

Por empunhar uma bandeira diferente no automobilismo ao adotar de peito aberto o uso da tecnologia elétrica, a Fórmula E e seu progresso constantemente trazem à tona comparações com o momento da F1 e seus rumos para o futuro. De fato, trata-se de um assunto muito profundo, que nos faz ponderar sobre o aspecto técnico, comercial e até simbólico da principal categoria do automobilismo mundial.

Fique ligado em nossas redes sociais: 
Twitter – @projetomotor
Facebook – Projeto Motor
Youtube – Projeto Motor
Instagram – @projetomotor

Então, o Projeto Motor levantará alguns pontos para reflexão que indicam que a F1 terá, uma hora ou outra, de escolher exatamente o caminho que quer tomar para si pensando no futuro em longo prazo.

Recapitulando a história

O grande crescimento esportivo da F1 aconteceu no período entre as décadas de 70 e 90. Sob a liderança de Bernie Ecclestone, a categoria ficou comercialmente mais coesa, explorou novos mercados, obteve contratos multimilionários com a televisão. Àquela altura, a F1 enfim deixava de ser só uma competição entre garagistas para se tornar um verdadeiro espetáculo global, fazendo frente a atrações do porte de Copa do Mundo e Olimpíadas.

Sob a gestão Ecclestone, F1 deixou de ser uma festa amadora de garagistas para se tornar um megaevento global

Naquela mesma era do esporte, a F1 conseguia, sem grande esforço, transparecer ao mesmo tempo as mensagens de tecnologia e espetáculo. Um motor que entregava mais de 1000 cv em uma volta de classificação, despejando faíscas e com um piloto visivelmente trabalhando duro para domar o conjunto, provocavam um efeito imediato de encanto no público e simultaneamente exibia a representação de modernidade e sofisticação para um carro.

Outras inovações tecnológicas, como o habitáculo de sobrevivência e a fibra de carbono, aumentaram significativamente a segurança, de modo que os pilotos tinham mais liberdade para levar as indomáveis máquinas ao limite sem o toque de carnificina das décadas anteriores.

Para a indústria do automóvel, também foi um prato cheio. Afinal, naquela época, um carro que provocava cobiça tinha de ter, de preferência, potência, imponência, performance. Os atributos que as fabricantes buscavam associar às suas marcas eram compatíveis com aquilo que a F1 tinha a oferecer.

Isso tudo colocou a F1 na crista da onda. Ela conquistou uma legião de fãs de perfis diferentes – tanto aqueles que se interessam pelo aspecto tecnológico quanto os que simplesmente apreciavam um bom show esportivo -, atraiu patrocinadores e cativou ainda mais a indústria. Entrar na categoria e se tornar uma vencedora por lá era o recado mais claro possível de que tal fabricante era capaz de produzir um bom carro. Era o famoso “win on Sunday, sell on Monday” em sua mais pura essência. Todos saíam ganhando.

Mas o tempo passou. Nas décadas mais recentes, a tecnologia, sociedade e seus costumes mudaram significativamente. A relação do ser humano com o automóvel também. A modernidade nos carros possui uma série de atributos positivos, mas não provoca necessariamente o mesmo impacto audiovisual que acontecia antes. A transferência destas novas qualidades para o caráter historicamente extremo dos modelos da F1 não era mais tão simples. Um carro de rua visado pela grande indústria contemporânea tem de ser econômico, confortável, prático, o que rompe com aquela compatibilidade automática com as competições da F1.

Entendendo o seu devido lugar

Goste da F-E ou não, categoria tem uma proposta clara e definida (LAT/Fórmula E)

Neste cenário, a Fórmula E entendeu exatamente o espaço que quer preencher. A categoria não tem a pretensão de que seus carros sejam os mais espetaculares do automobilismo, nem os mais velozes – tanto que adota itens que propositalmente limitam a performance, como os pneus com perfil “de rua”, para pensar no produto como um todo.

Sua proposta é ter como plano de fundo um mostruário da tecnologia elétrica, o que agrada à indústria. A semente dos motores silenciosos são plantadas desde já para que eles se tornem mais familiares ao público. Assim, quando a nova natureza dos motores de fato será comercializada em grande escala, daqui a algumas décadas, não se tratará de algo que causa tenta estranheza.

O próprio visual do carro, com linhas futuristas e sem a preocupação em extrair desempenho de todos os elementos, é mais um aspecto que provoca a impressão de modernidade à categoria.

Já a parte competitiva da Fórmula E é trazida por outras frentes, como chassis padronizados, o que aumenta a imprevisibilidade e a competitividade entre os pilotos, ou ações como Attack Mode ou Fanboost. O conceito da categoria como um todo reinventa o formato tradicional do automobilismo a fim de promover a nova tecnologia e cativar um novo público. Independentemente se o produto final da Fórmula E agrada ou desagrada (e a discussão nesse sentido vai longe), ela possui uma proposta definida e clara.

F1 quer passar imagem de espetáculo e tecnologia, mas, no contexto atual do automobilismo, não consegue ser nenhuma das duas coisas (Divulgação/Red Bull Content Pool)

A F1, por sua vez, ainda tenta seguir sua receita habitual. Oras, ela sempre mesclou espetáculo e tecnologia em certa dose, então por que mudar? O ponto é que, com o passar do tempo, as mudanças sociais e tecnológicas tornam este equilíbrio difícil, e a tendência é ficar ainda mais. Isso resultou em uma F1 que ainda não conseguiu mostrar exatamente qual é sua proposta: quer ser tecnológica e espetacular ao mesmo tempo, mas, de certa forma, não é predominantemente nenhuma das duas coisas.

Sim, um carro de F1 é extremamente moderno e sofisticado, muito mais do que um modelo de Fórmula E. Mas, neste caso, estamos falando de marketing, e a questão é o valor transmitido pela marca, ou seja, aquilo em que o público pensa quando se depara com o evento. Não se trata somente de ser tecnológico, mas de parecer tecnológico.

Por defender o discurso mais abertamente, sem pudor, a Fórmula E transparece tais valores de forma mais direta. No universo do esporte a motor, a categoria representa inovação, consciência ambiental, pensamento em uma tecnologia de olho em um mundo melhor e mais sustentável. Mais: tudo isso por um custo muito baixo em relação ao investimento necessário para competir na F1.

Exatamente por ser compatível com os valores da indústria e transmitir a mensagem condizente com os tempos modernos, a entrada de fabricantes do setor automotivo e de patrocinadoras foi abundante. Afinal, que empresa de hoje em dia não quer dizer que se preocupa com o futuro do planeta? Especialmente se você, em um passado recente, se envolveu em um escândalo com poluentes que sujou sua imagem… Por outro lado, a F1, que esperava pela adesão de fabricantes com a adoção de seu regulamento híbrido, não se tornou atrativa como esperava para as marcas e nem agradou em cheio o público. E agora?

O caminho para a F1 pode envolver a revisão de um discurso de longa data de defesa da bandeira tecnológica, a mudança nas prioridades (com um foco maior ao esporte/entretenimento em vez da indústria) e a compreensão de um público que caminha para a segmentação em relação ao que ocorria tradicionalmente no automobilismo. Confira na segunda parte da análise aqui.

Debate Motor #147: vai começar a nova temporada da Fórmula E:

 Comunicar Erro

Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.