Do inferno astral ao topo do pódio: como Berger conquistou sua última vitória na F1

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“Da primeira vitória a gente nunca esquece”. Esta frase já foi dita por diversos pilotos que tiveram o privilégio de subir no topo do pódio na F1 em múltiplas ocasiões. Mas, para Gerhard Berger, o champanhe teve um sabor especial não em seu primeiro, mas justamente em seu último triunfo, que foi obtido após o austríaco superar um verdadeiro inferno astral no lado profissional e no pessoal.

No GP da Alemanha de 1997, Berger venceu de maneira improvável, quando as coisas estavam indo de mal a pior em sua situação dentro da Benetton. Já mais perto do fim da carreira, o veterano não conseguia ser rápido e consistente diante de uma geração faminta e habilidosa que estava por vir. O seu carro também não inspirava mais a confiança dos tempos de títulos com Michael Schumacher, em 1994 e 1995.

Para piorar, Berger enfrentou contratempos difíceis, tanto com problemas de saúde que o atormentaram ao longo da campanha de 97, quanto uma tragédia que tirou a vida de seu pai.

Tudo isso ficou temporariamente superado naquela tarde ensolarada no fim de julho. Berger esteve em um fim de semana inspirado em Hockenheim, que lembraram os fãs de suas atuações mais competitivas, com direito a pole position e vitória com autoridade.

Vamos relembrar os principais fatos que envolveram a trajetória de Gerhard Berger até a conquista de sua décima e última vitória na F1.

A situação de Berger

Berger retornou à Benetton, para quem já havia guiado nos anos 80, de olho em mais um recomeço para a sua carreira. Antes, ele havia sido peça importante da Ferrari em um dos períodos mais conturbados da história da equipe de Maranello, entre 1993 e 1995.

Àquela altura, a Ferrari havia perdido terreno entre as protagonistas e fazia figuração diante de Williams, Benetton e até McLaren. Assim, o time italiano tinha de passar por um período de transição, de olho em reforçar sua estrutura interna para voltar ditar as regras em um futuro próximo. O ponto é que Berger não era parte desta reestruturação.

Para 1996, o austríaco e seu então companheiro de Ferrari, Jean Alesi, se mudaram para a Benetton para abrir espaço para Michael Schumacher, contratado por Jean Todt e Luca di Montezemolo a peso de ouro. Berger, então, assumiria a estrutura que vinha de dois títulos mundiais, o que representava um território perfeito para recomeçar. O que poderia dar errado?

Berger e a Benetton ficaram em branco na temporada de 1996

As respostas vieram logo de cara. Berger recomeçou sua vida na Benetton com dificuldades, causando múltiplos acidentes em seus primeiros testes com o carro do bicampeonato de Schumacher. A própria equipe também tinha sua parcela de culpa em seu momento de queda, já que aparentava se tornar uma operação desgastada por conta de toda energia depositada na luta pelo título dos dois anos anteriores.

Naturalmente, a Benetton perdeu espaço no pelotão da frente em 96, bem atrás de Williams e até de Ferrari. Schumacher, em seu primeiro de Maranello, conquistou sozinho mais vitórias do que Berger e Jean Alesi juntos entre 93 e 95, o que certamente não ajudou em nada na reputação da dupla.

É verdade, no entanto, que Berger passou perto da vitória no GP da Alemanha de 96, quando liderava Damon Hill nas voltas derradeiras, mas abandonou com uma quebra de motor a apenas três giros do fim. Restou a ele terminar a temporada com o quinto lugar na tabela, com apenas um segundo lugar em Silverstone como melhor resultado.

Para 1997, a montanha a ser escalada pela Benetton parecia ainda maior e mais difícil. Membros cruciais do departamento técnico, Ross Brawn e Rory Byrne também se mudaram para a Ferrari para acompanhar Schumacher, enquanto que a McLaren via surgir os primeiros frutos de sua parceria técnica com a Mercedes. Para a Benetton, era um sinal claro de que era a hora de se reinventar. Para Berger, os problemas estavam só começando.

A luta contra a sinusite

Verdade seja dita: a temporada de 1997 não começou das piores para Gerhard Berger. Nas três primeiras corridas, o veterano acumulou um quarto lugar (Austrália), um segundo (Brasil) e um sexto (Argentina), o que o deixava com menos pontos somente do que Jacques Villeneuve, que disparava como favorito com a Williams.

As coisas começaram a sair dos trilhos após a rodada de Buenos Aires. Em uma sessão de testes em Barcelona, Berger começou a se sentir doente, como se estivesse com uma forte gripe e febril. Depois de realizar exames mais detalhados, o piloto detectou a causa: um dente quebrado havia se tornado foco de uma forte infecção.

A temporada de 97 não começou mal para Berger

O austríaco acreditava que rachou o dente sem perceber com o passar do tempo, uma vez que costumava usar capacetes bem apertados, o que pressionava o maxilar e provocava desgaste dos dentes em longo prazo – especialmente os molares superiores, como era aquele que foi danificado. Foi preciso que se realizasse um tratamento intenso, a base de intervenções odontológicas, antibióticos e anti-inflamatórios.

Depois do GP da Espanha, a sexta corrida do ano, Berger precisou passar por uma cirurgia mais invasiva, com direito a anestesia geral e todos os cuidados do tipo. Porém, ali foi descoberto um novo foco de infecção no maxilar, o que evoluiria para uma sinusite – e indicava que o problema estava ainda longe de ter um fim.

Antes do GP do Canadá, em junho, Berger teve de passar por mais um procedimento cirúrgico, no qual extraiu dois dentes e tratou da sinusite. A saúde debilitada tirou o piloto de ação por três corridas, no Canadá, na França e Inglaterra, quando foi substituído pelo reserva Alexander Wurz.

Sua relação com a Benetton (sobretudo com Flavio Briatore) também começou a azedar àquela altura. Berger não pontuou mais após a corrida de Buenos Aires e despencou para oitavo no campeonato, com os mesmos 10 pontos que havia marcado nos três primeiros GPs.

Também não ajudou em nada o fato de que o estreante Wurz, em suas primeiras três corridas na F1, tenha se classificado à frente de Alesi em duas e conquistado um pódio graças ao terceiro lugar em Silverstone. Berger, para efeitos de comparação, perdia para Alesi em sessões classificatórias por 4 a 2, e ver um novato entregando resultados como esses deixava a situação constrangedora.

De fato, a situação de Berger não era das mais fáceis. Mas, em julho, pouco antes da corrida de Silverstone da qual foi desfalque, ele enfrentou seu maior contratempo no ano – e talvez um dos maiores de sua vida.

O drama de Berger com seu pai

Voltemos alguns anos em nossa história. Berger viu de perto os desdobramentos dramáticos envolvendo seu pai com a justiça em meados da década de 90. Johann Berger, empresário do ramo dos transportes, havia sido preso em agosto de 1994, acusado de ser um cúmplice de um empresário suíço em um esquema de fraude envolvendo empréstimos de banco.

O episódio envolveu a captação em um banco alemão de 17,5 milhões de marcos, na época equivalentes a aproximadamente US$ 10 milhões, com a promessa de investimento em uma madeireira em terras germânicas. O problema foi que tal iniciativa não saiu do papel, já que o negócio em questão era uma operação fantasma arquitetada com o único intuito de adquirir o dinheiro do banco.

Problemas jurídicos de seu pai foram uma distração para Berger em 97

Entre idas e vindas na justiça com o processo em andamento, Johann Berger foi sentenciado a 5 anos e quatro meses de prisão exatamente entre a primeira e a segunda corrida de 1997, na Austrália e no Brasil. Berger, que defendia a inocência de seu pai, nunca escondeu que o imbróglio era algo que o afetava diretamente, o que também representava um desgaste emocional e uma distração em seus preparativos para as corridas.

Mesmo condenado na justiça, Johann Berger aguardava em liberdade o julgamento do recurso movido por sua família. De qualquer forma, o resultado do processo de nada importaria: o patriarca do clã Berger morreu de forma trágica.

No dia 9 de julho, o avião monomotor que o próprio Johann Berger pilotava a caminho de Liechtenstein caiu dois minutos após decolar, nas montanhas do Tirol, na Áustria, perto de onde Gerhard nasceu e cresceu. O ocupante morreu na hora, aos 62 anos de idade.

Johann era um piloto com experiência, acostumado a fazer suas próprias viagens, e por isso o ocorrido causou estranheza. Houve quem especulou que a queda da aeronave havia sido uma reação desesperada de alguém que queria evitar, a todo custo, a humilhação de entrar na velhice dentro da cadeia. A versão na qual a família Berger se apoia, no entanto, usa como justificativa para o acidente a falta de visibilidade do local, uma vez que fazia uma neblina intensa no fatídico dia.

Berger, como é possível imaginar, ficou devastado com a perda de seu pai, especialmente pelas circunstâncias em que isso aconteceu. Mesmo assim, ele voltaria com estilo ao paddock da F1 pouco mais de duas semanas depois.

A surpreendente volta por cima

Toda a situação traumática pela qual Berger havia passado nos meses anteriores causava questionamentos sobre sua continuidade na F1. Havia até suspeitas de que o piloto sequer terminaria a temporada de 1997, já que ele, prestes a completar 38 anos de idade e com mais de 200 GPs no currículo, de qualquer forma ainda não teria muito tempo de carreira pela frente.

O próprio Berger conta até os dias atuais que Flavio Briatore foi um daqueles que insistiram para que sua aposentadoria fosse antecipada. Como o austríaco relata, Briatore argumentava que Berger era um piloto debilitado fisicamente, que havia passado por um trauma enorme e que precisava descansar e repensar a vida. Qualquer coisa, a Benetton estaria bem suprida, já que o jovem Alexander Wurz estava cheio de gás para continuar no carro e progredir em seu início de carreira na F1.

Mesmo assim, Berger insistiu e se mostrou decidido a terminar a temporada e deixar seu jovem compatriota ainda se aquecendo no banco de reservas. Seu retorno foi confirmado no GP da Alemanha, a décima corrida do ano. Porém, já na quinta-feira anterior à corrida de Hockenheim, ele confirmou que poderia até continuar na F1 em 1998, mas que isso com certeza não seria com a Benetton.

Dentro da pista, as coisas pareciam mais animadoras. O conjunto da Benetton, empurrado pelo forte motor Renault, se mostrava forte nas longas retas da floresta, proporcionando uma competitividade acima da média para os padrões da equipe em 1997. E Berger era um especialista no velho traçado de Hockenheim – conquistou ali sua única vitória em sua segunda passagem pela Ferrari, em 1994, e passou perto de um novo triunfo na edição de 1996.

Na classificação, Berger fez uma volta certeira para garantir a pole position, superando por pouco o também surpreendente Giancarlo Fisichella, da Jordan. O que chamava a atenção era a vantagem de 0s6 que o austríaco aplicou em Jean Alesi, o sexto do grid com o mesmo carro, e de 1s sobre Jacques Villeneuve, o nono no grid em Hockenheim.

“Durante a classificação, dei uma volta tão fluida, tão intensa e tão correta que tinha de ter sido a melhor. Quando recebi a mensagem ‘pole position’ na volta de desaceleração, pela primeira vez em meus 18 anos de corridas meus olhos se encheram de lágrimas. Eu só conseguia pensar em meu pai. Vi os restos do avião acidentado a minha frente e fragmentos da fala do pastor no funeral ecoaram em minha mente – tinha sido a primeira vez que eu realmente ouvira um pastor”, relatou Berger em seu livro “Na Reta de Chegada”

No domingo, Berger fez uma boa largada, mas viu Fisichella ameaçar nos metros iniciais. O piloto da Benetton adotou um traçado mais defensivo e manteve a ponta, e ainda viu o italiano da Jordan sofrer o assédio de Michael Schumacher.

Berger sobrava em termos de ritmo, de modo que sua vantagem para Fisichella chegou aos 12s nas 16 primeiras voltas. Isso deixava mais evidente que havia duas estratégias diferentes em andamento: Berger pararia duas vezes, contra apenas um pitstop de Fisico.

O Benetton #8 foi aos boxes pela primeira vez na volta 17, o que deu a ponta temporária para a veloz Jordan amarela. Fisichella só pararia no 24º giro, retornando à pista 16s atrás de Berger. Só que o austríaco precisava parar mais uma vez, e o italiano não – isso significava que a vantagem precisava subir.

Berger elevou a diferença para 19s e teve de ir aos boxes na volta 34. Não foi o bastante: Fisichella retornou à ponta, com uma pequena vantagem para a Benetton que já lhe importunava no retrovisor. Mas aquele dia parecia que já tinha dono, uma vez que Berger não teve trabalho para fazer a manobra de ultrapassagem decisiva na reta após a chicane Senna.

Sua situação ficou ainda mais tranquila quando Fisichella sofreu um furo no pneu traseiro esquerdo e ficou de fora da luta pela vitória. Assim, coube a Berger conduzir a Benetton à bandeirada com vantagem confortável para Schumacher e Mika Hakkinen, que completaram o pódio.

Berger comandou um pódio diante de uma geração mais jovem em Hockenheim

Era a primeira vitória de Berger na F1 em três anos, e a única da Benetton depois da saída de Schumacher.

“Acho que tive uma força especial que veio de algum lugar. E acho que sei de onde isso veio”, celebrou um emocionado Berger

Aquele 27 de julho foi o canto do cisne para Berger nas pistas. Sua situação voltou à normalidade nas sete corridas restantes na temporada, quando pontuou por apenas mais três vezes – um sexto lugar na Bélgica, um quarto em Nurburgring e outro quarto em Jerez de la Frontera. O balanço final foi um quinto lugar na tabela, nove pontos atrás de Alesi (que, lembre-se, fez três corridas a mais e marcou 12 pontos exatamente nas corridas em que Berger ficou afastado).

Berger se aposentou das competiçõe ao fim daquele ano, abrindo espaço na Benetton para uma jovem dupla formada por Fisichella e Wurz. De fato havia chegado a hora de pendurar o capacete e colocar um ponto final a uma carreira competitiva e bastante digna. Ao menos, Berger teve tempo de comemorar por uma última – e inesperada – vez.


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Bruno Ferreira

Sempre gostou de automobilismo e assiste às corridas desde que era criança. A paixão atingiu outro patamar quando viu – e ouviu – um carro de F1 ao vivo pela primeira vez. Depois disso, o gosto pelas corridas acabou se transformando em profissão. Iniciou sua trajetória como jornalista especializado em automobilismo em 2010, no mesmo ano em que se formou, quando publicou seu primeiro texto no site Tazio. De lá para cá, cobriu GPs de F1 no Brasil e no exterior, incluindo duas decisões de título (2011 e 2012), além de provas de categorias como Indy, WEC, WTCC e Stock Car.