Como eram os GPs extracampeonato da F1 e como eles poderiam voltar

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Novo diretor esportivo da F1, Ross Brawn anunciou recentemente que considera ressuscitar o uso os GPs extracampeonato para testar novos formatos de corrida, que possam, caso aprovados, serem utilizados em etapas do Mundial posteriormente.

A ideia pode soar muito estranha para muita gente. Como assim uma prova de F1 que não conta pontos para a classificação nem nada? Bem, isso na verdade já foi relativamente comum na categoria.

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É sempre bom lembrar que antes da organização de um campeonato, F1 era nada mais que um conjunto de regras que padronizavam um certo tipo de corrida. Estas provas eram realizadas de forma isoladas, sem contar pontos para algo maior. Em 1950, resolveu-se então unificar tudo isso dentro de um Mundial.

Mesmo assim, pilotos e equipes continuaram participando de eventos que não faziam parte do calendário oficial. E essa prática durou por um bom tempo, até o começo da década de 80. A última prova extracampeonato da F1 foi a “Corrida dos Campeões” (nada a ver com aquela “Corrida dos Campeões” atual que acontece dentro de estádios de futebol), no circuito de Brands Hatch, em 1983.

Carros da F1 na Gold Cup, em Oulton Park, em 1954
Carros da F1 na Gold Cup, em Oulton Park, em 1954

Esta “Corrida dos Campeões”, aliás, aconteceu entre 1965 e 83, pulando apenas cinco edições, com uma lista de vencedores que passa por Jackie Stewart, Emerson Fittipaldi, Bruce McLaren, Gilles Villeneuve e até um triunfo de Tom Pryce, com uma Shadow, em 1975.

Oulton Park é outro circuito inglês que realizava anualmente corridas de F1 independentes, como a Copa de Ouro, de 1954 a 72, além de alguns outros eventos como a Copa Primavera, sempre atraindo bons grids – e patrocinadores.

Um dos eventos mais tradicionais que a F1 participava sem contar pontos para o campeonato acontecia em Silverstone. O International Trophy foi realizado entre 1949 (isso mesmo, pré-Mundial) até 78. A prova acontece até hoje, mas, sem espaço no calendário da categoria mãe, passou a ser uma prova de F2 a partir de 79, de F3000 entre 85 e 2004, e desde então é uma corrida de F1 históricos.

De qualquer maneira, em seu auge, era uma corrida importante para pilotos e equipes. Em entrevista á revista Motorsport Magazine, Stirling Moss chegou a explicar que a prova chegava a ser prioridade para muitos, principalmente pelo seu prêmio.

“O International Trophy era, na verdade, mais importante que o GP da Inglaterra por cauda do prêmio em dinheiro. Por isso tinha normalmente uma lista de inscritos fantástica. O Mundial pode estragar as coisas porque os pilotos ficam mais tempo tentando ganha-lo do que tentando vencer as corridas individuais. Para mim, isso é errado. Para mim, a coisa mais importante é a corrida de hoje. Hoje, eu posso vencer, perder ou morrer. O que é mais importante que isso?”

A F1 realizou, no entanto, diversos outros eventos extracampeonato fora da Inglaterra. Desta forma, foi possível visitar circuitos inusitados e até mesmo testar mercados. Você podia ver, por exemplo, carros de F1 nas mãos de pilotos sedentos por uma oportunidade correndo em pistas em circuitos espalhados pela Europa que dificilmente entrariam no calendário, ou até em outros continentes, como Austrália e África, muito antes de acontecerem etapas locais para o campeonato.

Muitas equipes utilizavam essas provas fora do calendário – principalmente as europeias – para testes de novidades em seus carros, enquanto novos pilotos aproveitavam oportunidades únicas para mostrarem seu talento, o que poderia render patrocínios e uma vaga em etapas oficiais.

A própria FIA se utilizava da prática para fazer seus testes. O primeiro GP do Brasil da história, em 1972, foi uma prova extracampeonato realizada em Interlagos. A entidade, na época, exigia uma série de testes em autódromos que não recebiam eventos deste porte, o que incluiu um “evento teste”, vencido pelo argentino Carlos Reutemann, com uma Brabham-Ford. Aprovada, a pista paulistana passou a receber uma etapa do Mundial a partir do ano seguinte.

E essa não foi a última vez que o público brasileiro assistiu à uma prova do tipo. Dois anos depois, 12 carros da categoria seguiram para Brasília, uma semana depois do GP do Brasil em Interlagos, para uma corrida extracampeonato que marcaria a inauguração do autódromo da capital federal.

Ao contrário da prova de 72, este foi um evento mais político do que esportivo, com o nome de GP Presidente Emílio Médici, mandatário do país durante a ditadura militar e que ficaria no poder até dois meses depois.

No final da temporada de 61, pouco menos de um mês antes do primeiro GP da África do Sul, que aconteceria no circuito de East London, Jim Clark o IV Rand GP, em Kyalami.

Luigi Musso,com sua Ferrari, no circuito da cidade de Siracusa, na Sicília
Luigi Musso,com sua Ferrari, no circuito da cidade de Siracusa, na Sicília

No mesmo ano, Modena, próxima a sede da Ferrari, em Maranello, sediaria o 15º (e último) GP da cidade, o segundo sob regulamento da F1, corrida vencida por Stirling Moss, de Lotus. A Itália, aliás, assim como a Inglaterra, sempre teve tradição por estas corridas. Roma, em 63, e Vallelunga, em 72, também receberam a categoria em provas extracampeonato.  Entre 1951 e 67, Siracusa, na Sicília, sediou um evento que por muitos anos contou com nomes da primeira linha da F1, tanto entre pilotos como entre as equipes e carros.

Como não tinham o apelo dos pontos para o Mundial, alguns eventos, por outro lado, sofreram problemas para atrair nomes da F1. Em 69, por conta do revezamento com Barcelona, os proprietários da pista de Jarama, em Madri, resolveram promover a sua própria corrida, um mês antes do GP da Espanha na cidade rival.

Só que poucos pilotos da categoria principal se inscreveram no GP de Madri e os organizadores, para não terem que cancelar, abriram a prova para o regulamento da F5000, que estava crescendo no mundo (já contamos a história da F5000 aqui).

Agora resta saber o que vem de Ross Brawn e a Liberty como formato de evento. Quem sabe uma espécie de Duel, como acontece na Nascar? Como o público acompanha pela TV todas as etapas, ao contrário do que acontecia até os anos 70, a nova direção certamente sabe que não adianta inventar mais um evento igual aos outros. Algo diferente, que possa surpreender ao público anualmente, terá que ser bolado. E se puder incentivar pilotos novatos, melhor ainda.

 

Projeto Motor Entrevista: Ricardo Divila

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Lucas Santochi

Mais um fanático da gangue que criou vínculo com automobilismo desde a infância. Acampou diversas vezes nas calçadas ao redor de Interlagos para assistir aos GPs e nunca esqueceu a primeira vez que, ainda do lado de fora do autódromo, ouviu o barulho de F1 acelerando pela reta. Jornalista formado em 2004, passou por redações na época da TV Band e Abril, teve experiência na área de assessoria de comunicação esportiva até chegar ao site especializado em esporte a motor Tazio, em 2010. Passou pelas funções de redator, repórter (cobrindo diversas corridas no Brasil e exterior de F1, Indy, WEC, Stock Car, entre outras) e subeditor até o final de 2013, quando o veículo encerrou suas atividades. Trabalhou ainda como redator do UOL Esporte em 2014 até que decidiu se juntar com os outros três membros do Projeto Motor para investir na iniciativa.

  • Antonio Manoel

    Entendo que a limitação orçamentária em conjunto com a inexistência da pontuação tenha ceifado os GP’s extra campeonato da Formula 1, mas acredito que sendo a F1 muito além de uma categoria laboratório, um entretenimento para o público, a volta desses GP’s seria interessante, além de mais possível agora, sendo comandada pela Liberty Media, que vê a categoria acima de tudo como um entretenimento. Além do mais, a volta desses GP’s poderia ser útil para o desenvolvimento dos carros, podendo talvez ter regras menos restritas, podendo assim ainda existir a evolução e o desenvolvimento de tecnologias e da aerodinâmica (isso sem falar na visita de novos palcos), o que somado tornaria a F1 em um belo espetáculo.

  • Diogo Rengel Santos

    É uma idéia das mais interessantes do Ross Brawn. Para evitar “barulho” das equipes menores por causa dos custos logísticos, faz algo na Europa. Poderiam fazer uma enquete com o fãs para eles escolherem uma pista que não esteja no campeonato – dentre uma lista de pistas clássicas, para evitar “zoações” e aí faz uma corrida extracampeonato com regras de corrida diferentes – como um laboratório.

    Não é uma má ideia mesmo

    • GabryelCaruaru

      Pistas classicas e tbm pistas novas

  • Douglas Pacheco

    Tomara q eles não mudem o formato da corrida. Gosto muito de como as coisas estão.

    Qualificação e corridas nao deveriam mudar nada na minha opinião.

  • Dox

    Vejo estas provas como alternativas para estes testes de pré-temprada que estão ocorrendo agora.
    O pessoal passaria a semana fazendo os acertos e, no final dela, aconteceria a prova, que até poderia amortizar os custos destes testes.
    Estas provas, no meio da temporada, tambem serviriam para isso, podendo colocar em ação pilotos reserva, e diminuindo a grande quantidade de provas oficiais.
    Ao contrário da corrente, que quer ver a F1 com maior exposição, como streamings e coisas assim, eu sou da opinião de que quanto menos exposta, mais atraente ela fica, devido à ansiedade pelo evento.

  • Rafael Schelb

    Eu acredito que 3 ou 4 corridas por ano pra se testar novas peças nos carros e contando com pilotos novatos em pistas que não fazem parte do mundial, como por exemplo Ímola, Zolder, Zandvoort, Donington, Estoril, etc, seria uma boa ideia…